Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Mrs. Dalloway - Crítica


Nome: Mrs. Dalloway
Autora: Virginia Woolf
Editora: Europa-América
Tradução: Lucília Rodrigues
Páginas: 165
Sinopse: "Clarissa Dalloway, conhecida figura da alta-sociedade londrina, prepara-se para dar uma festa importante. É através dos pensamentos e das recordações do passado que não cessam de lhe vir à mente que a sua personalidade se nos vai revelando pouco a pouco, o mesmo se passando com todas as pessoas que consigo se cruzaram ao longo da vida. Desta forma, simultaneamente vivida e íntima (e, acima de tudo, única), as personagens que povoam estas páginas dão-nos a conhecer os seus amores, as tragédias e as comédias que formam a sua existência.
Mrs. Dalloway, o quarto romance de Virginia Woolf, é considerado um marco de grande importância no desenvolvimento literário da autora. Foi com esta obra que ela rompeu de forma definitiva com os cânones tradicionais do romance inglês, impondo-se como uma escritora de génio."

Este é o tal famoso livro de bolso que a minha mãe encontrou abandonado no seu local de trabalho e resolveu trazer para que eu ficasse com ele. Esta é, também, a tal famosa obra em que Michael Cunningham se inspirou para escrever o seu livro "As Horas". Desta maneira, posso afirmar que até estava com algumas expectativas, especialmente porque já tinha feito um trabalho sobre a autora e tinha ficado curiosa, pois nunca tinha lido nada seu.

Mal o abri, deparo-me com um pequeno parágrafo: "Mrs. Dalloway fez saber que ela mesma se encarregaria de comprar as flores." Foi a partir daqui que percebi que este livro ia ser diferente de tudo o que eu já alguma vez tinha lido - e estava certa. Para mim, foi muito difícil conseguir embrenhar-me na história deste livro. Porquê? Porque parece que não tem história alguma. No entanto, ela está lá, em cada personagem que aparece ao virar da esquina. Sim, porque eu senti-me uma pessoa que caminhava nas ruas de Londres, mas que não estava realmente lá. É um sentimento estranho, este. Tudo isto porque a narração ocorre à volta de Clarissa Dalloway, uma mulher que já entrou na fase dos 50 e que ainda não sabe, ao certo, o que fez com a sua vida.

Vestida num sobretudo castanho, com um chapéu envolto em flores, fui caminhando por Londres, seguindo as linhas orientadoras de Virginia Woolf. Entro num parque cheio de crianças e deparo-me com umas quantas pessoas que Clarissa conhece - ou conheceu. Cada pessoa - sem exagero - tem um certo número de páginas guardadas para si. Isto, para mim, foi algo muito estranho. Tudo porque, ia já na página 40, e continuava sem perceber o porquê de eu ter de saber a vida de quase toda a gente com quem Clarissa se cruzava. Ao início foi muito difícil meter isto na minha cabeça, ler tudo aquilo com interesse. Depois, lá me habituei e comecei a encarar cada história com naturalidade. No fim, todas aquelas histórias que, ao início, não faziam sentido, tomam finalmente o seu significado e desvendam o que realmente Clarissa Dalloway é.

Consegui encontrar as tais partes do livro em que Michael Cunningham pegou para construir a sua obra. Consegui interligá-las com o que já tinha lido e com o que já sabia acerca de Virginia Woolf. Consegui, também, encontrar a autora escondida numa das personagens. Chocou-me um pouco e deixou-me melancólica, mas nem toda a gente tem uma mente sã. E esta obra faz um retrato do pós-guerra, de todo o seu ambiente e todas as pessoas que viveram traumas imensos. Demonstra, também, como alguém pode mudar só para agradar os outros. Querem saber de quem falo? Leiam, por favor.

Nota: 6/10 - Agradável

Personagens favoritas: Richard Dalloway, Sally, Peter Walsh, Septimus.

