quinta-feira, 1 de abril de 2010

Entrevista Exclusiva a Jorge Candeias!

Primeiro dia do mês significa entrevista exclusiva no Lydo e Opinado. Desta vez, a Jorge Candeias! Tradutor das obras de George R. R. Martin e de Robin Hobb (e ainda outros) para a língua portuguesa, autor de múltiplos contos, e no fundo um homem ligado à literatura. São 14 perguntas, com respostas extensas e muito interessantes, que irão pôr a pensar os leitores do blog. Esperemos que gostem.

1. Jorge Candeias, formou-se em Biologia Marinha e Pesqueira. Onde surge, perante este curso, a envolvência com a escrita a e a tradução? Desde muito cedo que tem um gosto por ambas as coisas?

O envolvimento com a escrita e a tradução não tem nada a ver com o curso. Eu sempre tive muitos interesses, desde pequeno. Muitos e bastante díspares, a tal ponto que para mim foi um sarilho dos diabos quando cheguei à altura de escolher um curso. Biologia não foi o primeiro em que entrei; comecei por ir estudar uma das minhas paixões para o estrangeiro: física… mas rapidamente cheguei à conclusão de que, embora gostasse imenso da parte conceptual da coisa, não tinha talento matemático suficiente para fazer vida dela. E de volta à estaca zero. De modo que voltei para Portugal e decidi experimentar a biologia marinha, também um velho bichinho. Esse foi até ao fim, mas aí chegado, e depois de passar dois anos metido num projeto de investigação pessimamente concebido e pior gerido, descobri que arranjar emprego na área era um sarilho quase insolúvel, a menos que quisesse ir bater com os costados nos Açores. Não queria, por vários motivos, a maioria familiares. E de volta à estaca zero, agora com um canudo no currículo.

Entretanto, desde a adolescência que escrevia. Às vezes razoavelmente. O suficiente para que, nuns jogos florais organizados na minha escola (e em que tive de ser quase obrigado a participar pelos meus pais), tenha arrecadado um primeiro prémio, um segundo e um terceiro. Com três textos a concurso, em duas categorias, poema e conto. Umas coisas muito teen, claro, mas pelos vistos deram para o gasto. Os contos já exploravam os mesmos territórios que continuo a explorar hoje: FC, fantástico, surrealismo, essas coisas. E continuei a escrever, embora exclusivamente para a gaveta e para a família, sem nenhuma vontade de publicar. Isso começou a mudar em 98, quando me comecei a envolver no pequeno mundo da FC portuguesa. Foi a partir dessa altura que comecei a publicar com alguma regularidade. Pouco depois fiz as minhas primeiras traduções, uns contos mais ou menos curtos para publicar no site da Simetria, e não me saí mal de todo. Mas tudo muito amador, sem qualquer perspetiva de vir a fazer vida disso.

A coisa mudou quando a Saída de Emergência apareceu e me incluiu no grupo de pessoas convidadas para traduzir uns contos do Conan. E eu traduzi-os o melhor que sabia, com o meu inglês em grande medida autodidata e o português que ia usando para escrever as minhas coisas. A editora gostou o suficiente para me passar para as mãos um romance histórico, A Cor do Céu, de James Runcie. De novo, fiz o melhor que pude, cheio de inseguranças e nos tempos livres daquilo que me ia dando na altura para ganhar a vida. Depois propuseram-me O Dilema de Shakespeare, do Harry Turtledove e eu, na altura desempregado e sem fazer a mínima ideia daquilo em que me estava a meter, disse que sim senhor. Foi quando consegui traduzir este livro sem que o resultado redundasse num completo desastre que pensei cá com os meus botões: “Espera lá, tu se calhar és gajo para ganhar a vida com isto.” E, realmente, desde essa altura que não faço mais nada. E aprendi que me fartei.


2. Por volta de que idade é que começou a ler com mais regularidade, e que livros mais o marcaram na sua infância/adolescência?

