quarta-feira, 10 de março de 2010

Novidade da Semana - O Evangelho do Enforcado

Título: O Evangelho do Enforcado
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
Nº de Páginas: 368
Preço Editor: 18,85€

Sinopse: Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal. Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.

Nunca li nenhum dos livros de David Soares, «A Conspiração dos Antepassados» e «Lisboa Triunfante». O que é certo é que este autor é considerado pela saída de emergência como uma dos grande escritores portugueses da actualidade, e que a capa e a sinopse desta último livro a ser publicado há cerca de um mês, «O Evangelho do Enforcado», é mais do que suficiente para despertar a curiosidade de qualquer leitor. Os Painéis de S. Vicente, pelo muito pouco que se sabe acerca deles, são uma obra enigmática acerca do qual muitas intrigas se podem criar. Daí que a escolha do tema tenha sido excelente.

Além disso, gostava de experimentar a escrita deste autor, da qual não sei absolutamente nada. parece-me um romance histórico muito interessante, e a ver se numa próxima ida à livraria leio o primeiro capítulo, como é meu hábito fazer. Também estão curiosos com este livro? Já leram David Soares?

Tiago

segunda-feira, 8 de março de 2010

Resultados do passatempo «O Passado que Seremos»!


Mais um passatempo do Lydo e Opinado realizado! Desta vez, recebemos mais participações do que no primeiro - 130. A grande maioria delas foram consideradas válidas, mas alguns visitantes fizeram alguma confusão no nome dos livros de Inês Botelho, ao escreverem por exemplo "A Senhora dos Mundos", quando a hipótese seria "A Filha dos Mundos", ou também apareceu pessoas que escreveram "A Senhora da Noite", quando deveria ser "A Senhora da Noite e das Brumas". Apenas considerei para sorteio as respostas correctas. Também notei que algumas pessoas se inscreviam duas ou três vezes seguidas, e eu deixei claro que só aceitamos uma participação por pessoa - daí que só tenha considerado a primeira.

Quero agradecer a todos os que participaram neste passatempo, e visto que ainda não realizei o sorteio aleatório aqui, desejar a todos muita sorte. O passatempo fez com que o Lydo e Opinado bate-se um novo record de visitas diário, na quarta-feira, onde chegámos às 151. Muito, muito obrigado a todos! Acima de tudo à própria Porto Editora, que disponibilizou o exemplar para passatempo. Sem eles isto não teria sido possível.

Então, vou agora realizar o sorteio. E já está! A vencedora desta passatempo do livro «O Passado que Seremos é:

Patrícia Madeira, de Santarém!

Parabéns, Patrícia, ganhaste um exemplar do novo livro da Inês Botelho! A todos os outros, fica aqui um voto de confiança, para que não desistam de participar em novos passatempos que eventualmente possam surgir aqui no blog. Um dia a sorte há-de vos ser favorável... quem sabe! Aproveito para reforçar que, como sabem, entretanto li o livro, e adorei. Mesmo não tendo ganho o passatempo, aconselho-vos a comprá-lo, ou alugá-lo numa biblioteca. Por vale mesmo a pena lê-lo.

Tiago

domingo, 7 de março de 2010

Ainda não começaste a ler As Crónicas de Gelo e Fogo?


Se por mero acaso, caro visitante do blog, ainda não começaste a ler As Crónicas de Gelo e Fogo, então este post é para ti. É que, tendo eu já lido os oito, e no fim de cada uma das críticas ter colocado uma observação «Escusado será dizer que, quem ainda não começou a ler, não sabe o que perde!», e colocando a hipótese de existir alguém a quem esse conselho tenha passado ao lado, decidi reforçar novamente a minha opinião.

«A Guerra dos Tronos» é o primeiro volume desta saga de fantasia, que é considerada pela crítica a melhor fantasia dos últimos cinquenta anos. Caro visitante do blog que ainda não começou a ler a saga: As Crónicas de Gelo e Fogo, para mim, é a melhor fantasia desde sempre. Há livros que aconselho. «Aconselhar» é um verbo fraco para esta colecção. Há quem diga que não gosta de fantasia - este livro foge à regra da fantasia dita normal. Foge aos clichés da magia, dos elfos, da luta do bem contra o mal. Aliás, o que não falta pelo mundo da Internet são pessoas que afirmavam (e continuam a dizê-lo) não gostar de fantasia, mas que se renderam a George R. R. Martin.

