segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Leitura Sincronizada

Os visitantes do Lydo e Opinado devem ter-se apercebido que tanto eu como a Sara estamos a ler o mesmo livro ao mesmo tempo. A situação, não sendo de todo comum, torna-se ainda mais estranho visto ser uma obra publicada em 1998, que estamos a ler na língua original (inglês), e que foi necessário encomendar de Inglaterra por não estar disponível por cá.

Tem uma explicação fácil: nenhum de nós tinha ouvido falar deste livro, mas para a disciplina de Inglês no 12º ano (específica no curso de Línguas e Humanidades) é recomendada esta leitura para posterior análise em sala de aula. É, portanto, obrigatório. Nenhum de nós se sentia verdadeiramente no momento certo para iniciar esta leitura (eu próprio me punha a questão se alguma vez teria vontade de o ler, visto não fazer bem o meu género), mas teve de ser...

A verdade é que eu vou na página 120, a Sara perto da 90, e é interessante esta experiência de irmos comentando a história quase em tempo real. Curiosamente, neste espaço de páginas ainda pouco representativo do livro no todo, já temos algumas opiniões completamente opostas - enquanto eu adoro a personagem Will, a Sara acha-o extremamente irritante.

Para já ambos estamos a gostar da história, achamo-la divertida, e a Sara ressalta a capacidade do autor de tratar assuntos sérios com algum humor. Acho que são extremamente bem conseguidos os saltos entre as personagens. E vamos ver o que esta leitura nos irá trazer...

Tiago

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Crítica - Uma Viagem à Índia


Título: Uma Viagem à Índia
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Editorial Caminho
Nº de Páginas: 456
Preço Editor: 25€

Sinopse: «Este livro é a narrativa da viagem de Bloom - um homem que tenta aprender e esquecer no mesmo movimento, traçando um itinerário de uma certa melancolia contemporânea.»

(100ª Crítica do Lydo e Opinado!)

Partamos do mais óbvio, tal como Bloom partiu de Lisboa. A forma de «Uma Viagem à Índia» recorda-nos uma outra viagem à Índia, uma a que poucos portugueses terão escapado ao longo da sua educação e formação cívica - Os Lusíadas. É que tal como a epopeia de alguns séculos atrás, esta nova também traz o mesmo número de Cantos, e o mesmo número de estrofes. Desengane-se quem pense que Gonçalo M. Tavares se colou por completo, pois isso também não aconteceu - o número de versos por estrofe tem grandes variações, assim como as sílabas métricas de que são compostos. Nestes pontos Tavares deu a si próprio liberdade.

As turbinas do nosso avião começaram a ligar-se, tal como as do que Bloom apanhou para Londres também. Mas atenção, ainda podem comprar bilhete aqueles que não estavam cá há cinco minutos. Para aqueles que torceram o nariz perante as palavras «estrofe», «verso», e, de forma subentendida, «poesia», podem estar descansados. Não se trata de poesia, e sim de... prosa quebrada. Imaginem um romance ao qual foi dada uma formatação estranha, introduzidos parágrafos ao acaso, e toma forma de poema. Não é a forma que define o conteúdo, mas isto sou eu que digo. E ao estilo que mistura poesia e prosa dá-se o nome de epopeia. Assim são os Lusíadas, e assim é esta que é chamada a primeira epopeia portuguesa do século XXI.

O avião levanta voo, sobrevoando terra em mar neste começo de viagem, em que Bloom quer esquecer por um lado, e procurar a sabedoria pelo outro. Nesta viagem à Índia, também cada um de nós é passageiro. Estamos perante a presença de um narrador que achei divertido e com sentido de humor, e um anti-herói chamado Bloom. Vamos descobrindo aos poucos a sua história, vai-nos sendo relatada aos poucos a sua viagem... e o enredo está pejado de paralelismos com Os Lusíadas. Só que esta é passada em 1498, e a outra no ano de 2003. E onde numa existem ninfas da Ilha dos Amores, na outra existem prostitutas num bosque das imediações de Paris.

Chegamos a Londres. Partamos para Paris. Temos de chegar à Índia, mas pelo caminho temos de percorrer muito caminho, porque muita da importância deste nosso acto passa pelo itinerário, e não exclusivamente pela chegada. Estamos perante um leque de personagens profundamente intelectuais. Por mais que o neguem, ou não. A linguagem, sempre funcionando com os jogos de lógica, os trocadilhos mentais, as questões metafísicas aplicadas a uma realidade que nos é conhecida, mexem com o leitor. Assim como as metáforas escolhidas por Gonçalo M. Tavares. Existem imagens/pensamentos/ideias que não serão apagados com facilidade da minha cabeça.