Eu já “lia” antes de ler. Os meus pais compraram-me aí pelos três anos uns livrinhos de capa dura muito ilustrados e com umas palavras a acompanhar, e eu chaguei-lhes o juízo sem descanso até que me ensinassem o que aquilo queria dizer. Quando cheguei à primária já trazia os rudimentos da leitura de casa, e depois nunca mais parei. Até aos 10-12 anos papei boa parte do Júlio Verne, os contos de Grimm e de Hans-Christian Andersen, a coleção quase completa dos Cinco, da Enyd Blyton e mais uma série de coisas. Ah, sim, e livros de divulgação científica com fartura, essencialmente álbuns ilustrados da Reader's Digest, sobre tudo e mais alguma coisa: fauna, flora, geografia, geologia, astronomia, etc. Depois descobri a ficção científica (que já conhecia do Júlio Verne, mas não sabia que era um género literário completo, com as suas regras próprias). A epifania deu-se com um livro detestado por muitos dos que o leram: A Nebulosa de Andrómeda, do Ivan Efrémov. Mas depois atirei-me à coleção de toda a gente da minha geração (e da geração anterior): a Argonauta. E nunca mais parei de ler FC, embora tenha deixado há muito de só ler FC.


3. Como ficção própria tem essencialmente contos. É um género literário que o fascina especialmente, ou simplesmente ainda não sentiu o ímpeto de escrever algo mais extenso?

Eu gosto muito de contos, é verdade. Sempre me atraiu aquilo que é possível fazer com o conto, desde que li coisas deliciosas como os Contos do Gin-Tonic, do Mário-Henrique Leiria, e várias coletâneas de vários autores anglófonos, em especial do Ray Bradbury. Há contos absolutamente maravilhosos por aí. É claro que também há romances magníficos, mas quando se pega num livro de contos não é muito comum que não se encontre algum que agrade, ao passo que quando um romance não agrada é todo o livro que desagrada. Ou seja: sinto mais segurança de que não vou perder completamente o meu tempo quando pego num livro de contos do que quando pego num romance.

De modo que é natural que quando me aparecem ideias literárias muitas delas sejam para contos. A maior parte não resultaria em romance.

Mas não é só por isso que escrevo contos. Comecei por escrever contos porque acho uma imprudência muito grande, uma enorme insensatez, que um candidato a escritor se atire logo aos romances (e das grandes sagas, como é costume ver-se na fantasia, nem falar) sem ter antes resolvido as armadilhas da escrita em extensões mais curtas. Sem ter essa tarimba, sem testar, em extensões que não exigem um grande investimento de tempo e esforço, a sua voz, o que resulta e o que não resulta. No fundo, eu encaro os meus contos como uma aprendizagem, acima de tudo. Uma escola. Algo que me informe sobre o que o talento que eu eventualmente tenha é capaz de produzir e como. Com os maus descobri o que não resulta para mim; com os bons (se há algum que o seja) o que resulta.

Mas já escrevi um romance. Começou por pretender ser mais um conto mas foi crescendo, crescendo, até que quando dei por ele tinha-se transformado num pequeno romance. Está publicado na net, em http://porvoslhemandareiembaixadores.blogspot.com/. Escrevi-o para me divertir, numa altura em que andava mesmo a precisar. E conseguiu, e ainda consegue. Mas eu tenho um sentido de humor a atirar para o bizarrote.

4. Entre as obras que traduziu, têm um claro destaque «As Crónicas de Gelo e Fogo» de George R. R. Martin. Como surgiu a oportunidade de traduzir estes livros? Já os conhecia de antes?

A oportunidade veio na sequência de traduções anteriores. Logo depois de acabar O Dilema de Shakespeare, o Luís Corte-Real, editor da Saída de Emergência, disse-me que andava de olho nessa série e que gostava que fosse eu a traduzi-la. Ainda houve um compasso de espera, durante o qual andei a traduzir Robert E. Howard, mas ele conseguiu fechar negócio para editar as Crónicas, e eu deitei mãos à obra. Ainda não conhecia a série. Na verdade, antes de conhecer os livros do Martin torcia fortemente o nariz às grandes séries de fantasia épica. Aquilo que tinha lido, que não era muito mas era alguma coisinha, parecia-me muita parra e muito pouca uva. Um género limitado, com alguma falta de imaginação e muito preso às convenções da cavalaria, dos magos e feiticeiros, do simplismo da dicotomia bem/mal. Pensava que bastava ler Tolkien e estaria tudo lido, de modo que não tinha nenhum interesse por pegar neste tipo de série. E continuo a pensar que, muitas vezes, as coisas são mesmo assim. Mas o Martin ensinou-me que nem sempre.