Sara

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Crítica - O Regresso do Rei


Título: O Regresso do Rei - O Senhor dos Anéis (Parte III)
Autor: J. R. R. Tolkien
Tradutora: Fernanda Pinto Rodrigues
Editora: Publicações Europa-América
Nº de Páginas: 336
Preço Editor: 21,35€

Sinopse: Eis que chegámos à terceira parte de O Senhor dos Anéis. Esta terceira parte, O Regresso do Rei, trata das estratégias opostas de Gandalf e Sauron, até ao fim da grande escuridão, que concluirá esta fantástica viagem pelo estranho mundo criado pela vivíssima imaginação de Tolkien.


Após um primeiro volume cuja leitura considerei difícil, e um segundo que me surpreendeu muito positivamente, as expectativas para a terceira e última parte da mais famosa trilogia de fantasia de todos os tempos situavam-se num nível mediano. Uma grande diferença logo à partida quando comparado com os outros dois: nunca vi o terceiro filme da adaptação cinematográfica, e o final da história era para mim uma incógnita. Um ano e meio depois de ter lido "As Duas Torres" decidi por fim aventurar-me para "O Regresso do Rei".

A adaptação não foi fácil. Emergir nesta Terra Média de Tolkien não é, para mim, como começar a ler um livro de Haruki Murakami (por exemplo). Este cenário austero de guerra e turbulência, adornado pela escrita cuidada e épica que Tolkien gosta de criar, não se cola à minha faceta de leitor de uma maneira natural. É precisa uma certa insistência, passar por uma fase de habituação, para que realmente comece a desfrutar da narrativa. Os tempos estão mais negros do que nunca neste volume final, o que também não veio ajudar muito - daquelas leituras que se calhar nos apanham em má hora, não estamos muito virados para esse estilo, mas já que começámos seguimos adiante.

Depois de passada a fase de adaptação, lá me embrenhei no enredo de maneira mais intensa, e apanhei a carruagem mesmo antes dos acontecimentos mais importantes se darem. Daí até ao final do último capítulo, o tempo passou a correr, e já não custou nada. Não se assustem os leitores do blog quando falo nestes termos de "insistência", "não custou tanto", "ter que aguentar", "obrigar-me a prosseguir" - são uma realidade relativamente frequente na minha vida. O que não quer dizer minimamente que eu não gosto de ler, porque gosto: às vezes preciso é de me empurrar a mim próprio.

O desfecho da trilogia, nas suas últimas cem páginas, esboça, talvez a par de toda a sequência dos ents n' "As Duas Torres", um dos momentos mais bonitos d' "O Senhor dos Anéis". Passarmos da dimensão imensa e incrível do destino do mundo inteiro, como nos estava Tolkien a habituar desde a segunda metade d' "A irmandade do anel", para as intrigas mais privadas do cantinho dos hobbits - o Shire - é uma experiência única. Subitamente, quando pensávamos que o autor já não nos ia surpreender até ao fim, dá-nos a volta e ensina-nos ainda uma preciosa lição, pegando na humildade característica dos seres mais pequenos daquele mundo. A história cresce ao aproximar-se da escala mais pequena possível, no derradeiro final.

Queria deixar ainda uma nota muito positiva para o conjunto da tradução de toda a trilogia. Conserva um linha sólida e sóbria, extremamente bem realizada. Os meus parabéns à tradutora Fernanda Pinto Rodrigues, porque está aqui um trabalho digno de nota.

A conclusão da trilogia vem fechar de forma digna o conjunto. É a partir desta saga escrita por Tolkien entre os anos 30 e os anos 40 do século XX que a maior parte da fantasia contemporânea vai buscar as suas inspirações. O que é impressionante de se imaginar. Na verdade, é de se tirar o chapéu a toda a contrução de um mundo, de múltiplas línguas, culturas, cronologias, estudos sobre personagens e locais totalmente inventados. Quando a meio de uma linha nos surge uma nota de rodapé que nos diz "talvez a palavra X derive de uma variação dos orcs das montanhas do Sul" é de ficarmos de queixo caído, no sentido de que Tolkien levava a sua criação mesmo a sério. Um último destaque para tudo o que se esconde para lá desta fantasia, toda a moral com bases profundamente enraizadas na nossa sociedade, a batalha do Bem contra o Mal que, apesar de frequentemente relativizada no nosso dia-a-dia, está cá e vive connosco todos os dias.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Análise de Leituras 2011 (Tiago)


