sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Última Amante de Hachiko - Crítica


Título: A Última Amante de Hachiko
Autora: Banana Yoshimoto
Tradutor: António Barrento
Editora: Cavalo de Ferro
Nº de Páginas: 97
Preço Editor: 12,80€

Sinopse: «Romance que reune o Japão das seitas e a Índia da ascese e do misticismo. Mao é uma rapariga que vive numa comunidade religiosa centrada na figura carismática da avó, curandeira e vidente. Esta seita, após a morte da fundadora, começou a trair os seus ensinamentos e a transformar-se numa comunidade de acólitos exaltados e fundamentalistas. Mao, dotada de alguns poderes sensoriaiis e de um singular talento artístico, afasta-se cada vez mais deste ambiente, e acaba por ir viver com Hachi, ao qual está ligada por uma profecia de amor e misticismo. No entanto, a sua relação não está destinada a durar. O inevitável fim desta história de amor assinala para Mao o fim da adolescência e a passagem para uma nova percepcção mais equilibrada da existência.»


Há uns seis meses atrás encontrei, por acaso, uma pack numa Livraria Bertrand - reunia quatro das obras de Banana Yoshimoto, autora japonesa contemporânea, por apenas 20€. Pensei por alguns segundos, e decidi pôr de parte. Não conhecia nada dela, nunca tinha ouvido ou lido sequer o nome, e não estava disposto a arriscar. Passou-se um bom tempo. Até que em Fevereiro uma leitora amante de Haruki Murakami me disse estar a ler um livro dela, que tinha adquirido nesse tal pack, e estava a gostar. Resultado: lá fui eu, com a curiosidade renovada, encomendar os livros. Tive sorte, pois o desconto especial ainda estava a ser praticado!

Na segunda-feira, ao decidir a minha próxima leitura, Banana Yoshimoto lembrou-me da sua existência. E, das quatro capas, a mais bonita de todas era a de 'A Última Amante de Hachiko'. Há qualquer coisa na imagem e na montagem gráfica que me deixam de rastos. Excelente trabalho da Cavalo de Ferro. Movido pelo entusiasmo, iniciei a leitura deste curto romance de aproximadamente 100 páginas.

A primeira metade do livro é estranha. A acção decorre de forma arritmada, não é criada uma ligação especial entre o leitor e a história. Começa-se desde o princípio a notar no estilo particular da autora, que se lança em devaneios emocionais interessantes, servindo-se como base de parágrafos curtos de ideias fechadas. Mas falta ali um clique que nos faça agarrar ao livro, é como se estivessemos em processo de transfiguração para a dimensão que a literatura oriental representa para o Ocidente. Há sempre um choque, e um tempo de adaptação. Adaptação essa que, neste livro, não me caiu particularmente bem.

A segunda metade revelou-se, contudo, diferente. Mais fluida, a narrativa segue em direcção fim inevitável que é ditado ao longo de quase cada página. Existem passagens lindíssimas, arrepiantes, momentos em que os conceitos que temos do mundo e da existência parecem fugir-nos para longe durante alguns segundos. Não é que tenha apreciado a maioria das cenas românticas, porque escapam-me um pouco: são relatadas como algo plástico, meio artificial. Ou pelos menos fiquei com essa sensação.

O misticismo japonês, misturado com a questão ascética indiana, são o elemento que mais destaco no livro. Esta questão das seitas, das aparições fantasmagóricas, da sensibilidade para o sobrenatural; e do exílio, das orações pela paz, das montanhas de retiro... são questões que, no campo da literatura, e pela experiência que tive com este livro, se revelaram interessantes. E acabam por ser o ponto mais profundo, a marca que 'A Última Amante de Hachiko' deixa em mim.

Resumindo e concluindo, ou tentando resumir e concluir: fico com um sentimento meio abstracto e ambíguo em relação ao livro. Se por um lado existem passagens que transmitem as sensações das cores e da existência humana, existem outras em que o amor nos parece exageradamente descabido. Se em certos momentos a história sobe a níveis de emoção e cria e ligações quase místicas com o leitor, noutros parece que tudo não passa de uma refeição que comemos, digerimos, e já está. Pelo vínculo que renova em relação ao imaginário oriental, valeu a pena a leitura. Ainda tenho os restantes três da autora para ler, e vão servir como termo de comparação. Uma leitura muito agradável, mas que soube a pouco, e deixou um travo agridoce na consciência.


Personagem Preferida: Hachiko, mas não criei ligação com nenhuma em particular.

Nota (0/10): 7 - Bom


Tiago

5 comentários:

Cat SaDiablo disse...

Senti mais ou menos o mesmo, essa ambiguidade, em relação ao livro da Banana Yashimoto que li, Lua de Mel. Também tenho cá esse para ler (ambos custaram 1 a 2€ :P). Acho que é uma escritora muito contemplativa e espiritual, muito "japonesa"

Olinda Silva disse...

Também tenho um pack de 3 ou 4 livros da Banana Yoshimoto. Li há 2 meses "Lua de Mel", ficando com uma impressão pouco consolidada acerca da escritora, por isso, comecei a ler agora este livro, para tirar também comparações.
Só descobri agora o blog, um pouco casualmente. Gostei, muitos parabéns!

t i a g o disse...

Olinda, fico então à espera de um comentário, pode ser? :)
Eu tenho de ser sincero, também fiquei com essa mesma sensação: de não ter percebido muito bem se gosto ou não dela.

Muito obrigado pelas palavras simpáticas :)

Olinda Silva disse...

De facto, quando li o meu primeiro livro da Banana Yoshimoto ("Lua de Mel") não fiquei propriamente impressionada ou cativada. Se não tivesse mais livros dela em casa, provavelmente não voltaria a querer comprar e a ler mais algum.
Nas primeiras páginas deste livro sobressai a semelhança na forma vaga ou fugaz de misturar ideias e acontecimentos. Fiquei logo desiludida e com vontade de desistir da leitura. Quando, tal como o Tiago menciona, a narrativa se torna mais fluída, o livro torna-se mais agradável.
Esta leitura foi mais positiva, mas no entanto sinto que preciso de ler mais algum livro da autora, na expectativa de ser finalmente surpreendida e lhe dar o eventual mérito.

t i a g o disse...

Parece que é mesmo característica da autora, a névoa relativa aos sentimentos definitivos sobre uma sua... :)

Obrigado pela opinião!

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