5. Qual é a sua opinião em relação à escrita de Martin? E é particularmente complicada de traduzir, ou já teve em mão trabalhos mais desafiantes?

A minha opinião em relação à escrita de Martin é a mesma de toda a gente, suponho. O homem escreve muitíssimo bem. Tem uma capacidade notável para prender o leitor à história e, acima de tudo, às personagens. Várias das personagens das Crónicas são autênticos golpes de génio, e a escrita serve a história duma forma praticamente perfeita. Não são todos, mas há capítulos naqueles livros que são da melhor literatura que eu li na última década. E sim, eu disse mesmo literatura.

Quanto à complicação da tradução, não é nada complicado. Para mim, traduzir Martin é um prazer: a coisa flui com toda a naturalidade. Eu explico esse curioso fenómeno assim: um tradutor é um reescritor. O que isto quer dizer é que, embora todos nós (pelo menos aqueles que tentamos fazer bom trabalho) façamos os possíveis para respeitar o estilo do autor original, todos nós temos também o nosso próprio estilo. Uma tradução, por mais fiel que seja, acaba sempre por ser uma fusão dos estilos do tradutor e do escritor. É por isso que não há duas traduções iguais: não há dois tradutores iguais. E o meu estilo adapta-se muito bem ao do Martin. Ou vice-versa, não sei bem. Não há luta; a coisa encaixa naturalmente. Consequência: todos os outros trabalhos de tradução que me passaram pelas mãos deram mais luta, ou seja, todos eles acabaram por ser mais complicados para mim.

Mas o mais complicado de todos foi O Dilema de Shakespeare. Acho que dificilmente traduzirei algo mais complicado do que esse livro. Deu-me muito gozo, tanto a tradução propriamente dita como o simples facto de estar a conseguir fazê-la. Mas ao mesmo tempo foi simplesmente infernal. Quem já leu o livro provavelmente entenderá porquê. Quem não o leu, aqui ficam algumas dicas: dezenas e dezenas de trocadilhos; trechos em inglês isabelino (i.e., o inglês dos tempos do Shakespeare), poemas com fartura, alguns com rima e com métrica... querem mais? O facto de não ter destruído esse livro é provavelmente aquilo de que mais me orgulho na minha carreira.


6. Existem certos dilemas com que um tradutor tem de se confrontar quando decide começar a traduzir uma obra: nomeadamente os conceitos, nomes de personagens, de locais… não é assim?

Depende do que está a traduzir. Há livros em que isso é importante e convém ser decidido de antemão, noutros não tem importância nenhuma. Entre os que eu traduzi, isso teve importância nos do Martin e nos da Hobb, mas não a teve nenhuma no do Turtledove e no do Runcie. Por exemplo. Mas mesmo quando conceitos e nomes não têm importância, todas as traduções são feitas de dilemas. As interrogações mais comuns na cabeça dos tradutores são: “que raio quer isto dizer?” e “como vou eu traduzir isto?” Uma tradução é uma longa sucessão de dilemas deste género desde que se começa a ler o original até que se acaba de rever a tradução.

Pelo menos é o que me diz a minha experiência pessoal. Pode ser que para outros tradutores as coisas sejam diferentes. Mas não creio.


7. Entre tudo aquilo que traduziu até hoje, existe alguma obra que lhe dado mais prazer do que as outras durante o processo?

Quase todas me deram algum tipo de prazer. Descobri ao longo destes anos que gosto mesmo do que faço. Espero que se note. Mas pontos altos, suponho, há três: O Dilema de Shakespeare pelo que já ficou explicado acima, as Crónicas do Martin pela fluidez com que o trabalho se processou (e também, não há que negá-lo, porque o nome que eu possa ter hoje como tradutor foi ganho aí), e A Criança Roubada do Keith Donohue por ter gostado muito do livro.