Eis os dez livros que mais me marcaram neste ano de 2011, que acabou há aproximadamente três semanas. Entre um total de 25 livros lidos. Estou a excluir um par deles que me abstive de comentar, porque não se enquadrarem neste contexto. Começo, então, por falar um pouco acerca de cada um destes dez, que decidi destacar dos restantes.
  • 10º: O Senhor Brecht - Gonçalo M. Tavares. As histórias que povoam o imaginário deste livro do bairro são viciantes e entram na cabeça de uma maneira espantosa. Esta arte de se escrever micro-narrativas que raramente ultrapassam uma página não é para qualquer escritor, mas Tavares consegue-o de forma sublime principalmente neste volume d' O Bairro. Desde a senhora que para perder peso vai ao médico cortar uma perna, até ao desempregado que para sustentar os filhos se livra também de algumas partes do corpo, esta obra, recheada de algum humor negro mas também de muito material para dar que pensar, concedeu-me uma série de horas muito boas.
  • 9º: Contos da Chuva e da Lua - Ueda Akinari. Este livro de contos japonês, escrito no século XVIII, é uma pérola. No meu total desconhecimento pela literatura clássica, ainda para mais literatura clássica oriental, dei por mim a devorar estas páginas, cheias de magia e terror. Toda a atmosfera criada, e a imaginação fértil das situações, adornada por uma linguagem poética e tão característica, emocionou-me e transportou-me para cenários de beleza rara. Muito boa leitura.
  • 8º: Adeus, Tsugumi - Banana Yoshimoto. De todos os livros que habitam esta escolha das minhas dez melhores leituras, este é aquele ao qual se pode aplicar melhor a famosa frase «primeiro estranha-se, depois entranha-se». O estilo de Yoshimoto é estranho e pouco firme, mas neste romance conseguiu criar um quadro de ambientes e paisagens sublime. Há o lado mais emocional, sempre presente, e em constante transposição com a praia e os aromas do último verão. É difícil chegar-se ao fim e não se sentir uma espécie de vazio (positivo).
  • 7º: About a Boy - Nick Hornby. Este livro é a prova de que um livro pode ser um amigo. Nos momentos mais complicados da nossa vida, o livro que estamos a ler nesse momento pode sofrer com a atenção que não lhe damos. Mas também pode ser uma das âncoras que mais nos puxam para cima. Por me ter feito rir tanto, e por ter sido uma leitura chave para um momento complicado e cansativo, um escape à realidade durante umas semanas em que andei também eu num mundo à parte, a leitura ficou-me verdadeiramente marcada.
  • 6º: Sunset Park - Paul Auster. Ainda não tinha lido nenhum livro deste autor, embora a curiosidade não fosse pouca. Não me desiludiu nada. A obra entrelaça a vida de uma série de personagens algo diferentes entre si, e carrega um peso melancólico tipicamente urbano digno de respeito. A narração é sóbria e cativante, e faz parte daquele conjunto de obras que nos fazem subir a inspiração ao topo. Vale a pena descobrir esta Nova Iorque de Paul Auster.
  • 5º: 1Q84 (Livro 1) - Haruki Murakami. A primeira parte desta longa aventura pelo universo de Murakami, o seu mais recente trabalho, tem tudo o que de bom o autor nos tem vindo a oferecer nos seus livros. Conversas absolutamente banais, divagações que frequentemente se repetem, personagens normalíssimas com direito ao seu lado mais excêntrico, e uma narrativa que tem tudo para se tornar numa das mais envolventes que já li. Vamos ver como prossegue a história nos próximos volumes, mas só a leitura deste já teria sido suficiente para mim - excelente.
  • 4º: O Punhal do Soberano / A Corte dos Traidores - Robin Hobb. Estes dois livros, que na sua versão original formam apenas um, são a confirmação de que Robin Hobb é mestra na arte da fantasia. Embora algo lentos, essa extensão de tempo nos livros permite-nos estabelecer vínculos com os locais e com as personagens. Estou em pulgas para ler o terceiro e último volume desta trilogia, que prima por tantos atributos que é difícil enumerá-los nesta breve opinião. Viva a boa literatura fantástica!
  • 3º: Norwegian Wood - Haruki Murakami. É uma das obras de Murakami que representou um dos maiores fenómenos de venda no Japão, com 4 milhões de exemplares. O autor considerava este livro uma experiência num estilo à parte, que não tencionava voltar a repetir. É verdade que talvez se encontre aqui um lado mais romântico e juvenil da escrita de Murakami, mas foi uma leitura melodramática poderosa, com momentos de beleza íntima muito particulares. Memorável.
  • 2º: Uma Viagem à Índia - Gonçalo M. Tavares. Uma epopeia contemporânea que reúne, ao longos das suas páginas, inúmeros temas e reflexões que se podem fazer sobre a sociedade e o indivíduo. É difícil ter-se a noção da quantidade de questões que são abordadas ao longo das centenas de estrofes, mas o sentimento que perdura no leitor depois de terminada a obra é que está perante uma construção sólida, emocionante (à sua maneira, porque a escrita de Tavares não se prende propriamente na emoção), e muito, muito boa. Incrível, mesmo.
  • 1º: Dança, Dança, Dança - Haruki Murakami. Este é o meu modelo de um livro que podia ter facilmente umas 5.000 páginas, e nem por isso me cansaria de o ler. As cenas sucedem-se com uma naturalidade sobrenatural, os diálogos sobre tudo e mais alguma coisa, a vida que se vai desenrolando ao longo de algumas semanas, e o mundo vai dançando as suas danças habituais sem por isso se afastar muito da sua órbitra. Esta foi muito provavelmente a minha obra preferida de Murakami, e, se calhar, o livro que mais gostei de ler na minha vida. Com Murakami, quanto mais simples melhor resulta. E este livro não se aventura para muito longe, vai andando à deriva. Faz-me apetecer entrar por ali dentro e assistir aos acontecimentos, sempre com serenidade. Há magia nestas páginas, é a única solução possível!