Paremos em Paris só para um cafezinho, que temos outros aviões para apanhar. A Índia, terra de sabedoria na qual finalmente nos encontraremos connosco próprios, espera-nos com ansiedade. Sejamos rápidos nestas considerações, que um ritmo frenético bate dentro de nós, a felicidade chama-nos ao longe. «Uma Viagem à Índia» trata-se de literatura portuguesa, da muito boa. Que o diga a crítica nacional, que tanto tem aclamado esta epopeia. Eu, que só conhecia Gonçalo M. Tavares do imaginário d' O Bairro, espantei-me a sério com esta obra que, meio por intuição, adquiri e logo li.

De cariz pessimista mas num tom que foge a este sentimento, com uma intelectualidade de discurso por vezes excessiva, noutros pontos certeira, uma profundidade de pensamentos que ultrapassa em muito o banal que existe num livro, «Uma Viagem à Índia» não é só uma viagem à Índia, é uma viagem a dentro de nós próprios, leitores, que nos aventuramos naquelas páginas e meio embasbacados terminamos a leitura. Que bom é existem autores portugueses que sabem arriscar bem. Pousemos, pois, os nossos pés em solo indiano.

Personagens Preferidas: Bloom. Pela sua inegável humanidade, sendo inegavelmente personagem.

Nota: 9 - Excelente.

Tiago

domingo, 9 de janeiro de 2011

Alterações na equipa do Lydo


Como provalvemente têm vindo a reparar, um dos membros da equipa do blog Lydo e Opinado tem estado ausente pelos últimos meses. Na verdade, passou já mais de meio ano desde o seu último post, mas mesmo antes desta situação a sua participação era já diminuta. Falamos, claro,d a Patrícia.

Está tudo bem com ela, não se preocupem porque não é por aí! A verdade é que o seu empenho para com a escola, a sua falta de tempo a vários níveis, e o seu envolvimento noutros projectos ainda em construção, não lhe permitem continuar a ler a um ritmo regular e, segundo as suas palavras, muito menos a participar no Lydo.

Visto que esta situação não é algo temporário, pois está previsto durar por muito mais tempo, a própria Patrícia sugeriu a sua saída da equipa do blog. E tanto eu e a Sara aceitamos este "pedido de demissão", visto que já não era a primeira vez que entre nós este assunto vinha cimo. Assim, continuam as críticas da Patrícia nos nossos arquivos do blog, para consulta de todos, mas deixaremos de contar com ela na nossa equipa.

O Lydo e Opinado agradece à Patrícia todo o seu contributo ao longo destes dois anos e meio, principalmente pelo facto de se tratar de uma membro fundadora (ao contrário da Sara, por exemplo, que entrou apenas há um ano e meio). Obrigado, e boa sorte nos teus futuros projectos! Podem deixar as vossas mensagens em forma de comentário, que a Patrícia as lerá.

Para já não está nos nossos planos acrecentarmos uma nova pessoa para substituir a participação da Patrícia. Mas o tempo o dirá.

Tiago

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Análise de 2010 em Leituras (Tiago)


Mais um ano que passou. No meu caso, não particularmente maravilhoso em termos de leituras. Isto é, embora tenha sido um ano positivo, com leituras agradáveis; e embora não tenha tido nenhum livro que me enervasse tanto que o tivesse de parar a meio, como o Brisingr em 2009... não houve assim grandes obras que me ficassem para sempre marcadas. Se de 2008 recordo com saudade a grande leitura do ano Os Pilares da Terra, e de 2009 a igualmente (e ao mesmo tempo diferente) avassaladora experiência com Crónica do Pássaro de Corda, não houve nenhum livro que este ano tivesse marcado pela diferença. Houveram, sim, livros excelentes e muito bons. Os quais passo a nomear no meu TOP 10 de 2011. Peço-vos uma coisa antes: que aceitem a minha junção dos dois livros no topo como um só - O Festim dos Corvos e o Mar de Ferro, que nas suas versões originais são um só livro, e que quis juntar também como um só neste TOP.