8. Para os leitores terem uma ideia, com que ritmo é que traduz um capítulo: uma semana, mais, menos, ou varia muito?

Varia muito. Varia, desde logo, porque o tamanho dos capítulos é variável. Também varia porque a minha velocidade a traduzir escritores diferentes também varia bastante. Por exemplo: sou rápido com o Martin mas bastante lento com a Hobb. E também varia consoante o prazo que tenho para concluir o trabalho: alguns dão-me tempo para descontrações (embora isso não tenha sido frequente), outros bem longe disso. Mas acho que nunca levei uma semana às voltas com um capítulo. O máximo terá sido uns quatro dias. E já tenho despachado outros em três ou quatro horas de trabalho.


9. Que autores lhe daria muito gosto de poder traduzir para a nossa língua, e que até agora não tenham sido editados em território nacional?

Autores inéditos? Hm… Gostava de ter oportunidade de traduzir a trilogia de Marte do Kim Stanley Robinson, por exemplo. Gostava de traduzir Greg Egan (embora tenha a impressão de que seria uma bela duma dor de cabeça). Gostava de traduzir Ian McDonald, que tem umas novelas de FC absolutamente espantosas. Novelas mesmo, não confundir com romances. E mais uma série de gente, da FC mais contemporânea que, ao contrário da fantasia, tem sido muito maltratada pelo público português neste início do século XX. Edita-se pouca e a pouca que se edita pouco vende. Comparativamente, pelo menos. Gostava muito, por exemplo, que o mercado português aceitasse bem a publicação das antologias de melhores do ano (sejam quais forem; as do Dozois, as do Hartwell, as Nebula Awards Showcase, seria ótimo ver qualquer uma em português) e alguém mas desse para traduzir. Há uma série de autores muitíssimo bons por aí, mas poucos são os que lhes pegam. E tenho pena.


10. Entramos aqui mais numa vertente mais de leitor: como pude confirmar pelo seu blog A Lâmpada Mágica, lê bastante! Seria possível fazer um apanhado das obras que mais gostou de ler em toda a sua vida?

Infelizmente, não leio tanto como gostaria (e como li noutras fases da vida). A pilha de livros para ler é imensa. A pilha, digo eu? As pilhas! No ano passado fiquei-me por 25 livros. Não é nada: houve fases em que li entre 50 e uns 80 por ano. Este ano vai melhor do que o ano passado, mas ainda anda a atirar para o fracote: até agora estão lidos 10.

Mas para apanhados estamos mal. Eu já li largas centenas de livros ao longo da vida. Acho mesmo que não me engano muito se disser que já me passaram mais de mil pelos olhos. Olhando para a coleção de livros de FC que tenho na estante aqui por cima, todos lidos, alguns mais do que uma vez, sim, é capaz de andar por aí. Se não foram mais de mil, anda lá perto. Portanto não dá mesmo para saber de que obras gostei mais no meio de toda esta fartura. Mas posso fazer um apanhado diferente: o das que foram mais marcantes para o leitor que sou. Pode ser? Então vamos lá.

Já falei do livro que me fisgou para a FC, A Nebulosa de Andrómeda. Também já falei daquele que me ensinou que nem toda a fantasia em série é mais ou menos clonada de Tolkien, A Game of Thrones, do Martin (embora o grande livro do Martin seja, claro, A Storm of Swords). Depois há Os Caminhos Nunca Acabam, do João Aniceto, livro que me mostrou, para minha surpresa, que também havia FC escrita por portugueses. E o livro nem é grande coisa. Há as Vinte Mil Léguas Submarinas, livro que me introduziu (se bem me lembro) ao Júlio Verne, o meu primeiro autor preferido. Há os Esteiros, do Soeiro Pereira Gomes, o único livro de leitura obrigatória da escola que realmente li, e que me ensinou, numa época em que só lia FC, que também havia boas coisas fora da FC. Há o Memorial do Convento, que me mostrou que havia um autor do caraças chamado José Saramago. E outros livros que me introduziram (ou abriram os olhos para) autores do caraças: Os Despojados, da Ursula Le Guin, O Homem Demolido, do Alfred Bester, A Torre de Vidro (ou terá sido O Labirinto? Não me lembro), do Robert Silverberg. Que Difícil é ser Deus!, dos irmãos Strugatsky, Solaris, do Stanislaw Lem, Memória de Elefante, do António Lobo Antunes (de que entretanto me fartei por completo), O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, do João Barreiros. E vários eteceteras. A lista é vasta. E está sempre a crescer. Essa é uma das melhores coisas que a literatura tem.

