terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Análise de 2010 em Leituras (Tiago)


Mais um ano que passou. No meu caso, não particularmente maravilhoso em termos de leituras. Isto é, embora tenha sido um ano positivo, com leituras agradáveis; e embora não tenha tido nenhum livro que me enervasse tanto que o tivesse de parar a meio, como o Brisingr em 2009... não houve assim grandes obras que me ficassem para sempre marcadas. Se de 2008 recordo com saudade a grande leitura do ano Os Pilares da Terra, e de 2009 a igualmente (e ao mesmo tempo diferente) avassaladora experiência com Crónica do Pássaro de Corda, não houve nenhum livro que este ano tivesse marcado pela diferença. Houveram, sim, livros excelentes e muito bons. Os quais passo a nomear no meu TOP 10 de 2011. Peço-vos uma coisa antes: que aceitem a minha junção dos dois livros no topo como um só - O Festim dos Corvos e o Mar de Ferro, que nas suas versões originais são um só livro, e que quis juntar também como um só neste TOP.

  • 1º Lugar: O Festim dos Corvos/ O Mar de Ferro - George R. R. Martin; Entre os fãs do autor de fantasia americano, este 4º volume da saga (7º e 8º com as divisões portuguesas) era o mais fraco de toda a série. Não achei. De longe. As Crónicas de Gelo e Fogo, nestes dois livros, sugaram-me por completo, e fizeram-me experienciar aquilo que um leitor deve de sentir várias vezes na sua vida. Puxar pelas personagens, viver intensamente com elas, agarrar-se a um mundo e quase acreditar nele, porque tudo ali nos parece tão próximo, e conhemos tão bem a rainha como o mais miserável. Uma teia complexa que agarra e não larga, e ainda bem, porque senão caía desamparado no cinzento da realidade. Melhores leituras do ano!
  • 2º Lugar: After Dark (Os Passageiros da Noite) - Haruki Murakami; De certeza que a minha experiência de leitura que decidi levar adiante com este livro influenciou o meu gosto por ele, mas isto sem lhe tirar qualquer mérito próprio. Ler numa só noite um romance passado numa só noite, um romance do nosso autor favorito, que vive a noite e a analisa à luz da profundidade das personagens mais estranhas que se podem juntar, foi emocionante. Um relato que nos leva a meditar sobre o sentido da nossa vida no meio de um mundo tão grande. Mesmo quando dormimos há à nossa volta muita gente acordado, e há um universo nocturno que nunca pára. Excelente, a reler, e aconselho a todos esta experiência de ler de uma vez, numa noite. É pequeno o suficiente para fazer isso.
  • 3º Lugar: Em Busca do Carneiro Selvagem - Haruki Murakami; Alguns de vocês podem pensar que os dados estão viciados no meu sistema mental. Ora, pelo segundo ano consecutivo, Murakami tem dois livros no TOP 3? É tão simples como isto. Eu peguei neste livro, comecei a lê-lo, estava sol lá fora, fui dar uma volta a pé, e ia lendo, depois sentei-me e lia, e não conseguia parar de ler. Por mim o narrador podia ter demorado mais uns meses a sua busca pelo carneiro (e com isto não digo que o encontrou... ou que não o encontrou... ou que o encontrou...), porque eu passava bem mais uns meses metido naquele livro. Não sei explicar, mas é por livros destes que Murakami é o meu escritor favorito.
  • 4º Lugar: Sonho Febril - George R. R. Martin; Novamente, os leitores do blog devem estar a suspirar e a dizer 'Este Tiago é um chato. Já vai no 4º lugar e ainda não saiu de Haruki Murakami e George Martin'. Mas provavelmente só dirá isto quem não leu estes autores. Sonho Febril foi uma leitura que aguardava com alguma ansiedade, e que correspondeu as grandes expectativas que tinha, se não as superou. Todo o imaginário criado pelas navegações do Rio Mississipi, a sua relação com um Terror credível e fantástico, a personagem principal que entrou para a galeria das preferidas de sempre, e as sensações que passaram para fora das páginas. A sério, fiquei fã do Mississipi, tenho de ir lá um dia. E ler Mark Twain, também. Fabuloso, este febril sonho, os fãs do fantástico não podem passar sem o ler!