O autor liga-nos às personagens excelentemente criadas. Liga-nos às intrigas. Liga-nos ao mundo, ao Norte e ao Sul, às casas mais ricas e às menos poderosas, faz-nos torcer por esta família numa dada altura, faz-nos adorar odiar uma dada pessoa. Deixa-nos o coração nas mãos com a violência. Eleva o leitor a um nível muito digno. É um prazer ler cada um dos capítulos ao longo destes oito volumes (e ainda se encontram por escrever mais uns!).

Caro visitante... ainda não te convenceste? De cabeça lembro-me agora de mais quatro razões que te podem levar a experimentar ler o primeiro. 1º: Carrega aqui para leres as críticas que já fizémos aos livros da saga aqui no Lydo. 2º: E aqui para leres gratuita e legalmente os primeiros capítulos do primeiro volume. 3º: A produtora de séries americana HBO aprovou há menos de uma semana a realização de uma série, de 7 temporadas, inspirada nesta saga (estreia prevista para a Primavera de 2011) - carrega aqui para acederes a um site dedicado à série, onde podes ver o elenco. E 4º: ...

Para o 4º motivo, e derradeiro que por agora apresento, peço a todos os leitores do Lydo que já tenham lido, ou se encontrem a ler, esta Saga, que apresentem na caixa de comentários o vosso testemunho. Se o caro visitante ainda não acreditou em mim, que veja os comentários de todos e faça a sua escolha. :) Quem ainda não começou a ler, não sabe o que está a perder. Mesmo!

Tiago

sábado, 6 de março de 2010

[Crónica] A Literatura Lusófona - Tiago

Para me debruçar sobre um tema como a importância que a literatura lusófona tem para os leitores portugueses, e a importância a nível mundial, comecei por debruçar-me no TOP 5 actual de ficção das livrarias Fnac, Bertrand e Wook. Na primeira não temos nenhum, e na segunda e na terceira temos apenas 1. Parece que os livros de língua portuguesa, pelo menos nestes últimos quinze dias, tiveram valores de venda baixos, em comparação com os de língua estrangeira. Em 2008 registei aqui no Lydo e Opinado, no princípio de Agosto, um TOP 5 da FNAC na altura, e acho que será interessante comparar: 3 livros de língua portuguesa.

Ora, e embora esta questão dos TOPS seja muito relativa, acho que esta quebra é significativa. É certo que de vez em quando temos um livro de José Rodrigues dos Santos, de José Saramago, e outros, que vende centenas de milhares de exemplares em poucas semanas. Mas a verdade é que, e isto do meu ponto de vista, parece que nos estamos a reduzir cada vez mais uma pequena elite de autores que vende muito, e existem muitos portugueses que caem no esquecimento e se refugiam em pequenos mercados de literatura. Nomeadamente novos talentos.

E a literatura lusófona no estrangeiro? Temos José Saramago, Miguel Sousa Tavares, José Rodrigues dos Santos, Mia Couto, Pepetela, Chico Buarque, e de certeza me escapam alguns nomes... mas pelo que vejo não tem grande destaque nos restantes países.

Acredito, no entanto, no reverso desta situação. Temos por um lado a colecção de livros da revista Visão, totalmente dedicada à literatura dos países de língua portuguesa; temos casos como o da Isabel Maia, do blog Na Companhia dos Livros, que se auto-propôs a só ler livros lusófonos neste ano de 2010; cada vez mais assisto em blogs de críticas literárias a uma atenção especial às novas revelações da língua portuguesa, e autores de toda a lusofonia; e a minha própria experiência, que comecei o ano com duas leituras de Mia Couto e Ondjaki, e descobri que a língua portuguesa em África tem uma beleza natural. E o livro de Inês Botelho «O Passado que Seremos», que na minha opinião aproveita ao máximo aquilo que a Língua Portuguesa pode dar.