  • 1º Lugar: O Festim dos Corvos/ O Mar de Ferro - George R. R. Martin; Entre os fãs do autor de fantasia americano, este 4º volume da saga (7º e 8º com as divisões portuguesas) era o mais fraco de toda a série. Não achei. De longe. As Crónicas de Gelo e Fogo, nestes dois livros, sugaram-me por completo, e fizeram-me experienciar aquilo que um leitor deve de sentir várias vezes na sua vida. Puxar pelas personagens, viver intensamente com elas, agarrar-se a um mundo e quase acreditar nele, porque tudo ali nos parece tão próximo, e conhemos tão bem a rainha como o mais miserável. Uma teia complexa que agarra e não larga, e ainda bem, porque senão caía desamparado no cinzento da realidade. Melhores leituras do ano!
  • 2º Lugar: After Dark (Os Passageiros da Noite) - Haruki Murakami; De certeza que a minha experiência de leitura que decidi levar adiante com este livro influenciou o meu gosto por ele, mas isto sem lhe tirar qualquer mérito próprio. Ler numa só noite um romance passado numa só noite, um romance do nosso autor favorito, que vive a noite e a analisa à luz da profundidade das personagens mais estranhas que se podem juntar, foi emocionante. Um relato que nos leva a meditar sobre o sentido da nossa vida no meio de um mundo tão grande. Mesmo quando dormimos há à nossa volta muita gente acordado, e há um universo nocturno que nunca pára. Excelente, a reler, e aconselho a todos esta experiência de ler de uma vez, numa noite. É pequeno o suficiente para fazer isso.
  • 3º Lugar: Em Busca do Carneiro Selvagem - Haruki Murakami; Alguns de vocês podem pensar que os dados estão viciados no meu sistema mental. Ora, pelo segundo ano consecutivo, Murakami tem dois livros no TOP 3? É tão simples como isto. Eu peguei neste livro, comecei a lê-lo, estava sol lá fora, fui dar uma volta a pé, e ia lendo, depois sentei-me e lia, e não conseguia parar de ler. Por mim o narrador podia ter demorado mais uns meses a sua busca pelo carneiro (e com isto não digo que o encontrou... ou que não o encontrou... ou que o encontrou...), porque eu passava bem mais uns meses metido naquele livro. Não sei explicar, mas é por livros destes que Murakami é o meu escritor favorito.
  • 4º Lugar: Sonho Febril - George R. R. Martin; Novamente, os leitores do blog devem estar a suspirar e a dizer 'Este Tiago é um chato. Já vai no 4º lugar e ainda não saiu de Haruki Murakami e George Martin'. Mas provavelmente só dirá isto quem não leu estes autores. Sonho Febril foi uma leitura que aguardava com alguma ansiedade, e que correspondeu as grandes expectativas que tinha, se não as superou. Todo o imaginário criado pelas navegações do Rio Mississipi, a sua relação com um Terror credível e fantástico, a personagem principal que entrou para a galeria das preferidas de sempre, e as sensações que passaram para fora das páginas. A sério, fiquei fã do Mississipi, tenho de ir lá um dia. E ler Mark Twain, também. Fabuloso, este febril sonho, os fãs do fantástico não podem passar sem o ler!
  • 5º Lugar: O Evangelho do Enforcado - David Soares; A melhor leitura que tive de um autor português este ano. O romance histórico/ fantasia /terror passado na Lisboa Medieval, com todo um pano negro envolvendo os cenários, as personagens, as texturas das ruas e os cheiros fétidos... não sabia que se escrevia fantasia a um nível tão avançado em Portugal. Detalhes meticulosos, pesquisa louvável, um sentido mórbido que não serve para o estômago de qualquer leitor, e uma re-invenção/interpretação histórica muito interessante, que deixam questões no ar. David Soares surpreendeu-me com força, abanou-me os ombros, e proporcionou-me uma leitura excelente.
  • 6º Lugar: O Passado que Seremos - Inês Botelho; Outra grande surpresa portuguesa foi o romance de Inês Botelho. O que me ficou marcado não foi a história retratada ao longo das páginas, até porque não era essa a intenção da autora ao escrever o livro. Foi a enorme sensibilidade no uso da palavra, a apropriação da língua portuguesa para usos novos e criativos, as sensações que passavam, o uso dos jogos temporais, numa escrita envolvente, muito curiosa, e que para mim resultou muito bem. Adorei ler este Passado que Seremos, e um pouco deste livro vai continuar sempre comigo, talvez na forma de pensar nas potencialidades tão grandes que a nossa língua tem.
  • 7º Lugar: Memorial do Convento - José Saramago; Agora que reparo, que bom é ver três autores portugueses seguidos uns dos outros no TOP. Este romance, que no princípio da sua leitura me recordava vagamente as imagens que tinha lido no Evangelho do Enforcado, evoluiu depois noutras direcções, curiosamente também do fantástico. Marcado pela ironia e pela típica escrita, e também pela forma como as palavras vão entusiasmando o leitor a continuar a leitura, fiquei cativado com este memorial do convento que me surpreendeu pela positiva em relação ao que esperava. Neste momento devem estar Blimunda e Baltasar contentes com este 7º lugar no TOP... espero eu.
  • 8º Lugar: Os Miseráveis - Victor Hugo; A leitura do ano em termos de grandiosidade. Atirei-me para este clássico de cabeça, convencido de que era a altura de o ler. Mas não estava à espera de 1100 páginas de letra minúscula e margens ainda mais pequenas fosse um caminho tão difícil de percorrer. Depois de quatro meses (no primeiro dos quais houve a peripécia de ter percebido - a tempo! - que estava a ler uma versão que cortava partes) de esforço e dedicação, cheguei ao fim com a sensação de que tinha valido tanto a pena. Exceptuando os longos capítulos em que ao autor apetecia divagar sobre a história ou outros temas de não-ficção, o romance era poderoso, um clássico inegável, e uma tragédia emocionante. A ler, pelos que não tenham problemas com tantas letras.
  • 9º Lugar: As Duas Torres - J. R. R. Tolkien; Que bom foi finalmente ter respirado de alívio e ter pensado que afinal gostava da trilogia que a esmagadora maioria dos críticos dizem ser a mais importante na história da fantasia. Depois de um primeiro volume que pouco me tinha impressionado, este segundo achei-o com mais fôlego, mais energia, e de uma leitura mais interessante e rica. Se o terceiro se mantiver assim, valeu muito a pena ler a trilogia que mudou a fantasia!
  • 10º Lugar: Pinball, 1973 - Haruki Murakami; Voltem lá à imagem de cima dos livros no TOP e confirmem que um pequeno livro azul está no fundo do monte. E agora fiquem também sabendo que esta pequena novela foi o livro que me saiu mais caro (de longe) de todos os que figuram na minha estante - isto porque o encomendei do Japão, e os portes de envio acabaram por pregar-me uma surpresa. Esta leitura, mais próxima da língua original uma tradução, foi rápida e agradável. O livro por si só dificilmente traz fãs a Murakami, mas a quem já é seu leitor é uma experiência interessante e que eu voltava a repetir. Surreal!