Como poderão imaginar, esta lista dos dez que mais gostei não é fixa. Daqui a um ano - ou melhor, daqui a dois meses - eu podia refazê-la completamente, retirar-lhe uns três ou quatro e colocar outros no lugar. À medida que me afasto das leituras no tempo, as memórias ora a prejudicam ora a benefeciam. Os livros perdem e ganham com o tempo.

Passando para as estatísticas propriamente ditas, como é meu hábito: em 2011 li 6750 páginas, num total de 25 livros. O que significa que li uma média de 18 páginas por dia. O maior livro que li tinha 918 páginas, o mais pequeno tinha 60, e a média do tamanho dos livros foi de 270 páginas. A estação do ano em que li mais foi o Inverno (35% das leituras), seguido do Outono, da Primavera e do Verão (21%). Na primeira metade do ano li 56% do total de páginas lidas. A média das notas nas críticas foi de 7,32 (em 10).

Falando de autores: os autores que mais li este ano foram Haruki Murakami e Gonçalo M. Tavares, com 4 livros cada um. Descobri uma série de autores novos: Paul Auster, Ueda Akinari, Banana Yoshimoto, Nick Hornby, Chico Buarque, Pedro Sena-Lino, Luís de Sttau Monteiro, Athol Fugard, Boris Vian e Isabel Ricardo Amaral. Ou seja, quase metade dos livros que li este ano foram de autores que nunca tinha lido. Destaco principalmente Paul Auster e Banana Yoshimoto entre as descobertas.

O ano passado tinha apresentado 4 objectivos para este ano: não consegui ler as 8.000 páginas; mas descobri novos autores, consegui que um terço das leituras fossem de autores de língua portuguesa, e mantive a minha actividade no Lydo e Opinado e no Murakami PT.

Objectivos para 2012: estou confiante em chegar às 10.000 páginas (os transportes vão ajudar este ano!); quero chegar aos 30 livros lidos; um terço dos livros serem de autores de língua portuguesa; descobrir novos autores; manter a minha actividade aqui no blog, espero conseguir!

E é isto. Não comecei o ano com o pé direito em termos de leituras, mas estou com toda a confiança para inverter a tendência destas três primeiras semanas. Venha 2012, venham essas 10.000 páginas que me proponho a ler. E que sejam 10.000 boas páginas.