Tiago
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Ganhem um exemplar do livro «O Passado que Seremos» participando no passatempo do Lydo e Opinado! Carreguem aqui, respondam às 3 simples perguntas, e habilitem-se!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Crítica - O Passado que Seremos

Título: O Passado que Seremos
Autora: Inês Botelho
Editora: Porto Editora
Nº de Páginas: 207
Preço Editor: 15,90€

Sinopse: Elisa e Alexandre conhecem-se num fim-de-semana no Caramulo. São ambos jovens, pertencem a círculos diferentes, vêem o mundo de perspectivas quase sempre opostas - e, no entanto, parecem incapazes de escapar à atracção que lentamente os envolve. Com avanços e recuos, iniciam então uma relação que não entendem e que questionam. Mas que os marcará para sempre.
Elisa tem medo da lua e de janelas sem cortinas. Pensa de mais e quer entender o mundo nas suas múltiplas facetas. Alexandre, pelo contrário, avança sem grandes reflexões, preocupado em aproveitar cada momento do presente antes que as responsabilidades o amarrem.
Romance de iniciação à idade adulta, O Passado Que Seremos dá-nos o(s) retrato(s) de uma geração e dos caminhos onde procura encontrar a "sua" verdade.

Conheço a língua portuguesa desde que nasci, leio-a desde os seis anos, mas parece que tive de esperar até aos dezasseis para a conhecer na sua mais verdadeira e profunda beleza. A ideia que de hoje somos o passado que um dia seremos é tão óbvia e ao mesmo tão tempo tão fatal, é a prova de que o tempo passa e não damos conta de que o faz. Inês Botelho, no entanto, não se fica por uma única linha de pensamento neste livro - divide-a em duas personagens principais, e progressivamente vai-a dividindo múltiplas vezes, mostrando mais e mais e mais.

Como se a história já não fosse bonita o suficiente, abrilhanta-a - e que bem o faz! - com uma linguagem poética e inspirada, em descrições que ultrapassam a conotação do mundo, dando-nos os pormenores que descobrimos virem a ser essenciais, oferecendo-nos os elementos nos quais nos deixa a pensar. Tornamo-nos Alexandre, tornamo-nos Elisa, somos os dois num só livro, vemos verdades e mentiras, vemos a evolução do tempo que corre, e que escreve o destino a caneta.

Somos levados à infância de Elisa nos seus capítulos, descobrimos aos poucos a história da menina que foi (o passado em que se tornou), narrações essas que nos levam a percebermos a pessoa que se tornou no presente. Os confrontos com a Lua. O papel da amizade na sua vida. As palavras com que se irrita, por se terem tornado banais: «amor», «traição», «inspiração». Banais não foram as palavras de Inês Botelho, essas esquivaram-se ao inimigo que é o Normal e o Seguro e correram mais além, cruzaram a fronteira e partiram em busca de uma nova forma de se expressarem.

E como se a linguagem e a expressão, por si próprias, já não me tivessem deixado abismado... é no fundo essa lição, de que o presente que somos será o passado que seremos, que me deixará agarrado a este por muito tempo, por um fio invísivel que tenho a sensação que nunca se irá desfazer. Parabéns, Inês. O livro é belo. Criaste e conseguiste duas pessoas - não personagens, pessoas! Que grande talento.

Personagens Preferidas: Elisa e Alexandre. Não me consigo decidir entre os dois.

Nota (0/10): 9 - Excelente

Tiago
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Se após esta opinião ficaste intrigado(a) com o livro, então o Lydo e Opinado tem uma grande oportunidade para ganhares um exemplar. Participa no passatempo que está a decorrer até Domingo, CARREGANDO AQUI! É fácil e não custa nada. Boa sorte!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Passatempo - O Passado que Seremos


Chegou o dia do passatempo! A Porto Editora disponiblizou amavelmente um exemplar do novo romance de Inês Botelho - O Passado que Seremos. Sem eles este passatempo seria impossível de se realizar, por isso um muito obrigado desde já à editora!

À semelhança do que aconteceu com o passatempo ao livro «Pergunta ao Pó», no mês passado, tu podes vir a ser o dono de um exemplar deste livro! Para isso basta responderes às perguntas do formulário abaixo (são muito fáceis). Podes encontrar as respostas carregando AQUI (é um post de Janeiro aqui do blog).

Os dados que forneceres (nome, moraad e email) serão privados, ninguém mais terá acesso a eles, por isso não tenham problemas em dá-los. Apenas o do vencedor será divulgado à editora para posterior envio. Só aceitamos uma participação por pessoa, e por residência.

