sábado, 1 de maio de 2010

Entrevista Exclusiva a Pedro Sena-Lino!


Dia 1 de Maio pode ser o dia do trabalhador na sociedade civil, mas aqui pelo Lydo e Opinado o que realmente festejamos é a entrevista exclusiva a Pedro Sena-Lino! Formador de escrita criativa, ensaísta e romancista, o autor disponibilizou-se a responder às perguntas que lhe propusemos. Temos vindo a aprender que, cada entrevista que realizamos, recebemos estilos de resposta muito diferentes, mesmo na própria forma de escrever dos entrevistados... esta encantou-nos pelo recheio de metáforas e elementos criativos e estílisticos que a povoam.

Pedro, desde que idade vem a paixão pela escrita? Começou a escrever histórias logo em criança?
Acredito que a escrita não é uma opção - mas que é a escrita que se escreve na vida e no destino de cada um. Cada pessoa deveria escrever, para si mesma, antes de qualquer outra coisa, como espelho permanente e reconfigurador. Foi isso que comecei a escrever, a notar o meu interior, a fixar o meu imaginário, desde pequeno. A primeira coisa longa que escrevi, para além dos habituais poemas de amor borbulhentos, foi uma História de um continente imaginado, que durou durante dois séculos. Tinha treze, catorze anos, e a vida já me doía mais que o corpo a crescer.

As profissões com que sonhava ser, em criança, aproximavam-se já da área que acabou por optar?
Nunca sonhei ser nada. Penso que cresci sempre em tensão entre o hoje e o nunca. Não estou a ser literário. Mas percebi, depois de muitos livros, música, terapia, cigarros e paixões, que cresci sempre com um pé no mundo e outro não sei bem onde. Por isso talvez nunca tenha realmente querido ser nada. Mais tarde quis ser muitas coisas, mas a infância e a adolescência são tempos incumpridos e lineares dentro do próprio corpo. A esta hora, quando respondo a esta entrevista, tenho 19 anos.

O Pedro é professor de cursos de escrita criativa. Existe, digamos, uma certa separação entre as aulas que dá e a própria aplicação pessoal enquanto escritor?
Absolutamente não, lateralmente sim: nas aulas eu procuro ser como o narrador ideal, que não existe, mas é a ponte entre as personagens e o leitor. Estou lá, sabem que eu existo, mas procuro ser uma espécie de maestro, a suscitar em cada um a voz que interpreta a sua própria pauta a ser inventada. Quando apareço como escritor, é apenas para dar exemplos vividos, para mais uma vez ser útil na própria experiência.

Por outro lado, o processo que procuro desencadear no curso, através de objectivos e ferramentas teórico-práticas precisas, é naturalmente o resultado de processos pessoais.

Mas a união das duas respostas está na certeza de que nenhuma frase ou verso são vivos se não significarem um percurso pessoal interior de quem os escreveu.

Tem uma rotina regular de escrita (horários…), ou só o faz quando tem tempo/lhe apetece?
Escrevo todos os dias, sempre para mim: o mundo é imenso, nos dois braços que tem, o visível e invisível, e eu sou um “bicho da terra tão pequeno”: preciso de escrever encontrando o meu caminho no mundo. Mas os projectos em si é que me convocam. Vivo dentro deles, mais dando o que tenho do que fisicamente escrevendo, dando-lhes espaços no cérebro, na alma, até no corpo todo. Quando surgem, são torrenciais. Quando a poesia chama, procuro ouvir; quando a arquitectura da cidade de um romance surge, como não sei desenhar, vou visitar outras cidades, para aprender a fazer os edificíos que me convoca.

Gosta de ouvir música ambiente ou enquanto escreve, ou prefere o silêncio?
Os meus pulmões da alma são música (os do corpo, cigarros). Cada projecto escolhe a sua banda sonora. Mas eu realmente vivo dentro de algumas sinfonias, ou concertos, ou sonatas, e isso é altamente desagradável quando se ouve ao vivo, porque saio da sala de espectáculos absolutamente nu, e o que me vale é a profusão de casacos de pele para me tapar.

333. Quem não conheça a obra talvez possa ficar intrigado com este número no título… consegue lembrar-se de onde surgiu a ideia para a criação do romance?
333: sobre a pergunta anterior, ainda, foi totalmente escrito na Sonata para Piano de Liszt, por Ivo Pogorelich. Um quadro na Gemaldegalerie de Berlim fez o resto. Surgiu quando imaginei aquele livro e o seu número de edições, e visualizei três triângulos ligados, movendo-se imparavelmente uns para dentro dos outros. Uma espécie de threesome místico, como o da Trindade: mas isso Bento XVI não nos deixa dizer.

Como leitor, o que o levaria a comprar o seu próprio romance?
«Como é que este gajo, desta tralha místico-gasosa, vai fazer surgir um romance interessante que fira em tantos pontos?»

Gosta de procurar críticas às suas obras na imprensa, em blogs? Se sim, acha que a recepção ao 333 foi positiva?
Nunca me interessou, na verdade. O que me interessa é a reacção de cada pessoa: por isso, quando encontro leitores, peço sempre que me digam o pior e o melhor. A obra de arte é para servir, e para servir tem de ser sempre refeita. Os seres humanos estão sempre a ser recriados, pela vida, pelo contacto uns com os outros: a obra de arte, como ser vivo, implica-o e pede-o.

