sexta-feira, 9 de abril de 2010

Crítica - O Evangelho do Enforcado

Título: O Evangelho do Enforcado
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
Nº de Páginas: 358
Preço Editor: 18,85€

Sinopse: «Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal.
Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.»

Pelas críticas espalhadas pela internet, e pelas próprias afirmações da editora, eu estava à espera de algo bom. Mas não de algo tão bom como vim a descobrir. Ao princípio estranha-se... somos puxados para a idade média portuguesa, e para toda a brutalidade que esta nos oferece. A isso adicionam-se elementos fantásticos, que tocam no paranormal. Foi um grande puxão para mim. Há muito tempo que não lia um romance histórico, e este «O Evangelho do Enforcado» tratou de me agarrar com força e fazer-me regressar aos tempos medievais, expôr-me às descrições cruas que marcavam a época. Mas este estranhar, marcado até por uma certa repulsa ou choque através das descrições, foi só no começo.

Primeiro estranha-se, depois... depois começamos a apreender este novo género que mistura a História com a Fantasia. Embalados pelas frases maravilhosas de David Soares, que marcam bem aquilo que precisamos de saber, com um estilo muito próprio, vamos avançando nas páginas, entrando no mundo, descobrindo mais e mais personagens, desconstruindo ideias dogmáticas que temos, e deixando-nos levar, observando os acontecimentos de muito perto.

O romance gira à volta dos famosos Painéis de S. Vicente, a obra mais enigmática de toda a história da pintura portuguesa. Acontece que acompanhamos a vida do seu provável pintor, Nuno Gonçalves, desde o nascimento deste. Psicopata de nascença, Nuno rapidamente se apercebe que gosta da morte e de tudo o que a ela se associa. E um encontro assustador revela-lhe o triste destino que está reservado para ele. Depois somos levados à corte do rei D. João, e conhecemos os seus filhos Eduarte, Pedro, Fernando e Henrique (o famoso Infante D. Henrique). Este último mostra-se um homem preverso e enigmático, com uma personalidade muito própria, distante daquilo que pensamos sobre ele. Em seguida somos apresentados a um conjunto de prostitutas, que não se conseguem imaginar longe da vida em que se meteram para conseguir sobreviver. E mais, muito mais personagens, enquanto a história vai convergindo para a criação dos Painéis.

Está confirmado: David Soares é um grande escritor português. Alia o Romance Histórico ao Romance Fantástico, no resultado de uma extensa pesquisa que se revela numa larga bibliografia. Está confirmado: «O Evangelho do Enforcado» é uma obra que quebra dogmas no nosso pensamento, e os abre para novas possibilidades acerca da história - nada é certo. Está confirmado: este livro surpreendeu-me e muito. Primeiro estranhei-o, depois deixei-me levar por ele, vivi no século XV durante três semanas. As imagens que a escrita de David Soares nos transmite dão para fazer um filme. Um livro cruel, pesado, dark... mas adorei.

Personagens Preferidas: Nuno Gonçalves, Infante D. Henrique.

Nota (0/10): 9 - Excelente

Tiago

6 comentários:

tonsdeazul disse...

:) Eu também acabei de ler "Os ossos do Arco-Íris", de David Soares e considerei a mesma coisa. Não sabia o que me esperava e primeiro estranhei a sua escrita, por vezes cruel e pesada, mas são três contos completamente fora de tudo o que já li. Também gostei imenso e por isso com mais esta tua excelente opinião sei que brevemente irei ler este "Evangelho do Enforcado".

tonsdeazul disse...

Está um passatempo a decorrer do livro "O Mar que a Gente faz", no blogue Páginas Desfolhadas, para o caso de quereres participar, deixo aqui o link:
http://paginasdesfolhadas.blogspot.com/2010/04/passatempo-o-mar-que-gente-faz.html

O livro é um regressar à infância e está singela mente bem escrito, mas eu sou suspeita, porque gosto mesmo da escrita de João Negreiros! :)

DiAleX disse...

Estou realmente curioso com este livro. Nem de propósito, calhei a ganhar um exemplar no site mencionado @tonsdeazul - Páginas Desfolhadas.
Espero ansiosamente por o ler, depois de uma análise tão favorável.

Tatiana disse...

elá!! agora é que me convenceram a ler ste livro :O estava relutante já que não ouço muito sobre este autor mas com esta opinião, quem não fica convencido? (especialmente aqui a tola que adora escrita dark xD - também estou a adorar a Carla Ribeironão só pela estória que estou a gostar imenso mas também um pouco por esse ponto... o dark :P)
depois de ler o livro de Machen tenho ue apostar neste autor :P

bjs e boas leituras!

Sássára disse...

É óbvio que eu vou ler este :P

Jojo disse...

Faço minhas as palavras da Sássára. Óbvio que vou ler este:).Não vai demorar muito.

Blog Widget by LinkWithin