Tiago

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

O Senhor dos Anéis: As Duas Torres - Crítica


Nome: O Senhor dos Anéis - As Duas Torres
Autor: J. R. R. Tolkien
Editora: Publicações Europa - América
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Páginas: 385
Sinopse: "No anterior volume desta trilogia, A Irmandade do Anel, o leitor travou conhecimento com alguns estranhos e simpáticos personagens que povoam o mundo que Tolkien construiu: Frodo, Gandalf, Pippin, Aragorn, Boromir, para citar apenas alguns. Através deles ficou também a conhecer algumas espécies bizarras a viver em terras imaginárias: os hobbits, os orcs, os elfos, os anões. E acompanhou certamente todas as peripécias que se passaram à volta do misterioso anel de que Frodo era possuidor. Os perigos por que passaram para subtrair o anel às mãos cobiçosas dos inimigos, os trabalhos em que se viram envolvidos para conseguir o seu intento culminaram com a fuga e o desaparecimento de Frodo e a dispersão dos seus companheiros. Esta segunda parte, As Duas Torres, conta o que aconteceu a cada um dos membros da Irmandade do Anel, depois de o grupo se ter desfeito e até ao advento da Grande Escuridão e à eclosão da Guerra do Anel, que será contada na terceira e última parte."

Antes de mais, espero que tenham tido um Bom Natal e que este novo ano de 2012 vos reserve muitas coisas boas. Foi devido a todas estas festividades que só agora terminei este livro. Quando o comecei, estava um pouco reticente. Várias pessoas me disseram que este era o mais fraco da trilogia e que o filme o complementava bastante bem; disseram também que era aborrecido e difícil de ler. Eu não achei nenhuma destas coisas. Em primeiro lugar, o segundo filme sempre foi aquele que menos gostei; o mesmo não posso dizer deste livro. Na minha opinião, está muito melhor concebido que o primeiro volume, em que tudo parecia ainda um pouco verde e, por diversas vezes, artificial. Falo dos perigos e das amizades, que nem sempre pareciam assim tão assustadores ou tão fortes, respectivamente. Neste volume, essas duas coisas são muito mais desenvolvidas e focadas.

Comecemos pelas amizades, então. Até metade do livro acompanhamos Aragorn e o resto da Irmandade que foram em busca de Merry e Pippin. Nesse clima de perseguição, vários laços vão-se fortalecendo e, mais tarde, vêem o seu caminho desviado para outra missão: ajudar na guerra de Rohan. É aqui que conhecemos uma das minhas personagens favoritas, o rei Théoden. A partir daí, muitos perigos avizinham-se no caminho da Irmandade. A pouco e pouco encontram parceiros perdidos e maravilhas que jamais julgavam existir. Foi no meio de todo este ambiente e descrições que eu fiquei maravilhada. Foi, especialmente, quando conheci os Ents que fiquei colada à história.

Seguidamente, avancemos para os perigos. Na outra metade do livro, acompanhamos Frodo e Sam na sua busca dos Montes da Condenação. Inesperadamente, acabam por acolher um novo membro no grupo que vai causar desconfiança e insegurança; já para não falar em todos os perigos que correm ao passarem mesmo por baixo das barbas do inimigo. Foi durante este percurso que me afeiçoei ainda mais a Sam, o eterno companheiro de Frodo. Sempre fiel e persistente, ele demonstra-se uma personagem imprescindível nesta saga. A verdade é que, sem ele, Frodo não iria a parte nenhuma - a meu ver, claro. Mais uma vez, assistimos a um fortalecimento de amizade que supera tudo, incluindo os perigos mortais que acabam por viver.

Depois disto tudo - e de um final extremamente emocionante, pois dá vontade de pegar imediatamente no terceiro volume - como é que eu posso afirmar que o livro foi aborrecido?

Personagens favoritas: Frodo, Sam, Faramir, Théoden, Aragorn, Legolas, Gimli e outra que não posso revelar mesmo que a maior parte das pessoas já conheçam esta história.