  • 5º Lugar: O Evangelho do Enforcado - David Soares; A melhor leitura que tive de um autor português este ano. O romance histórico/ fantasia /terror passado na Lisboa Medieval, com todo um pano negro envolvendo os cenários, as personagens, as texturas das ruas e os cheiros fétidos... não sabia que se escrevia fantasia a um nível tão avançado em Portugal. Detalhes meticulosos, pesquisa louvável, um sentido mórbido que não serve para o estômago de qualquer leitor, e uma re-invenção/interpretação histórica muito interessante, que deixam questões no ar. David Soares surpreendeu-me com força, abanou-me os ombros, e proporcionou-me uma leitura excelente.
  • 6º Lugar: O Passado que Seremos - Inês Botelho; Outra grande surpresa portuguesa foi o romance de Inês Botelho. O que me ficou marcado não foi a história retratada ao longo das páginas, até porque não era essa a intenção da autora ao escrever o livro. Foi a enorme sensibilidade no uso da palavra, a apropriação da língua portuguesa para usos novos e criativos, as sensações que passavam, o uso dos jogos temporais, numa escrita envolvente, muito curiosa, e que para mim resultou muito bem. Adorei ler este Passado que Seremos, e um pouco deste livro vai continuar sempre comigo, talvez na forma de pensar nas potencialidades tão grandes que a nossa língua tem.
  • 7º Lugar: Memorial do Convento - José Saramago; Agora que reparo, que bom é ver três autores portugueses seguidos uns dos outros no TOP. Este romance, que no princípio da sua leitura me recordava vagamente as imagens que tinha lido no Evangelho do Enforcado, evoluiu depois noutras direcções, curiosamente também do fantástico. Marcado pela ironia e pela típica escrita, e também pela forma como as palavras vão entusiasmando o leitor a continuar a leitura, fiquei cativado com este memorial do convento que me surpreendeu pela positiva em relação ao que esperava. Neste momento devem estar Blimunda e Baltasar contentes com este 7º lugar no TOP... espero eu.
  • 8º Lugar: Os Miseráveis - Victor Hugo; A leitura do ano em termos de grandiosidade. Atirei-me para este clássico de cabeça, convencido de que era a altura de o ler. Mas não estava à espera de 1100 páginas de letra minúscula e margens ainda mais pequenas fosse um caminho tão difícil de percorrer. Depois de quatro meses (no primeiro dos quais houve a peripécia de ter percebido - a tempo! - que estava a ler uma versão que cortava partes) de esforço e dedicação, cheguei ao fim com a sensação de que tinha valido tanto a pena. Exceptuando os longos capítulos em que ao autor apetecia divagar sobre a história ou outros temas de não-ficção, o romance era poderoso, um clássico inegável, e uma tragédia emocionante. A ler, pelos que não tenham problemas com tantas letras.
  • 9º Lugar: As Duas Torres - J. R. R. Tolkien; Que bom foi finalmente ter respirado de alívio e ter pensado que afinal gostava da trilogia que a esmagadora maioria dos críticos dizem ser a mais importante na história da fantasia. Depois de um primeiro volume que pouco me tinha impressionado, este segundo achei-o com mais fôlego, mais energia, e de uma leitura mais interessante e rica. Se o terceiro se mantiver assim, valeu muito a pena ler a trilogia que mudou a fantasia!
  • 10º Lugar: Pinball, 1973 - Haruki Murakami; Voltem lá à imagem de cima dos livros no TOP e confirmem que um pequeno livro azul está no fundo do monte. E agora fiquem também sabendo que esta pequena novela foi o livro que me saiu mais caro (de longe) de todos os que figuram na minha estante - isto porque o encomendei do Japão, e os portes de envio acabaram por pregar-me uma surpresa. Esta leitura, mais próxima da língua original uma tradução, foi rápida e agradável. O livro por si só dificilmente traz fãs a Murakami, mas a quem já é seu leitor é uma experiência interessante e que eu voltava a repetir. Surreal!

Feito o TOP, sigamos para a parte das Estatísticas, que eu tanto gosto de fazer. Este ano li menos que o ano passado, tanto em livros como em páginas. Li 7131 páginas, num total de 24 livros. (Em 2009, 8800 páginas em 27 livros). Cada livro que li tinha em média 297 páginas - mas os extremos foram Aviso por Causa da Moral e Outros Textos, com 53, e Os Miseráveis, com 1088.

Em média li 20 páginas por dia, o que em comparação com o ano passado é uma mudança de menos 4. A estação do ano em que li mais foi o Inverno (37% das leituras), seguido do Verão, seguido do Outono, seguido da Primavera. Isto foi tal qual o ano passado! Parece que tenho mesmo estações preferidas do ano para ler. na primeira metade do ano li 57% do total, e na segunda 43%. Um bocadinho desiquilibrado, mas já esperava.