O passatempo decorre até às 23:59h da noite de Domingo, dia 7 de Março. Até lá, participa e divulga! Entre os participantes que acertarem nas respostas, sorteamos o vencedor. Do que estás à espera? Participa!! Não tens nada a perder.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Entrevista Exclusiva a Inês Botelho!

Hoje, primeiro dia do mês de Março, é dia de nova entrevista exclusiva aqui no Lydo e Opinado, como já se tem tornado regular. A escritora que convidámos este mês é Inês Botelho - autora da trilogia do Ceptro de Aerzis, e dos livros «Prelúdio» e «O Passado que Seremos» (este último lançado há muito pouco tempo). A autora dispôs-se com simpatia a responder às questões, e aqui estão elas para todos os leitores do blog.

Muito obrigado Inês Botelho por esta oportunidade! Esperemos que gostem da entrevista.

1. Inês Botelho, decidiste começar a escrever «A Filha dos Mundos» nas férias entre o 10º e o 11º ano. Antes disso já tinhas tentado outros projectos em que acabavas por desistir, ou aquele foi mesmo o primeiro?
Aos 10 anos convenci-me que ia ser escritora e comecei várias histórias que depressa abandonava; nenhuma tinha uma estrutura ou um enredo que me cativassem. Aos 12 anos a ideia de ser escritora parecia-me absurda e durante alguns anos a minha relação com a escrita limitou-se ao estritamente necessário para a escola. Por fim, aos 15 anos, surgiu-me uma ideia que parecia interessante e potencialmente desafiante. Propus-me a concretizar finalmente um projecto deste género e comecei a desenvolver a história. Foi assim que nasceu a trilogia.
2. Conta-nos a experiência que foi escreveres «A Filha dos Mundos» durante o Verão de 2002 – tinhas ideias constantemente, precisavas de parar de vez em quando para reflectires na história…?
Tenho, desde o início, um processo de escrita dividido em três fases: investigação/preparação, escrita efectiva, revisão. Só ligo o computador para escrever quando considero que terminei a primeira fase. Isso permite-me construir bases de trabalho, conhecer bem as personagens e saber por onde quero levar a história; claro que não determino todo o enredo, mas estabeleço os pontos fulcrais. A história roda sempre no consciente e no subconsciente, as ideias aparecem frequentemente e todos os dias acrescentam-se ou retiram-se detalhes e pormenores. No entanto, como quando escrevo o essencial já está definido, não preciso de parar a tentar perceber a melhor forma de orientar o que vem a seguir. Além disso, a revisão é a altura ideal para limpar, brunir e aprimorar um texto.
No caso específico d' A Filha dos Mundos, lembro-me de correr para o computador a cada minuto livre e de escrever depressa, muito depressa, se calhar demasiado depressa. Foi uma experiência muito sôfrega e inocente, sem dúvida mais inconsciente e pura do que aconteceu com qualquer um dos outros livros.
3. Tens guardado o momento em que acabaste de escrever o teu primeiro livro? Descreve-nos a sensação, o que te passou pela cabeça nesse instante. Já não me lembro das palavras exactas, mas a ideia geral era: Consegui. Não fiques demasiado contente, não fiques demasiado contente... Um terço feito; agora vou levar isto até ao fim.
4. Decidiste de imediato que querias publicar? Como decorreu o processo até teres visto o teu livro na prateleira de uma livraria?
Talvez no fundo nunca tenha decidido publicar o livro; perante a insistência de outras pessoas, limitei-me a aceitar que enviassem para algumas editoras os exemplares necessários. Claro que me envolvi no processo: seleccionei as editoras que mais me interessavam, escrevi as cartas de apresentação, falei com os editores, mas não vivi a espera numa ânsia ou preocupação constantes. Uma resposta positiva seria uma alegria extra, mas não teria ficado magoada ou desanimada se tal não tivesse acontecido.
Creio que, depois de o livro ser aceite, entre revisão do texto, elaboração da capa, paginação e impressão, o processo de edição demorou cerca de meio ano. Foi interessante aprender esse lado da produção de um livro e confesso que, enquanto amante dos livros como objecto, gostei de segurar num com o meu nome; parecia tão irreal e estranho quanto maravilhoso.