Nota: 9/10 - Excelente

Sara

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Crítica - Adeus, Tsugumi


Título: Adeus, Tsugumi
Autor: Banana Yoshimoto
Tradutor: António Barrento
Editora: Cavalo de Ferro
Nº de Páginas: 160
Preço Editor: 12,80€

Sinopse: «Desde a sua nascença Tsugumi possuía um corpo frágil e vulnerável. Os médicos anunciaram que ela iria morrer jovem e a família preparou-se para o pior. Sob essa ameaça, aqueles que a rodeavam estragaram-na com mimos. Tsugumi desenvolveu uma personalidade resoluta e insolente. Era maldosa e rude, tinha uma língua retorcida, era egoísta, mimada e de uma sabedoria maliciosa... Era tal qual um demónio.»


Transportado para uma praia japonesa de uma pacata vila pescatória. E depois, a partir daqui, tanto faz que seja manhã, tarde, ou noite, que a magia já está toda lá. A partir do momento que Yoshimoto consegue fazer-me isto com a sua obra «Adeus, Tsugumi», tem um leitor conquistado. Porque esta questão dos transportes às vezes basta por si só: se consegue criar uma relação emocional entre o cenário da história e quem a está a ler, pode ser um trunfo precioso. Pode dar-se o caso de as personagens não nos cativarem particularmente - não senti especial proximidade com nenhuma ao ler este livro - ou de a história também não ser tão especial como à partida prometeria - a minha relação com o enredo é pouco entusiasmada - mas como a autora realiza com sucesso a missão de transporte, gostei do tempo que passei com estas páginas.

Depois de uma primeira fase da história ligeiramente mortiça, em que demoramos um pouco a habituarmo-nos ao estilo de Yoshimoto (é verdade que já tinha lido um livro dela há alguns meses, mas tinha ficado com uma opinião muito indefinida). Mas rapidamente esta sensação de que somos levados para lá nos vai invadindo. A humidade e o ar salgado de que a protagonista sente tanta falta. As imagens que tem da vila de onde vai partir, e da qual sente já saudades. Poderia destacar a expressão de «perda eminente» como a que possivelmente caracterizará melhor a obra: a vila, a casa do passado, a própria Tsugumi que é doente desde pequenina.

Tentando encontrar elementos a que me agarrar, descortino os momentos em que as personagens deambulam pelas suas vidas naquele Verão. Os ambientes descritos, destacando principalmente o meu capítulo preferido - "Festival". É daqueles extractos de um romance que davam um conto por si só, que captam um determinada energia e a fazem resplandecer de forma especial. Os longos passeios pela noite fora, e a ameaça de Tsugumi poder adoecer. As manhãs de sol luminosas, e a ameaça de Tsugumi poder escapulir-se como tantas vezes faz. À noite, na praia, juntos à fogueira, numa cena a fazer lembrar quase um daqueles livros de aventuras juvenis da Enyd Blyton, e a ameaça do cão voltar a desaparecer. Os momentos são efémeros e vão passar-se todos com uma rapidez impressionante; ao mesmo tempo que são gravados na cabeça de Maria com uma lentidão igualmente intrigante.

Não posso evitar fazer uma referência ao trabalho de tradução, ainda que não saiba exactamente se hei de opinar positiva ou negativamente. Ou o estilo de Yoshimoto é assim mesmo, meio desiquilibrado em alguns momentos, ou então talvez seja consequência do trabalho do tradutor. Nem sempre achei que as passagens estavam escritas da melhor forma, mas talvez esteja a ser injustiça da minha parte. Tendo sido traduzido do japonês, tem um mérito próprio, uma aproximação valiosa. O trabalho de edição pecava por algumas gralhas em termos de parágrafos e travessões, mas justifica-se por ser uma primeira edição.