Feito o TOP, sigamos para a parte das Estatísticas, que eu tanto gosto de fazer. Este ano li menos que o ano passado, tanto em livros como em páginas. Li 7131 páginas, num total de 24 livros. (Em 2009, 8800 páginas em 27 livros). Cada livro que li tinha em média 297 páginas - mas os extremos foram Aviso por Causa da Moral e Outros Textos, com 53, e Os Miseráveis, com 1088.

Em média li 20 páginas por dia, o que em comparação com o ano passado é uma mudança de menos 4. A estação do ano em que li mais foi o Inverno (37% das leituras), seguido do Verão, seguido do Outono, seguido da Primavera. Isto foi tal qual o ano passado! Parece que tenho mesmo estações preferidas do ano para ler. na primeira metade do ano li 57% do total, e na segunda 43%. Um bocadinho desiquilibrado, mas já esperava.

Em termos de qualidade, a minha média das notas que dou aos livros aqui no Lydo ficou-se pelos 7,79. Para mim, uma média que às décimas não chegue a 8 não chega para classificar um ano de muito bom. Embora arrendado da maneira tradicional chegue lá. E é certo que 1/3 dos livros tiveram 9 ou mais. Mas só 1 teve a nota máxima, e isso é triste, comparando com os 4 10's que dei o ano passado. Isto para dizer que esperava um pouco mais em termos de qualidade geral.

Falando de autores! David Soares foi a grande revelação do ano. Tinha ouvido falar pouco do autor, os seus livros não me cativavam, e agora estão todos na minha lista dos por ler. Porque o Evangelho do Enforcado foi mesmo bom. Haruki Murakami, por sua vez, foi o autor de que li mais livros, com 5, e mantém-se no primeiro lugar na minha lista de preferência dos autores. Não é por ter lido 5 dele este ano que é o meu autor preferido, e sim por ser o autor preferido é que li 5 este ano.

Em relação aos meus objectivos do ano passado, que eram quatro, só não cumpri um: Chegar às 10.000 páginas - Não consegui. 33% dos livros serem de autores de língua portuguesa - Consegui e ultrapassei! Consegui chegar aos 45% neste parâmetro, o que muito me agradou. Não só com os portugueses, mas com os africanos que também experimentei. Existem muito bons escritores na nossa língua.

Objectivos para 2011: Ler 8.000 páginas; experimentar autores novos; 33% dos livros de autores de língua portuguesa; manter a minha participação activa no Lydo e Opinado e no Murakami PT.

E é isto. Em baixo podem ver a fotografia dos livros lidos este ano. Mais pequena que no ano passado, sim... que podem ver carregando aqui. Um bom ano 2011 de leituras para todos os visitantes do Lydo!