11. Criou há relativamente pouco tempo o projecto Bibliowiki. Qual foi o objectivo e os motivos que o levaram a construir a base de dados?

Não há tão pouco tempo como possa parecer. Aquilo que hoje está na rede descende de um outro site mais antigo, criado já vai para dez anos. O objetivo inicial foi fazer uma lista da FC que eu tinha em casa na época. Depois achei que talvez tivesse interesse público que se disponibilizasse na net uma bibliografia da FC produzida por portugueses, de modo que peguei na parte portuguesa daquilo que eu tinha em casa, fiz um site com ela e pus-me a acrescentar material. Depois achei que, já que estava com a mão na massa, podia perfeitamente ampliar a coisa por forma a abranger a FC que foi editada em Portugal. Aos poucos fui acrescentando também outras coisas de outros géneros fantásticos, não só de FC. Depois, o site esteve parado durante vários anos por se ter esgotado a rudimentar plataforma tecnológica em que assentava (e porque eu andava demasiado ocupado com outras coisas também, claro, o que voltou a acontecer agora). Depois descobri a wikipédia, ajudei a pôr em andamento a wikipédia em português, e levei uns tempos a pensar se um sistema de wiki não seria bom para voltar a pegar nesse projeto. Acabei por decidir que sim e, pimba, implementei-o. E depois comecei a incluir também material brasileiro.

Ou seja, o motivo foi achar que algo assim fazia falta e seria útil. O objetivo foi evoluindo ao longo dos anos. Mas o tempo é escasso, especialmente agora que tenho a família com problemas. Não dá para tudo, e o Bibliowiki tem sido, nos últimos meses, o elo mais fraco. Mas tenho pena. Se ganhasse o euromilhões, contratava alguém para trabalhar nele a tempo inteiro. Não há é meio disso acontecer.


12. No mês de Março demos destaque no Lydo e Opinado ao panorama da literatura lusófona, tanto em Portugal como no Estrangeiro. Considera que existem alguns preconceitos nos portugueses em relação aos livros nacionais e escritos na nossa língua?

Sim.

Ah, querem que diga mais coisas?

Pronto, então digo. Todos os leitores têm preconceitos. Muitos são baseados em más experiências passadas, o que em si mesmo não é preconceito, mas sempre que se generaliza uma má experiência para toda uma série de obras, já é. E toda a gente faz isso. Há preconceitos contra o mainstream, contra a fantasia, a ficção científica ou o fantástico, contra o policial ou os livros de auto-ajuda. Há preconceitos contra a literatura portuguesa, contra as traduções, contra a FC francesa, contra livros que não sejam americanos, contra edições de autor, contra livros americanos, contra livros do autor X ou Y, contra livros de contos, contra longas séries de romances., enfim, contra tudo e mais alguma coisa. Nisto, o mais ridículo é quando alguém diz “eu não tenho preconceitos”. É treta. Sempre. Basta que a pessoa tenha autores, géneros, seja o que for, que se recusa a comprar, ou que sejam sistematicamente preteridos a favor de outros, para ter preconceitos.

A mim nunca apanharão de livro de autoajuda na mão, por exemplo. Nem com romances cor-de-rosa, aquilo a que alguns dos meus amigos chamam, cheios de piada (ou não) “literatura para gajas”. É preconceito? Com certeza que sim. Se calhar até há livros desses que sejam bons. No fundo, eu não acredito que haja (lá está: o preconceito), mas quem sabe?