Em suma, um livro que nem sempre consegue manter em cima um grau de entusiasmo elevado para quem o está a ler. Mas com momentos poderosos, e uma capacidade de transporte para o cenário que achei das mais dolorosas que já li - dolorosas neste sentido positivo que é colocarmo-nos lado a lado com a personagem principal, já antevendo o momento em que vamos ser separados daquele mundo. Adeus, Tsugumi, e a vila que é a tua casa.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

Domingo, 27 de Novembro de 2011

Crítica - 1Q84


Título: 1Q84 (Livro 1)
Autor: Haruki Murakami
Tradutoras: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 490
Preço Editor: 18€

Sinopse: Um mundo aparentemente normal, duas personagens - Aomame, uma mulher independente, professora de artes marciais, e Tengo, professor de matemática - que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Em 1Q84, Haruki Murakami constrói um universo romanesco em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Onde acaba o Japão e começa o admirável mundo novo em que vivemos? Uma ficção que ilumina de forma transversal a aldeia global em que vivemos.


O primeiro capítulo desta obra é condição suficiente para o vínculo Murakami-Eu ser criado. E isto é de louvar. Primeiro, porque a minha experiência relativa aos livros deste autor japonês é a de começos pouco entusiasmantes, exceptuando um ou dois casos. O primeiro volume de 1Q84 tem início no interior de um táxi preso num congestionamento de trânsito. Toca na rádio a Sinfonietta, obra clássica de Leos Janacek. A mulher está com pressa, e não tem vontade de esperar horas naquela fila. E estão lançados os dados para aquela que é, provavelmente, a cena inicial mais épica de toda a carreira de Haruki Murakami enquanto romancista. O mérito de um excelente primeiro capítulo: no mínimo, já tem este prémio.

A obra intercala capítulos narrados pelas duas personagens principais: Aomame, e Tengo. Tenho uma opinião muito clara... na primeira fase do livro, os capítulos dela são muito mais fortes que o dele. O que não significa que as coisas não mudem de figura mais à frente. Sentia até um certo anti-clímax quando chegava a um capítulo de Tengo: "pronto, meia-hora sem Aomame".

Os cenários que Murakami cria são fabulosos porque nos levam para lá. A magia respira-se com facilidade. Destaco a cena da estufa das borboletas. Os diálogos entre as personagens são óptimos, fluem com uma consistência assustadora. E, de tão naturais são, que conseguem mexer com as nossas emoções, ao ponto de me fazerem rir tantas vezes. Esta é uma característica que me interessa muito em Murakami. O ambiente é de realismo fantástico, respira-se magia, mas magia sóbria: e, no entanto, consegue fazer-me rir tantas vezes. Destaco como exemplo o ensaio para a conferência de imprensa!

Depois desce às zonas mais profundas. A violência doméstica, por exemplo. As seitas religiosas e o mistério que criam à sua volta. Aventura-se pelos caminhos do que é realidade e do que é imaginação. É difícil fazer ver a minha opinião: com Murakami é particularmente difícil. A tradução é envolvente e torna a obra de leitura extremamente agradável: o trabalho conjunto de Maria João Lourenço e de Maria João da Rocha Afonso resulta numa harmonia digna de nota - uma harmonia murakamiana que já é tão típica para os leitores portugueses.

No entanto, e apesar de todos estes pontos positivos, e apesar de uma parte de mim ter ficado a morar naquele universo enquanto aguardo pelo lançamento do volume 2 para Março, e apesar daquele mundo ter tanta coisa interessante por contar, não foi uma experiência de imersão tão forte como já tive em alguns outros livros dele. Talvez por não se cravar de forma tão funda no universo das não-explicações. Talvez por abordar temáticas demasiado reais como a questão das seitas e da violência doméstica. Talvez pela insuficiente exploração do lado solitário das personagens... não sei, mas Aomame e Tengo não me conquistaram totalmente. Fico à espera do próximo com o entusiasmo em níveis altos, mas... mas...

É difícil falar de 1Q84 mas é fácil ler 1Q84. Somos levados a passear por uma Tóquio alternativa, viva, não tão vibrante como a de After Dark, mas ainda assim entusiasmante. Temos as cenas de ternura elevadas ao expoente máximo, como a leitura de Tchékov em voz alta. Temos as cenas de fazer crescer água na boca, como o jantar no restaurante de luxo. Temos personagens de todos os géneros e feitios, uma obra verdadeiramente diversificada neste aspecto! E uma linguagem que nos remete constantemente para imagens ilustrativas dos pensamentos das personagens... ficamos perturbados pelo comportamento de algumas delas. O mistério é outra das componentes, mas não gosto de associar essa palavra à obra do autor, parece-me sempre demasiado redutor. Duas personagens que passam para lá da linha do razoável e vão parar a não sabem onde, sem saírem do sítio. Já não estamos em 1984.