Tiago

domingo, 2 de janeiro de 2011

Crítica - Memorial do Convento


Título: Memorial do Convento
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
Nº de Páginas: 493
Preço Editor: 16,66€

Sinopse: Era uma vez um rei que fez promessa de levantar convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.


Parti para a leitura do Memorial do Convento sem ter bem a noção do que iria encontrar pela frente, meio que conduzido por aquilo que a escola me dizia, Leitura obrigatória no 12º ano de escolaridade, e pelo que a professora de português disse, Leiam o Memorial nas férias de Verão, ora poucos dias depois de ela ter dito isto morreu José Saramago e a notícia correu Portugal e o Mundo, porque o autor em questão era um Nobel da Literatura. Há coincidências que nos atingem com força, não as há, mas comigo não me atingiu de maneira especial, é que ainda não o tinha lido, e quando morre um autor que nunca se leu, a pena não é desmedida. A minha não foi.

Não o li nas férias do verão porque não me apeteceu. Foi adquirido, estava para lá na estante, mas quando olhava para ele só dizia, Ainda não, e ele ficava lá à espera. Até que agora em Dezembro me chamou com a sua capa amarela com rectângulos castanhos, capa de cartão cuja textura tanto me fascinava, mas não passava disso, Vamos lá ver como é que a leitura vai ser, e comecei a ler.

O estilo de escrita não foi difícil de habituar, parecia até mais simples e natural que aquele dito convencional, porque na verdade quando se fala e quando se ouve não estão lá os travessões antes das nossas falas, e quando se conta uma história também não dizemos, E ele disse travessão cá estás tu, isto por exemplo. Não fazia falta e só desviaria a atenção.

O Memorial conquistou-me. Estava à espera de um romance histórico enfadonho sobre a construção do Convento de Mafra, e o que encontrei foi uma inesperada e bem-vinda dose de fantasia aliada à história, com momentos sobrenaturais e claramente fantásticos a adornarem o enredo de forma bem sucedida, Olha, não estava à espera. Encontrei personagens que me surpreendiam pela sua dicotomia entre simplicidade e profundindade, como todos somos, aliás, simples e profundos, cada um de nós.

Na memória permanecerão as imagens de uma Lisboa que de um lado era tão rica e do outro tão decandente, e também a constante ironia que parece aceitar um Deus que não é o convencional, e também uma revolta social presente em cada página, e uma descrição dos ambientes que me fez recordar a leitura do Evangelho do Enforcado, de David Soares, dois romances que poderiam ser irmãos, não tivessem entre si talvez mais diferenças do que semelhanças; e um toque de humor divertido que de vez em quando dava para sorrir, e uma energia que cativava a continuar a ler, e no fundo o reconhecimento pelo trabalho do único Nobel português da nossa história.

Mais do que a história do convento, muito para lá disso e muito aquém disso, está o Memorial do Convento, com a sua teia complexa e simples, as suas personagens profundas e banais, o seu toque certeiro na crítica social. E uma beleza incontornável nas palavras.

Personagens Preferidas: Padre Bartolomeu Lourenço, Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis.

Nota: 9/10

Tiago

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Crítica - Underground (O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa)

Título: Underground (O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa)
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Susana Serras Pereira
Editora: Edições Tinta-da-China
Páginas: 461
Preço Editor: 22,31€ (15,6€ pelo site da editora)

Sinopse: «A data é 20 de Março de 1995. Está uma bela e límpida manhã de Primavera. Ainda se faz sentir uma brisa fria e as pessoas andam agasalhadas, de casaco. Ontem foi domingo, amanhã celebra-se o Equinócio da Primavera, é feriado nacional. Ensanduichado no meio do que deveria ter sido um fim-de-semana longo, está provavelmente a pensar “Quem me dera não ter de ir trabalhar hoje”. Mas não tem tal sorte. Levanta-se à hora do costume, lava-se, veste-se, toma o pequeno-almoço e dirige-se à estação de metro mais próxima. Entra para a carruagem, apinhada como de costume. Nada de anormal. O dia promete ser perfeitamente igual a todos os outros dias. Até ao momento em que cinco homens disfarçados direccionam os seus guarda-chuvas de pontas afiadas para o chão da carruagem, perfurando uns sacos de plástico cheios de um líquido estranho…». Um dos mais famosos episódios do terrorismo contemporâneo, o atentado de Tóquio não só traumatizou as vítimas directas como abalou toda a sociedade japonesa. O que sentiram os sobreviventes do ataque? Como reagiram? Como explicar a obediência dos fiéis seguidores do líder da seita Verdade Suprema? Em «Underground», Murakami compõe as entrevistas que realizou a dezenas de vítimas do gás sarin e a vários membros da Aum Shinrikyo (Verdade Suprema), tecendo uma narrativa em que procura compreender a relação entre o atentado e a mentalidade japonesa.

