quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Crítica - Sonho Febril

Título: Sonho Febril
Autor: George R. R. Martin
Tradutora: Ana Mendes Lopes
Editora: Saída de Emergência
Nº de Páginas: 386
Preço Editor: 19,61€

Sinopse: «Rio Mississípi, 1857. Abner Marsh, respeitável mas falido capitão de barcos a vapor, é abordado por um misterioso aristocrata de nome Joshua York que lhe oferece a oportunidade única de construir o barco dos seus sonhos. York tem os seus próprios motivos para navegar o rio Mississípi, e Marsh é forçado a aceitar o secretismo do seu patrono, não importando o quão bizarros ou caprichosos pareçam os seus actos. Mas à medida que navegam o rio, rumores circulam sobre o enigmático York: toma refeições apenas de madrugada, e na companhia de amigos raramente vistos à luz do dia. E na esteira do magnífico barco a vapor Fevre Dream é deixado um rasto de corpos... Ao aperceber-se de que embarcou numa missão cheia de perigos e trevas, Marsh é forçado a confrontar o homem que tornou o seu sonho realidade».

Publicado originalmente nos Estados Unidos em 1982, esta obra de George R. R. Martin, muito anterior ao seu grande sucesso «As Crónicas de Gelo e Fogo», só agora é editada entre nós. Se tinha expectativas elevadas? Muitas. As Crónicas são responsáveis por esperarmos semopre muito de um autor que até então sempre nos surpreendeu. Este 'Sonho Febril', com a sua capa portuguesa maravilhosa, e sendo fantasia de George R. R. Martin já escrita há quase trinta anos, só podia prometer grandes coisas. Parti para a sua leitura entusiasmado e expectante.

Não me desiludi! É-nos introduzida logo desde o começo uma personagem que associaria como sendo tipicamente de Martin - Abner Marsh. Ao nível das suas melhores personagens de sempre, juntando com o TOP das presentes nas Crónicas de Gelo e Fogo. E é sob o olhar deste capitão que acompanhamos grande parte desta aventura. Este capitão tão peculiar e com o qual é tão fácil aprendermos a gostar da sua forma de ser. Descrito como o homem mais feio de todo o rio Mississipi, com os seus cento e cinquenta quilos e cara cheia de verrugas, tem uma maneira de ser muito forte e vincada. Esta personagem é responsável por 1/3 do gosto que tenho por este livro.

O dos 1/3 restantes estão no ambiente. Este mundo de meados do século XIX no rio Mississipi, com toda a história dos barcos a vapor, as cargas e descargas, as viagens atribuladas, as competições entre os barcos por um maior estatudo e fama... é simplesmente apaixonante. Dá vontade de lá estar a viver aqueles momentos. A descrição dos barcos, dos mais e menos luxuosos... identifiquei-me bastante com o ambiente descrito. Mágico e envolvente.

O último 1/3 do gosto não podia deixar de ir para o horror que caracteriza este livro. Não é uma história fácil, serena. Pelo contrário. Não se assustem os que fogem das modas quando eu disser que o tema principal do livro é exactamente 'Os Vampiros'. Agora reparem que há aqui uma grande diferença! Primeiro foi escrito muito antes da moda que agora houve. Depois, temos aqui uma dimensão mais palpável e assustadora destes seres. Longe de terem uma co-existência fácil com os humanos, ou de serem bonzinhos, ou de transformarem outros também em vampiros se assim o desejarem... temos aqui um conceito mais horroroso e monstruoso. Humanos e vampiros não se ligam, não se consideram iguais - e nisto há também uma constante referência à escravatura ainda existente na época, entre brancos e negros não se considerarem iguais. A comparação é feita constantemente! Atenção, aviso-vos: momentos de terror verdadeiramenre... repugnantes, diria assim. Perturbador.

Não querendo revelar spoilers, e não o vou fazer - adoro a posição que o tema "poesia" tem na obra. Entrando aos poucos na vida de Marsh, que no entanto nunca deixa de a chamar 'malditos poemas!', sentindo o contrário. Está muito bem conseguido.

Como pontos menos positivos tenho apenas o enredo da segunda metade do livro, que me parece um pouco mais pobre que a primeira. Quanto à tradução, embora boa na sua grande parte, tanto no princípio como no fim apresenta algumas repetições de palavras escusadas em sequências de frases muito próximas, e uma ou duas trocas de nomes que teriam ido lá com uma melhor revisão. Muito positiva, no entanto!

Fica pois a sensação que o livro correspondeu às altas expectativas que tinha criado, sem as ter no entanto nem ultrapassado nem ficado aquém. Uma obra que confirma George R. R. Martin como o meu autor preferido de fantasia, e que prova o poder que uma boa escrita tem de nos levar para longe do tempo e da realidade em que vivemos. Excelente!

Personagem Preferidas: Abner Marsh. Adorei!

Nota: 9/10 - Excelente

Tiago

1 comentário:

manuscritosmalditos disse...

Estava indeciso quanto a este livro... por um lado adoro a obra de Martin (apesar de estar a perder a paciência com os 6 anos que ele anda a demorar para escrever o próximo volume das Crónicas) mas por outro não sou grande fã do período em questão. Depois desta crítica parece que tenho que adicionar este à pilha dos "livros a ler" :)

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