domingo, 2 de janeiro de 2011

Crítica - Memorial do Convento


Título: Memorial do Convento
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
Nº de Páginas: 493
Preço Editor: 16,66€

Sinopse: Era uma vez um rei que fez promessa de levantar convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.


Parti para a leitura do Memorial do Convento sem ter bem a noção do que iria encontrar pela frente, meio que conduzido por aquilo que a escola me dizia, Leitura obrigatória no 12º ano de escolaridade, e pelo que a professora de português disse, Leiam o Memorial nas férias de Verão, ora poucos dias depois de ela ter dito isto morreu José Saramago e a notícia correu Portugal e o Mundo, porque o autor em questão era um Nobel da Literatura. Há coincidências que nos atingem com força, não as há, mas comigo não me atingiu de maneira especial, é que ainda não o tinha lido, e quando morre um autor que nunca se leu, a pena não é desmedida. A minha não foi.

Não o li nas férias do verão porque não me apeteceu. Foi adquirido, estava para lá na estante, mas quando olhava para ele só dizia, Ainda não, e ele ficava lá à espera. Até que agora em Dezembro me chamou com a sua capa amarela com rectângulos castanhos, capa de cartão cuja textura tanto me fascinava, mas não passava disso, Vamos lá ver como é que a leitura vai ser, e comecei a ler.

O estilo de escrita não foi difícil de habituar, parecia até mais simples e natural que aquele dito convencional, porque na verdade quando se fala e quando se ouve não estão lá os travessões antes das nossas falas, e quando se conta uma história também não dizemos, E ele disse travessão cá estás tu, isto por exemplo. Não fazia falta e só desviaria a atenção.

O Memorial conquistou-me. Estava à espera de um romance histórico enfadonho sobre a construção do Convento de Mafra, e o que encontrei foi uma inesperada e bem-vinda dose de fantasia aliada à história, com momentos sobrenaturais e claramente fantásticos a adornarem o enredo de forma bem sucedida, Olha, não estava à espera. Encontrei personagens que me surpreendiam pela sua dicotomia entre simplicidade e profundindade, como todos somos, aliás, simples e profundos, cada um de nós.

Na memória permanecerão as imagens de uma Lisboa que de um lado era tão rica e do outro tão decandente, e também a constante ironia que parece aceitar um Deus que não é o convencional, e também uma revolta social presente em cada página, e uma descrição dos ambientes que me fez recordar a leitura do Evangelho do Enforcado, de David Soares, dois romances que poderiam ser irmãos, não tivessem entre si talvez mais diferenças do que semelhanças; e um toque de humor divertido que de vez em quando dava para sorrir, e uma energia que cativava a continuar a ler, e no fundo o reconhecimento pelo trabalho do único Nobel português da nossa história.

Mais do que a história do convento, muito para lá disso e muito aquém disso, está o Memorial do Convento, com a sua teia complexa e simples, as suas personagens profundas e banais, o seu toque certeiro na crítica social. E uma beleza incontornável nas palavras.

Personagens Preferidas: Padre Bartolomeu Lourenço, Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis.

Nota: 9/10

Tiago

6 comentários:

Jojo disse...

Memorial do Convento é um livro intemporal! Um dos meus favoritos de sempre! Adoro a maneira como Saramago faz o contraste entre a rica e a pobre Lisboa, como ele habilmente faz uma caricatura da sociedade. Simplesmente soberbo!
No 12º ano quando estudei a obra profundamente, apaixonei-me ainda mais pelo livro, pela genialidade do autor.

Jacqueline' disse...

Vou esperar pelo 12º ano para o ler, mas pelo que tenho ouvido, mesmo aqueles que não gostam muito de Saramago têm um certo carinho por esta obra.

Fico feliz por ainda haver a possibilidade de gostar de um livro de leitura obrigatória. Até agora, as experiências não têm sido propriamente felizes...

Adeselna Davies disse...

Fico feliz que cada vez mais alunos leiam o memorial do convento em vez da Aparição. Há 5 anos dava-mos no curso de humanidades do secundário a Aparição é era a pior coisinha. Uma obra demasiado filosófica e profunda. Penso que o Memorial do Convento e a escrita do Saramago vai mais em conta com os objectivos. Houve muita coisa que consegui retirar - simbolismos, temas - que na Aparição mesmo numa segunda leitura vi-me à rasca... Não sou professora de português, mas já ando a pensar em estratégias de leitura a inglês para alunos do Secundário e uma coisa que tenho em consideração são os temas e a idade apropriada. A Aparição não é apropriado para jovens de 17 anos e o programa ignora muitas vezes a idade do aluno :( Esperemos que isso mudo rapidamente!

Estrela_da_Noite disse...

Eu já li 4 livros de Saramago e tenho por casa mais 3 por ler, entre eles O Memorial do Convento.
Adoro Saramago! Tudo o que li dele, achei brilhante!
No entanto, tenho algumas reservas quanto ao Memorial, porque embora muito aclamado é de leitura obrigatória este ano. Isso deixa-me sempre de pé atrás, mas pode ser que me surpreenda e espero solenemente que sim!

Bom ano e boas leituras,
Estrela*

tonsdeazul disse...

Sem dúvida o meu preferido de Saramago e também um dos meus livros de sempre.

GRPetey disse...

Um livro do qual eu li 30 páginas!
Estando eu a começar o 12ºano sei que irei ter de ler este livro para português e ao início achei que seria um daqueles livros que nos manda ler na escola e que são um bocado toscos mas agora que li esta review magnífica, parece que afinal eu estou errado e ainda bem, pois assim vou mesmo lê-lo.
@Tiago Obrigado pelo comentário e já agora, não sei se te lembras de mim mas andámos na mesma escola (António Augusto Louro) e fizemos lá teatro e tudo (quando eu estava no 6º e tu no 7º se não me engano). Fico contente por teres criado este blog magnífico e por partilhares as tuas experiências literárias.

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