Um dos motivos que fazem de Haruki Murakami o meu autor preferido é o facto de partir para um livro seu sempre com a certeza de que uma maneira ou de outra me vai surpreender. Isso aconteceu com os sete trabalhos de ficção que li até agora dele, e também com o de não-ficção “Auto-Retrato do Escritor enquanto corredor de fundo”. Mesmo o seu primeiro, “Hear The Wind Sing”, que após ter terminado fiquei com uma sensação de que faltaria qualquer coisa, me tinha surpreendido pela atmosfera para onde me tinha puxado. Acontece que “Underground – O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa” é uma obra composta de entrevistas feitas pelo autor às vítimas de um ataque de gás sarin no metropolitano da capital japonesa, e na segunda metade aos membros/ex-membros da seita que provocou o atentado.

Primeiro que tudo, e antes de iniciar a minha opinião, quero deixar uma nota muito positiva à editora Tinta-da-China, que edita este livro em Portugal. É a primeira obra de Murakami que leio fora do domínio da Casa das Letras, e adorei o conceito gráfico desta edição.

A primeira metade ainda nos envolve por algum tempo. Não digo que a segunda não deixe de ser agradável de ler, mas a primeira tem ainda um toque muito particular de Murakami, nomeadamente em dois capítulos seguidos que se encontram entre as páginas 121 à 140. Estas dezanove páginas são de todo o livro as mais marcantes; atingem um elevado nível de escrita e conferem-lhe uma grande emotividade. O segundo desses dois capítulos, particularmente, e apesar de não-ficção, está carregado das palavras e do génio do escritor japonês. São páginas de arrepiar e, no fim, aplaudir, ainda que só vamos a um terço do livro e falte ainda muito para terminar. Mas o que senti é que, se o livro terminasse ali, já não ficávamos mal servidos de todo. Foram talvez 20 das melhores páginas que li neste ano de 2010.

Que pena é, no entanto, que esse expoente não se tenha esticado mais. O livro é um retrato de pessoas, que falam de si próprias e das suas vidas. E sim, é espantoso o trabalho jornalístico feito por Murakami, é espantoso o painel de vidas a que de repente temos acesso, é interessante ver as dezenas de perspectivas diferentes acerca de um único acontecimento. E em relação à segunda metade, o interesse e a curiosidade mantém-se em descobrir que, afinal, os membros da seita Aum são afinal pessoas normais, que podiam ser qualquer um de nós. Sem qualquer ligação ao atentado, muitos não queriam acreditar sequer que tinha sido a sua religião a provocar tal monstruosidade.

É, pois, ponto assente: o livro está original e muito bem concebido. Para um ensaio de não-ficção, composto por dezenas de entrevistas, e um retrato dos acontecimentos passados no dia 20 de Março de 1995 em Tóquio, está aqui uma obra de grande valor – e à qual tenho a certeza que o autor dispensou todos os seus esforços e profissionalismo.

Não posso, no entanto, dizer que fiquei totalmente satisfeito com esta leitura. Porque não fiquei. Com os autores muito bons, há sempre o risco de haver um livro que esteja um pouco abaixo daquilo que nos habituou, e depois desilude-nos. Acho muito boa a capacidade que ele tem de se dividir entre os estilos narrativos e os de investigação e ensaio, mas a verdade é que “Underground” não me deixou agarrado, por exemplo. Enquanto um todo, é interessante, mas ao longo da leitura foram poucos os momentos em que senti “não posso parar, vamos lá ver como é que isto continua”. É um estudo, eu diria quase um retrato social. Fica-se a aprender muito sobre o Japão e o modo de vida das pessoas. E sim, isso foi muito bom e saio mais rico desta leitura. Mas faltou um qualquer tempero que esperaria vindo de Murakami. Excepto naquelas vinte páginas. Aquelas vinte páginas…

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Após a leitura da... BANG!


A minha expectativa era muita, quase como se se tratasse do lançamento de um livro há muito esperado. O que era estranho, pois não passava do número 8 de uma revista que eu nunca lera. A Bang!, revista dedicada ao fantástico literário, com a chancela da Saída de Emergência, era uma daquelas publicações que eu nunca lera. Ora porque era editada em e-book, ora porque só era posta à venda através do site. Num entanto, agora no fim de Outubro, em virtude de uma parceira fortíssima com a FNAC, conseguiu assegurar a sua distribuição por todas as lojas do país pertencentes a essa cadeia de livrarias. Melhor ainda – gratuitamente, a cores, e com excelente qualidade.