5. Seguiram-se os outros dois volumes da trilogia «O Ceptro de Aerzis». A reacção do público a esta tua saga de fantasia foi a esperada?
Não, de modo algum; foi muito melhor do que algum dia fantasiei. Parti para a publicação sem qualquer tipo de expectativa, o que é sempre prudente, e portanto a aceitação que os livros tiveram, e têm, apanhou-me de surpresa. No fundo, talvez achasse que apenas os amigos e os conhecidos iriam ler a trilogia.
6. Dessas tuas três primeiras criações, qual foi aquela que te deu mais gozo escrever (não tem necessariamente de ser o mais evoluído tecnicamente)?
A Rainha das Terras da Luz, terceiro livro da trilogia. Como já me movimentava com mais à-vontade por entre os vários aspectos da escrita, soltei-me mais. Além disso, o terceiro livro tem um diálogo que adorei escrever.
7. Subitamente, mudas o estilo que tinhas usado até então, quando escreveste o «Prelúdio». Apeteceu-te inovar, distanciares-te do que te tinhas debruçado por três anos?
Por um lado sim, no entanto já tinha decidido escrever o Prelúdio a seguir à trilogia quando ainda trabalhava n' A Senhora da Noite e das Brumas. A verdade é que não me preocupo com rótulos ou categorias. O meu único critério é a potencialidade da ideia base; tem de me parecer desafiante e um bom ponto de partida para criar um livro com qualidade.
8. O teu novo romance – O Passado que Seremos – vem nos mesmos moldes do «Prelúdio»? Ou temos diferenças logo à partida entre os dois?
Ambos são romances contemporâneos, mas claro que têm diferenças de temática, abordagem, estrutura. O passado que seremos divide-se por dois protagonistas que narram sempre na primeira pessoa e que nitidamente pertencem a uma geração específica: a minha. Por outro lado, se no Prelúdio se verificava um certo negrume temperado por uma constante esperança, O passado que seremos é mais alegre, ainda que não menos assombrado.
9. A que tipo de leitores aconselharias vivamente a lerem «O Passado que Seremos»?
Só os clássicos e as grandes obras contemporâneas são leituras a recomendar com insistência. Contudo, acredito que quem estiver interessado em conhecer melhor a minha geração, em se converter em duas pessoas diferentes ou em se deixar envolver numa prosa algo melódica, não ficará desiludido com O passado que seremos.
10. Até agora só te aventuraste pelos caminhos da prosa… ou já experimentaste poesia e peças de teatro, sem intenções de publicar?
Quando escrevi poesia, ou melhor, quando escrevi em verso, foi apenas por obrigação. Não compreendo a técnica da poesia, não me movimento bem nesse campo. Prefiro deixar a poesia para quem a conhece e escreve muito melhor do que eu algum dia serei capaz.
A nível escolar, escrevi algumas peças de teatro e guiões para curtas-metragens. Profissionalmente ainda não desenvolvi nada nessas áreas, embora me agradasse explorá-las.
11. Quando escreves preferes silêncio, ou não dispensas música a tocar de fundo – como forma de inspiração?
A música é um excelente indutor de sensações e, às vezes, um grande desencadeador da corrente de palavras; pode revelar-se muito útil. Antes, nunca a dispensava. Agora demoro mais a ligá-la; só o faço quando tenho a certeza que entrei no ritmo e na melodia do texto e que não serei enganada ou demasiado condicionada pela música que ouvir.
12. Estabeleces metas numéricas em termos de escrita (por exemplo, x páginas por semana), ou deixas-te levar pela abundância da imaginação?
A abundância da imaginação é uma ilusão que certas pessoas gostam de propagar. Acontece, mas resulta mais de trabalho do que de inspiração. A escrita é uma actividade menos romântica do que se costuma assumir; o escritor não serve de tradutor de algum tipo de intervenção divina. Escrever um livro implica trabalho, investigação, estruturação, tentativas, erros, revisões, correcções, insistência, resolução de problemas. Por isso, tento cumprir um objectivo de x páginas por dia, embora isso às vezes se revele impossível; há sempre dias que correm pior.