Em termos de qualidade, a minha média das notas que dou aos livros aqui no Lydo ficou-se pelos 7,79. Para mim, uma média que às décimas não chegue a 8 não chega para classificar um ano de muito bom. Embora arrendado da maneira tradicional chegue lá. E é certo que 1/3 dos livros tiveram 9 ou mais. Mas só 1 teve a nota máxima, e isso é triste, comparando com os 4 10's que dei o ano passado. Isto para dizer que esperava um pouco mais em termos de qualidade geral.

Falando de autores! David Soares foi a grande revelação do ano. Tinha ouvido falar pouco do autor, os seus livros não me cativavam, e agora estão todos na minha lista dos por ler. Porque o Evangelho do Enforcado foi mesmo bom. Haruki Murakami, por sua vez, foi o autor de que li mais livros, com 5, e mantém-se no primeiro lugar na minha lista de preferência dos autores. Não é por ter lido 5 dele este ano que é o meu autor preferido, e sim por ser o autor preferido é que li 5 este ano.

Em relação aos meus objectivos do ano passado, que eram quatro, só não cumpri um: Chegar às 10.000 páginas - Não consegui. 33% dos livros serem de autores de língua portuguesa - Consegui e ultrapassei! Consegui chegar aos 45% neste parâmetro, o que muito me agradou. Não só com os portugueses, mas com os africanos que também experimentei. Existem muito bons escritores na nossa língua.

Objectivos para 2011: Ler 8.000 páginas; experimentar autores novos; 33% dos livros de autores de língua portuguesa; manter a minha participação activa no Lydo e Opinado e no Murakami PT.

E é isto. Em baixo podem ver a fotografia dos livros lidos este ano. Mais pequena que no ano passado, sim... que podem ver carregando aqui. Um bom ano 2011 de leituras para todos os visitantes do Lydo!

Tiago

3 comentários:

Cat SaDiablo disse...

Acho que também vou ter de ler As Duas Torres. É uma vergonha ainda não ter lido, até porque amo os filmes, mas tal como tu, não me senti cativada pelo primeiro volume.

Eu sou das que achei o último livro das Crónicas do Gelo e do Fogo o mais fraco da série. Mas acho que é simplesmente porque se segue a um livro fenomenal e magnífico, para mim o melhor da série! Acaba por ser um pouco anticlimático.

Tenciono ler os Miseráveis este ano. Não tenho o livro, diz-me por favor qual foi a edição cortada (para eu fugir dela) e qual a que acabaste por ler em volume único. É uma boa edição?

Gostei das fotos, dão uma noção mais real das leituras do que uma simples lista :)

t i a g o disse...

Olá Cat e obrigado pelo teu comentário desde já.

Leres As Duas Torres vai mudar, provavelmente, a tua opinião do Senhor dos Anéis. A mim surpreendeu-me.

Quanto às Crónicas de Gelo e Fogo, não consigo encontrar esse anticlima que muitas falam, mas se calhar sou eu que sou esquisito. Simplesmente acho natural este abrandar do ritmo, e para mim cai que nem uma luva. Com acção ou sem acção, guerra ou sem guerra, adoro Martin. Até tendo a gostar mais das cenas paradas.

Quanto aos Miseráveis, confere este meu post -> http://lydoeopinado.blogspot.com/2010/06/acerca-da-minha-leitura-dos-miseraveis.html
A edição que li, da MEL Editores, acabou por mostrar-se muito boa. Além disso gosto do aspecto gráfico dessa edição, mais do que da Europa-América. E o preço também é 10 euros mais barato. E a tradução é diferente, mas não te sei dizer se melhor se pior. Esta acho que é a original, do século XIX.

Cat SaDiablo disse...

De facto não me surpreende que o segundo volume seja mais aliciante. Eu pensava como é que esta obra era das mais amadas de sempre da fantasia, e eu não me tinha sentido entusiasmada. Vou de certeza procurar ler o resto do senhor dos anéis.

Quanto ao Festim dos Corvos + Mar de Ferro, acho que o facto de as minhas personagens favoritas se terem evaporado neste livro também contribuiu para ter gostado um pouco menos destes livros. Apesar de outras terem ganho mais relevo. Mas achei a primeira parte, o Festim, particularmente fraco, e O Mar de Ferro já mais cativante, com as intrigas a adensarem.
Apesar de tudo, são sem dúvida excelentes livros, mas O Festim foi um pouco uma desilusão :P

Dei uma vsita de olhos na tua análise da obra Os Miseráveis, apenas porque não quero ler demais. Mesmo sem spoilers, quero ir para este clássico com a mente totalmente "em branco". Mas gostei do que li. :)

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