Desengane-se quem pense que se trata de um catálogo. A Bang! é muito, muito mais do que isso. É verdade que aproximadamente um terço dos livros referidos pertencem à Saída de Emergência (não que seja mau, repare-se), mas existem muitas outras referências a livros de outras editoras portuguesas, e até estrangeiras. E para lá dos livros, ainda mais importante: a ficção publicada, e os ensaios de excelente qualidade. Ao ler a Bang! 8 de uma ponta à outra, senti-me na presença de um guia do fantástico que me fascinou pela surpresa.

Segue-se uma análise minha dedicada a cada uma das secções/contos/ensaios da revista:

  • • Do «Editorial» só tenho a dizer bem. Com as palavras de Safaa Dib ficamos a saber um pouco melhor do que se trata o projecto, da sua história, e, enfim, entusiasma-nos a partir para a leitura. Sou fã de editoriais… de referir, no fundo da página, a originalidade dos créditos da revista, que pode passar despercebida: com “director e escravo das galés: Luís Corte Real”, “colaboradores explorados nesta edição”, “autores convidados à bruta”, e “tiragem de revirar os olhinhos”. Só alguns exemplos!
  • • A página «Ilustrador da Capa» parece-me justa e interessante, dignificando assim o trabalho do ilustrador, e dando a conhecer um pouco mais da sua obra. Embora não tenha ficado particularmente interessado na carreira de Alejandro Dini.
  • • As páginas «Colecção Bang!» também foram do meu agrado. Claro que gostei de ver o “Sonho Febril” destacado, como aliás não podia deixar de ser. Das novidades prometidas, destaque para “A Corte do Ar”, e o livro de contos de David Soares. São os que estão sob a minha vigia…
  • • «M., de malária» é um conto de José Eduardo Agualusa, publicado numa antologia de vampiros aqui há uns meses, e agora na revista Bang. É o primeiro texto que leio do autor, embora já tivesse lido críticas de livros do mesmo. Não me surpreendeu por aí além, e até tenho de dizer que foi talvez o conto desta edição que menos me cativou. Com muita pena minha.
  • • «A (Minha) História de Duna», texto de Jorge Candeias, é uma crónica do autor e tradutor sobre a experiência de tradução do livro de ficção científica Duna, publicado há pouco tempo pela Saída de Emergência. Ponto positivo: a descontracção do Candeias a escrever é notória, e cria empatia e relação com quem quer que leia. Ponto negativo: não me cativou particularmente para a leitura do livro, tendo até adiado as minhas perspectivas de leitura. Foi sincero nas suas palavras, e eu, acreditando, adio Duna para outra altura da minha vida.
  • • O melhor conto de toda a revista Bang 8 foi para mim o de George R. R. Martin – “Com a manhã chega a neblina”. Como todos saberão, sou fã assumido do autor de fantasia. Mas é inacreditável como o mesmo me continua a surpreender a cada texto que leio – desta vez tratando-se do primeiro conto que leio dele. Martin dá um estilo cativante ao texto, dá-lhe um final profundamente meditativo e surpreendente, e, fugindo ao que seria de esperar nele, presenteia-nos com uma quase moral da história que não me deixou indiferente. Muito bom.
  • • «Os livros das minhas vidas» é uma crónica que a cada mês vai ter um convidado diferente. Talvez a dimensão de apenas uma página tenha sido causa para não ter apreciado por aí além. Afonso Cruz fez as suas escolhas, e falou especificamente de uma. Mas caíram assim como que num vazio… sem grande contextualização, ou introdução.
  • • A secção «Távola Redonda» deixou-me rendido, e aqui fica a sugestão de apostarem bem nela! Convidam cinco autores para falarem acerca de um dado tema, e nesta edição falaram da publicação. Artigo muito informativo e esclarecido, com alguns pormenores bastante interessantes. Diverti-me particularmente com alguns pontos de vista de Inês Botelho, que revelou ter contactado as editoras para a sua primeira obra através das listas telefónicas. Achei graça!
  • • O conto «A boa gente de Sodoma», de Matthew Rossi (a ser publicado em Portugal para 2011) não me chamou a atenção, talvez pelos termos técnicos demasiado desenvolvidos para a minha cabeça. Num estilo que torna científica a ficção (ficção científica!), dá-nos uma explicação “óbvia” sobre algumas das consequências das viagens no tempo. Não me surpreendeu.