13. Para as cenas que descreves nos teus livros… é mais frequente teres essas ideias inspirando-te em circunstâncias reais, ou surgirem-te do nada na mente? No que diz respeito à inspiração e aos raciocínios, nada vem do nada. Prefiro distanciar-me das circunstâncias que vivo ou observo directamente, no entanto, de modo mais ou menos perceptível, aquilo que construo tem por base o que experimentei, vi, observei, pensei, imaginei, interpretei.
14. Explorando agora o teu lado de leitora – lês muito? Que géneros, e autores, mais aprecias?
Adoro ler; sou completamente viciada em leitura e incapaz de ficar alguns dias seguidos sem ler. Além disso, não conheço nenhum escritor que não seja primeiro um leitor ávido; é fundamental.
Também aqui o género não me preocupa. Só a qualidade do livro interessa, a categoria é irrelevante. Gosto de muitos autores, mas ultimamente tendo a não me centrar demasiado neste ou naquele escritor; prefiro escolher por livro. Dos que li há pouco tempo, gostei muito de 1984 de George Orwell, Manhattan Transfer de John dos Passos, The Handmaid's Tale de Margaret Atwood, Lord of the Flies de William Golding, Ilium de Dan Simmons, o nosso reino de valter hugo mãe, Lisboa Triunfante de David Soares, O Anjo Ancorado de José Cardoso Pires, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino e A Sonata de Kreutzer de Lev Tolstói. Os contos de Flannery O'Connor revelaram-se outra excelente leitura; conseguiram superar as minhas altas expectativas.
15. Se te pedíssemos para fazeres um TOP 3 dos teus livros favoritos de sempre, quais escolherias?
Um TOP 3 é algo muito limitado e, no meu caso, consideravelmente mutável. Enfim, de momento e tentando abranger três categorias: Ilíada de Homero, O som e a fúria de William Faulkner e The Bloody Chamber de Angela Carter.
16. Qual é a tua opinião em relação aos e-books, que se têm expandido tanto no mercado ultimamente? Encontro-lhes aspectos positivos e negativos. Ninguém nega que são mais práticos de transportar (em termos de manuseamento parece-me que alguns aparelhos ainda terão de melhorar) e podem armazenar muita informação e até apontamentos. Por outro lado, adoro ver os livros na prateleira, gosto do espaço que ocupam e agrada-me sentir-lhes a lombada, começar a revirar a folha entre os dedos quando me faltam apenas algumas linhas para acabar a página. Pessoalmente, creio que usarei os e-books no caso de livros técnicos, mas nos de ficção prefiro os livros enquanto objecto físico tradicional e pesado.
17. Tens outros projectos em desenvolvimento, mesmo que ainda não tenham passado de uma ideia?
Em termos de projectos em fase de ideia, a lista é gigantesca. Alguns estão mais próximos da concretização, mas ainda é demasiado cedo para falar deles. Tudo a seu tempo.
18. Algumas das pessoas que irão ler esta entrevista serão, provavelmente, “aspirantes a escritores”. Que conselhos lhes dás, tanto ao nível do processo de escrita como da publicação?
As minhas verdades podem ser as mentiras de outros, contudo a auto-crítica parece-me extremamente importante, assim como não nos contentarmos com a primeira ideia que nos surja; por mais genial que ela pareça é essencial tentar fazer sempre melhor. Além disso, se encontrarmos algo que não nos parece tão bem, tem de se ignorar a preguiça e labutar até ficarmos satisfeitos. A escrita requer muito trabalho e todos somos livres de tentar, falhar e insistir, desde que dentro dos limites do razoável; a partir de certo ponto convém ser racional e começar a ponderar outras hipóteses.
Quanto à publicação, deve seleccionar-se editoras que publiquem o género do livro que se escreveu. Depois, preparem uma boa apresentação da obra, que possam enviar por carta ou que sirva como guião para uma conversa presencial, e armem-se de paciência e calma.
19. Obrigado pela entrevista! Queremos-te desejar muito sucesso para o futuro, como tens alcançado até agora. Uma última palavra para os teus leitores, e para os que terão ficado intrigados em ler algo teu…?
Aos leitores, um muito obrigada pelo apoio e incentivo. Aos curiosos digo apenas que experimentem e julguem por eles.

Espero que tenham gostado da entrevista tanto como nós. E, mesmo a propósito de uma entrevista a esta autora, os próximos dias aqui no Lydo e Opinado vão ser mais do que dedicados a ela. Além de dentro de muito em breve termos aqui a minha crítica ao livro «O Passado que Seremos»... a Porto Editora disponibilizou um exemplar para passatempo! Não percas, a partir de quarta-feira, dia 3.

A Equipa do Lydo e Opinado
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