Como crítico que fui (mais do que hoje) e sou (menos que ontem), sei que a crítica pode iluminar contextos da obra e portas de saída múltiplas. Isso o que me interessou fazer como crítico, os grandes umbrais das obras: onde se firmaram, para onde levam. Tudo o que estiver fora disso, como leitor, interessa-me como folclore.

Enquanto leitor, quais as suas obras preferidas, ou as que mais o marcaram?
Que espaço tenho no blogue?

O que me marcou tirou-me as escamas dos olhos, como São Paulo a caminho de Damasco. Tantas coisas, muitas que fazem tão parte de mim que não me lembro. Mas muita poesia portuguesa e francesa, Thomas Mann e Rainer Maria Rilke, muitas obras de História e de espiritualidade, a areia da praia depois de todas as viagens da alma, os olhos do amor.

Todos os bons escritores têm de ser, em primeiro lugar, bons leitores. Consegue explicar porque é que esta afirmação é verdade? Ou será possível, por exemplo, existir um bom escritor que não leia?
Se a escrita escolhe, é possível escolher quem não leia. Mas em certo momento, a serpente santa da leitura morde sempre o autor. Lemos porque há outros planetas, que influem no nosso corpo como certezas mais físicas e antigas do que a sua própria existência.

Nas próximas perguntas queríamos explorar um pouco mais essa arte que é a Escrita Criativa: essa área lida só com o desenvolvimento e surgimento das ideias em si, ou também entra nos domínios da técnica literária?
No meu curso, dado na Companhia do Eu, planificado depois de pesquisa, prática e trabalho a partir dos cursos dados há dezenas de anos nos EUA, procuro sempre uma componente teórica (o chão técnico do trabalho) e prática (divertida, recriativa, questionadora). Recriar-se e recrear-se. Quem não se (re)escrever, não chega a lado nenhum.

Qual é a diferença, se é que a há, entre um autor que tenha frequentado aulas de escrita criativa, e um que não tenha?
Na prática, zero. Mas zero à direita de um é dez. Mais do que técnicas, estímulos, objectivos, resultados, que são torrenciais se a pessoa for generosa consigo mesma, é a resolução de dois dos maiores problemas da literatura portuguesa: um sebastianismo umbiguista, em que cada autor com reconhecimento se acha a «última bolacinha do pacote», como diz uma amiga brasileira, e vive de costas voltadas para os outros e refugiado no grande planeta oco do seu génio; e a falta de uma comunidade viva e partilhante, falta de cultura de corte, resultado do rectângulo obeso que é Portugal: aqui, nos cursos da Companhia do Eu, escreve-se com outros, ouvem-se os outros, aprende-se com os outros e se sobe escrevendo levando os outros atrás. Quem não fez isso, encontrou uma grande porta à saída, ou já várias vezes a mostrei.

Uma pergunta talvez difícil, mas sendo o Pedro formador da área… de onde vem a criatividade?
É um processo puramente cerebral, e por isso, absolutamente misterioso, ainda. Mas pode ser estimulada em pura ginástica cerebral entre dois hemisférios, e quebrando associações habituais. É por isso que as paredes da Companhia do Eu estão a ser estudadas por neurologistas e cientistas atómicos.

Um dos temas que vamos dar destaque no blog este mês é o contacto entre autores e leitores a que se assiste nestes dias nomeadamente através de tertúlias literárias, ou em redes sociais na internet. Essa relação é favorável, ou ambos os lados ficam a ganhar com um certo distanciamento?
Depende, se quiser conhecer o seu funcionário das finanças ou o seu homem do lixo. Ser escritor é uma missão e uma profissão, ponto. Estamos a servir os processos absolutos de quem lê. A utilidade desses contactos é essa. E depois sempre senti, sempre soube, que cada escritor não é, está.

Tem projectos na manga para um futuro próximo? Mais livros de Escrita Criativa, um novo romance…?
Tenho projectos para ambas as coisas, mas são ambos puramente adultéricos: agora estou num doutoramento tórrido com uma escritora do século XVII, e dedicar-me a isso totalmente é como uma facada nesta espécie de matrimónio. Mas como acredito que interessa resgatar o substrato celta da nossa cultura, em que a fidelidade era bem diferente, talvez aconteça alguma coisa ainda este ano.

E pronto, cá está! Esperamos que a entrevista tenha sido do agrado dos nosso leitores... ao Pedro, desde já, o nosso sincero agradecimento pela sua disponibilidade - e o desejo de muito sucesso na área a que se dedica com tanto gosto! Quanto a todos os que apreciaram a entrevista, talvez estejam muito provavelmente interessados no passatempo que o Lydo trará na segunda-feira... o livro 333, do autor entrevistado!

A Equipa do Blog

2 comentários:

Sássára disse...

Algumas das respostas dele fizeram-me arrepios... Que bonito!

p a t r í c i a * disse...

Tantas metáforas!

No Domingo quero ir à aula de escrita criativa, na feira do livro!

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