  • • António de Macedo é autor do ensaio cuja 1ª parte nos é apresentada nesta revista: «Os mundos imaginários do fantástico português». Muito interessante de ler, do princípio ao fim, revela-nos factos históricos da existência do género Fantástico em Portugal mesmo desde a Idade Média, e posso dizer que aprendi muita coisa ao longo das oito páginas de texto. Fico a aguardar ansiosamente pela continuação destas páginas de história…
  • • Outro conto o qual não gostei por aí além foi «Os Cascos e o Casebre de Abdel Jameela”, conto finalista do Prémio Nébula 2009, escrito por Saladin Ahmed. Talvez com um imaginário demasiado cru, não sei bem explicar, acabou por não me convencer muito. De princípio confuso e desenvolvimento pouco rico, fiquei com a sensação de que apenas certos momentos foram de facto bons de ler. Mas é claro que isto se trata apenas da minha opinião!
  • • «Légolas, rói-te de inveja!» é um artigo escrito sobre uma saga de elfos negros que saiu agora publicada pela Saída de Emergência e que, para ser sincero, não me cativa minimamente. Não sei se é por não fazer o meu género preferido de fantasia, se pelo estilo de escrita, se… não sei. E depois de ler o artigo continuei sem estar interessado. Há livros com que uma pessoa embirra sem ter lido, não é? Acontece-me com muitos de vampiros, e agora com este…
  • • Do conto «Felicidade» de Inês Botelho esperava tão mais! Se calhar porque tinha as expectativas demasiado elevadas, pareceu saber-me a pouco. Claro que se ela desenvolvesse, e evoluísse para algo um pouco mais longo, eu pudesse ter-me agarrado com outra garra. Mas o tamanho parece não ter jogado a favor, e fiquei apenas com uma sensação de ter gostado, mas de quem queria mais. Sou um leitor fã de Inês Botelho, pelo que ela nos tem dado nos mais variados géneros, e foi bom vê-la aventurar-se numa distopia. Um bom trabalho, mas que me soube a pouco.
  • • «Nova Vaga, Novas Capas» reflecte um período muito específico da história editorial da ficção científica, durante os anos 60. Mostra a evolução das capas, a acompanhar as mudanças sociais ocorridas na época, e foi bom ter acesso a este ponto de vista. No fundo, as decisões editoriais relativas a grafismos e capas nunca são feitas ao acaso. Há sempre bases e porquês para determinadas escolhas…
  • • O texto de não-ficção « Fantasia Urbana ou Romance Paranormal?», da Safaa, explora este mistério que é a catalogação dos livros por géneros, subgéneros, subsubgéneros, etc. E que para mim sempre foram exactamente isso: um mistério, sempre relativo. Ficamos um pouco mais explicitados, e foi interessante de ler.
  • • «As Cidades do Segundo Esquerdo», de Afonso Cruz, é talvez um dos contos que mais gostei de ler logo a seguir ao de George Martin, talvez pela escrita e originalidade me terem surpreendido. Fiquei apenas com pena do tamanho, porque tenho a certeza que a temática dava para construir um projecto muito maior!
  • • A secção de críticas foi uma desilusão. A sério. Esperava umas 10 páginas de críticas boas, mas o que li foram na sua maioria resumos dos livros; e posso dizer que pela blogosfera já tenho lido críticas aos mesmos livros, melhor realizadas! Sem querer desvalorizar o trabalho de quem as fez, senti que se agarraram muito ao enredo, e se afastaram um pouco da opinião (excluindo uma ou duas específicas de que gostei mais). Espero que apostem nesta secção um pouco mais, e alarguem, pois para mim a crítica é sempre uma área na qual se deve apostar, para que os leitores percebam se devem ou não ler um livro, segundo a opinião de uma dada pessoa. Mais objectividade, talvez.
  • • A secção de Banda Desenhada foi agradável de ler, com o seu artigo sobre a série “The Walking Dead”, livro que vi traduzido para português no outro dia na FNAC.
  • • A última página foi também do meu agrado, com as novidades literárias do fantástico esperadas para o próximo trimestre. Apenas como ponto negativo uma dada parte da crítica à trilogia de Anne Bishop, que me parece conter alguns spoilers (sérios?) no princípio do último parágrafo. Espero que não me estrague a surpresa da leitura…
No fundo, uma das poucas coisas que não gostei na Bang é do seu carácter trimestral que por mim, apenas leitor, podia ser reduzido! Embora compreenda perfeitamente o trabalho que dá fazer uma publicação destas. Cá estarei para ler o próximo número, e aqui fica a nota para todos os leitores do Lydo e Opinado: vão buscar a revista a uma FNAC perto de vocês. Ok? BANG!

Tiago
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