De igual forma, há preconceitos em relação a livros em português. Há portugueses que se recusam a ler em português. Justificam-se com as traduções serem más, como se fossem todas, e com o preço dos livros, no que até têm razão, mas o fundamental é mesmo o preconceito. Há preconceitos contra a literatura portuguesa, justificados por “os portugueses não saberem contar histórias”, como se nenhum soubesse, como se os livros fossem todos maus, como se não fosse publicada por cá também muita porcaria traduzida do inglês. Mas isto não teria qualquer importância se a soma de todos estes preconceitos individuais se anulasse. Isto é, se por cada leitor que tivesse preconceito contra livros portugueses houvesse outro com um preconceito igual de sinal oposto. Infelizmente, não é isso que acontece.

Depois há uma característica particularmente pateta em Portugal, que está longe de se resumir à literatura fantástica, ou até à literatura: a mania de que só pode haver um. À Highlander. Só pode haver um cómico no país, de modo que em tempos foi o Raul Solnado e ninguém ligava a mais ninguém, depois passou a ser o Herman, e todos os outros, Solnado incluído, foram esquecidos, e assim sucessivamente. Só pode haver um grande escritor, e metade do país diz que é o Saramago, a outra metade o Lobo Antunes, e os outros que se lixem. Só pode haver um grande escritor de literatura fantástica em Portugal, e é o Barreiros, de modo que o pobre do Luís Filipe Silva lá tem de se contentar com a sombra, e do Tércio e de todos os outros ninguém fala. Ou agora, que o Barreiros anda meio sumido, é o David Soares, e mais ninguém interessa.

Este fenómeno é particularmente idiota. Porque os outros também contam, e às vezes até se saem com coisas melhores do que as que faz o Highlander de turno. Mesmo quando ele é, de facto, melhor que os outros, o que nem sempre acontece.

Mas, por outro lado, a conversa do preconceito é com demasiada frequência usada para disfarçar incompetências e insuficiências várias. Ele existe, é verdade, mas não é tão grande como por vezes se quer fazer crer. E isto tanto se aplica ao escritor português, como à edição portuguesa, como à tradução, como a géneros inteiros como a fantasia ou a ficção científica, etc., etc. Tal como o preconceito, também é geral. É mais fácil culpar o mau gosto ou preconceito alheios do que fazer uma introspeção e perceber onde estão as nossas falhas. A velha instituição que é sacudir a água do capote. É mais fácil, mas muito menos produtiva.


13. Põe-se também a questão do trabalho de um tradutor ter pouco destaque, e raramente se assiste a críticas que valorizem o trabalho deste, limitando-se a falar do autor. Qual é a sua opinião em relação a esta “subvalorização”?

É negativa, claro. E não o é por eu ganhar a vida como tradutor: já quando nem sonhava em fazê-lo e escrevia as minhas críticas para o E-nigma fazia questão de mencionar a tradução sempre que o livro era traduzido. Porque sempre estive consciente de algo que parece passar despercebido à maior parte das pessoas: aquilo que nós lemos numa tradução não é o texto produzido pelo escritor, mas sim a interpretação que dele faz um tradutor. Se o tradutor fizer um bom trabalho, essa interpretação é fiável, mas se não fizer, não é. Muito antes de me tornar tradutor, o nome de quem traduziu certos livros influiu várias vezes na minha decisão de os comprar ou de os deixar na prateleira da livraria. E isso não se alterou quando abracei a profissão (ou a profissão me abraçou a mim; se calhar foi mais isso). Quando muito ganhei uma consciência mais aguda da dificuldade que a tarefa muitas vezes comporta, e por consequência uma maior tolerância com certas falhas.

Em todo o caso, parece-me que as coisas vão melhorando um pouco. De vez em quando vejo em críticas a livros que me passaram pelas mãos referências ao meu trabalho, e não só para referir algo de errado, como era hábito aqui há uns tempos, mas também para elogiar quando o opinador acha que é caso disso. O mesmo para alguns colegas meus. Até esta entrevista é sinal dessa melhoria. Era quase impensável, aqui há alguns anos, entrevistar-se tradutores, em especial tradutores ativos essencialmente na literatura fantástica, como eu. Isso deixa-me contente. Mas ainda há espaço para melhorias: há tempos, um blogue literário resolveu fazer uma eleição dos melhores do ano em tudo e mais alguma coisa. Até os booktrailors incluiu. O que foi que deixou de fora? Exatamente: os tradutores. É só um exemplo.