Nota (0/10): 8 - Muito Bom.


Tiago

Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Girl with a Pearl Earring - Crítica


Nome: Girl with a Pearl Earring
Autora: Tracy Chevalier
Editora: Plume
Páginas: 233


Sinopse: "When Griet becomes a maid in the household of the seventeenth-century painter Johannes Vermeer, she thinks she knows her role: housework, laundry, and child care. She even feels able to handle his shrewd mother-in-law, his restless wife, and their jealous servant. What no one expects is that Griet's quiet manner, quick perceptions, and fascination with her master's paintings will draw her inexorably into his world. Their growing intimacy sparks whispers: and when Vermeer paints her wearing his wife's pearl earrings, the gossip escalates into a full-blown scandal that irrevocably changes Griet's life. Witten with the precision and focus of an Old Master painting, Girl with a Pearl Earring seamlessly blends history and fiction into a luminous novel about artistic vision and sensual awakening."


1664 é o ano em que tudo começa. Conhecemos Griet, uma rapariga simples de dezasseis anos que tem uma família unida e pacata. No entanto, nem sempre tudo corre bem. O seu pai, um homem dotado de jeito para a pintura, perde a visão e as coisas mudam radicalmente: este fica sem emprego e o dinheiro começa a escassear. É neste ambiente que Griet se vê obrigada a ir trabalhar para casa de um pintor bem conhecido e falado, para poder ganhar alguns trocos para a sua família que quase morre de fome. Sentindo-se responsável por eles, Griet vai para lá um pouco contrariada. É aí que toma contacto com pessoas novas e também um estilo de vida novo. Para ela, muitas coisas vão mudar. Mas nem todas as mudanças vão ser boas.

A partir do momento em que estamos conscientes que o livro se passa no século dezassete, as coisas mudam um bocado. A mentalidade muda. Então, começamos a ver os acontecimentos a desenrolarem-se de outra maneira. Época em que as empregadas eram vistas com más olhos, Griet entra num mundo do qual nunca chega a sair. Etiquetada como empregada doméstica, para sempre se sente uma; o que vai fazer com que certas acções lhe pesem na consciência e a deixem com noites mal dormidas.

Tinham-me dito que, tal como o filme, o livro era muito parado. Eu acho que foi exactamente essa calma com que as coisas aconteciam que me deixou mais presa às palavras de Tracy Chevalier. Tudo acontece ao seu tempo e cada coisa tem o seu significado, por mais pequeno que seja. Entramos num livro que é cheio de cenários, paisagens, cores e cheiros. Achei maravilhosas as descrições que Griet fazia de cada quadro que o seu mestre começava a pintar. Não só os conseguimos imaginar à nossa frente como conseguimos saber no que é que o modelo estava a pensar ou o que é que aquela obra significa.

Acompanhamos a vida de Griet que, tal como a de toda a gente, tem os seus altos e baixos. Mas é a partir do momento em que se aproxima do seu mestre que algo estranho acontece. Subitamente, sentimo-nos presos àquele mundo de cores, telas e tintas. Mais nada em nosso redor existe. Os sons são longíquos, perdemos a sensação de toque. Tudo o que interessa é aquilo que vemos. E Griet vê o seu mestre, o seu adorado mestre. É presa a esta paixão platónica que ela acaba por viver os seus dias, sempre com medo da sua esposa, mas sempre desejando que ele repare nela. E nós nunca chegamos a perceber se ele realmente o faz. Nunca chegamos a perceber se ela não passa apenas de mais uma pintura. É este jeito de mistério que me deixa presa a esta obra. Não só as descrições, o ambiente e as personagens. É aquele mundo de Vermeer que me faz não querer guardar o livro na prateleira.

Personagens favoritas: Griet, Vermeer, Maria Thins, Pieter the son.

Nota: 9/10 - Excelente

Sara
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