14. Está a trabalhar actualmente em alguma obra? E projectos na ideia para avançar num futuro próximo?...

Minha? Sim, estou a escrever um romance. Os condicionalismos de tempo de que falo acima também têm tido impacto sobre ele: gostava de ir já muito mais adiantado, mas ainda só tenho cerca de um sexto escrito. A prioridade, como é natural, é aquele trabalho que tem prazos a cumprir. E pagamento certo. Obrigado a ter até Maio cerca de 600 páginas prontas, não disponho de muito tempo para outras coisas. Mas de vez em quando lá consigo dar-lhe mais umas achegas. É muito diferente do primeiro. Muito mesmo. O primeiro era uma sátira apatetada, este de sátira tem pouco ou nada.

E outros projetos tenho sempre. Pode ser que algum se concretize, quem sabe, mas não faço ideia de quando. Até porque alguns, nesta fase, estão mais dependentes de outras pessoas do que de mim. Uma antologia brasileira em que, em princípio, terei uma pequena novela, por exemplo. A minha parte (escrever a novela) está feita. Quanto ao resto, é aguardar.

Então? Gostaram tanto da entrevista como nós? O vosso comentário é importante. Obrigado por visitarem o Lydo, e desde já muito obrigado ao Jorge Candeias por se ter disponibilizado a responder às perguntas! Não percam, a partir de Sábado, o passatempo «A Guerra dos Tronos». Ganha um exemplar do primeiro volume das Crónicas de Gelo e Fogo, traduzidas, aliás, pelo tradutor aqui entrevistado!

A Equipa do Lydo e Opinado

7 comentários:

Canochinha disse...

Parabéns pela entrevista, pelas perguntas mas especialmente pelas respostas bastante interessantes.

Como tradutor, não tenho nada a apontar aqui ao nosso amigo Candeias, pelo contrário :) Aqui há uns tempos, praticamente não dava importância à tradução, mas felizmente o contacto com o Candeias e com outros tradutores abriu-me os olhos para a importância do seu trabalho e a perceber que uma boa tradução vale ouro.

PS: Boa sorte para os poemas, hehe :D

Leto of the Crows disse...

Gostei imenso da entrevista. Foi muito interessante ler cada uma das respostas. E... também não tenho nada a apontar às traduções do senhor ^^

Ana C. Nunes disse...

Gostei muito de ler esta entrevista, porque é como o Jorge Candeias diz, é mesmo muito raro ver-se entrevistas do género a tradutores (e escritores no caso), e confesso que sou daquelas que não dá o devido valor aos tradutores, ou seja, reconheço-lhes o valor e o esforço, mas por exemplo, nas minhas opiniões literárias, falho em mencionar o trabalho destes. Uma lacuna que pretendo vir a remediar.

Sássára disse...

Okay, a primeira coisa em que reparei: ele é "muita bacano" a responder xD Gostei do facto de não usar linguagem demasiado formal, visto que nós não somos nenhum noticiário ou assim.

A outra coisa em que reparei foi o conselho que ele deu em relação ao facto de se começar a escrever contos. Ao que eu acho que ele tem toda a razão! E depois acabei por olhar para mim e pensar «Olha que giro, eu também escrevo contos e não sabia!» Sim, porque eu jamais pensei em chamar-Lhes contos.

E terceiro foi o facto de ele já usar o Novo Acordo Ortográfico. Como bom tradutor que é, mesmo que não esteja de acordo com ele, é obrigado a usar.

Adorei a entrevista e não houve um único momento em que me sentisse entediada ^^

Boas leituras!

Jojo disse...

Mais uma excelente entrevista!Perguntas muito bem formuladas e respostas interessantíssimas!
Gostei de "conhecer" o senhor que traduz uma das melhores sagas qu já li.

t i a g o disse...

Obrigado a todos pelos comentários, pois dão-nos força para continuarmos a entrevistar pessoas ligadas directamente aos livros!

Jacqueline' disse...

Só agora consegui ler a entrevista toda e devo dizer que gostei bastante :)

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