quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Crítica - Um Homem: Klaus Klump


Título: Um Homem: Klaus Klump
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: CAMINHO
Nº de Páginas: 137
Preço Editor: 10,60€

Sinopse: Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.


Quero começar por sublinhar o que penso já ter dito alguma vez: embora não saiba bem o porquê, Gonçalo M. Tavares e os seus livros levam-me a estados de entusiasmo elevados, e deixam-me mergulhado numa sensação que não sei classificar. E que se traduz numa expressão que não sei expressar. Precisava de deixar isto bem claro; porque, quer as palavras que escreva sobre Um Homem: Klaus Klump sejam boas ou quer sejam más, este livro, como outros de Tavares, é Grande (no seu tamanho reduzido de 140 páginas).

Um livro que tem início num cenário que não identificamos logo. Começam por nos introduzir duas personagens, e nós, num curto espaço de tempo, passamos a conhecê-las. Mas a Guerra chegou. E qualquer que tenha sido a razão da sua vinda não interessa. A Guerra chegou, e mete o leitor dentro de um saco escuro, dá um laço forte na ponta, e eis que estamos aprisionados num universo cru, mau, repelente, o qual queremos compreender de forma palpável. Sem sucesso. Gonçalo M. Tavares leva-nos a passear por corredores frios e escuros, nos confins da lógica e no limite da consciência, apresentando-nos verdades facilmente constatáveis. Se é matemática, filosofia, ou uma mistura das duas? Não sei. É, isso sem dúvida, um arriscar buscar novos conceitos do mundo.

O livro tem dois planos, que muitas vezes se entrelaçam numa mesma página: o das ideias, e o dos acontecimentos. O primeiro é difícil na sua complexidade, o segundo é difícil pela sua objectividade. No mundo dos pensamentos são-nos apresentadas teorias arrepiantes, obrigam-nos a meter a mão na lama e a vasculhar o que nela se esconde; no mundo dos acontecimentos matam-se pessoas sem muita ponderação, e tratam-se outras abaixo de cão (cão este que, como animal, é usado muitas vezes nos exemplos desta obra).

A escrita de Gonçalo M. Tavares é negra neste que foi o primeiro romance que li dele (tenho dificuldade em classificar Uma Viagem à Índia). É, também, bastante característica. Detecto elementos que começo a notar que são típicos seus - o grande destaque que ele dá ao nome das suas personagens, e o abuso no número de vezes que o utiliza, deprezando por vezes a utilização de pronomes. A emoção dos momentos? Sugada completamente por um aspirador: quer nas cenas de morte, quer nas cenas de nascimento, nas de tortura, nas de paixão, todo o sentimento é sugado e guardado numa caixa a que o leitor não tem acesso. Ficam somente as imagens, e os ambientes, transmitidos de maneira não convencional.

Um livro de leitura agradável, recheado de detalhes amargos sobre o mundo. Ao longo das páginas são expostos os nossos medos e as nossas angústias. O mundo continua a girar. Gonçalo M. Tavares tem uma obra que vai beber muita cultura a muitos sítios - e depois transforma-a numa fórmula literária. Contém um final particularmente marcante - mas falo somente, e sempre, ao nível estético e intelectual. Porque em termos de emoção, a que chega até nós vem difusa e em segunda-mão, gasta pelas palavras cruas, como o luar que não vem da Lua. E que, na escuridão da noite, não deixa de ser a luz essencial.

Personagens Preferidas: Clako.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Crítica - A Queda dos Gigantes


Título: A Queda dos Gigantes
Autor: Ken Follett
Tradutora: Alice Rocha
Editora: Editorial Presença
Nº de Páginas: 918
Preço Editor: 29,95€

Sinopse: Em A Queda dos Gigantes, o primeiro volume da trilogia "O Século", as vidas de 5 famílias - americana, alemã, russa, inglesa e escocesa - cruzam-se durante o período tumultuoso da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do Movimento Sufragista. Neste primeiro volume, que começa em 1911 e termina em 1925, travamos conhecimento com as cinco famílias que nas suas sucessivas gerações virão a ser as grandes protagonistas desta trilogia. Os membros destas famílias não esgotam porém a vasta galeria de personagens, incluindo mesmo figuras reais como Winston Churchill, Lenine e Trotsky, o general Joffreou ou Artur Zimmermann, e irão entretecer uma complexidade de relações entre paixões contrariadas, rivalidades e intrigas, jogos de poder, traições, no agitado quadro da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do movimento sufragista feminino. Um extraordinário fresco, excepcional no rigor da investigação e brilhante na reconstrução dos tempos e das mentalidades da época.


Vou começar com uma breve referência à ironia que o título deste livro contém para mim: «A Queda dos Gigantes». Eu não sou um leitor típico de livros gigantes, por mim caíam todos. Mas a verdade é que quando os termino não deixo de gostar deles. O processo de leitura é que não se adequa ao meu, que muitas vezes perco o ânimo ao empreender desafios demasiado longos. Ler um livro de 900 páginas não é igual a ler um livro de 1100 (como aconteceu o Verão passado com 'Os Miseráveis' de Victor Hugo); mas, sejamos sinceros... vai dar quase ao mesmo. Felizmente consegui obrigar-me a terminar a leitura, e digo felizmente porque, quando se termina uma obra desta dimensão, nos sentimos bem connosco próprios. Nem o livro merecia que eu não o lesse até ao fim, nem eu merecia deixar de o terminar já o tendo lido em três quartos. Adiante.

As expectativas com que parti para a leitura deste volumoso romance histórico eram altas. Do mesmo autor já tinha lido há alguns anos 'Os Pilares da Terra', e a fasquia tinha subido a um patamar literário impressionante. Para somar a isto tinha acabado de rever toda a matéria do 12º ano de História A para o dito exame, e estava entusiasmado com o século XX. A sinopse do livro deixou-me inevitavelmente entusiasmado e, levado por uma vontade que tinha vindo a adiar há já alguns meses, decidi lê-lo.

As primeiras duzentas páginas são deliciosas. Todas as vivências do quotidiano na primeira década do século XX, os ambientes de tensões sociais, e as intrigas que nos introduzem às vidas do vasto leque de personagens que passamos a conhecer. Embora estivesse a corresponder à ideia épica que idealizara acerca da obra, ler cada página era uma experiência agradável e descontraída. Mas o livro não se aguenta por 900 páginas neste nível. Claro que o começo da Guerra vem pôr de parte tudo o que de "agradável" houvesse na leitura; mas esperava que o meu entusiasmo não decrescesse, e isso acabou por, eventualmente, ir-se sucedendo...

Estamos perante uma investigação árdua por parte do autor e dos historiadores que o ajudaram, e que nos dá um autêntico painel de azulejos sobre as vivências e as ideias vivivas na altura retratada. Esta apresentação da realidade não nos é apresentada de forma maçuda. Mas, se calhar é só comigo, 900 páginas não funcionam. A guerra foi longa e dolorosa; não quer dizer que a leitura também tenha de ser assim. Além disso, encontro uma certa previsibilidade no rumo dos acontecimentos (e não me refiro, claro, aos acontecimentos históricos, que esses todos sabemos qual é o seu desfecho antes de começarmos a ler o livro), nas redes sociais que são criadas entre as personagens há qualquer coisa de óbvio. Cativante, mas diria previsível.

Foram poucas as personagens que me prenderam. Mas prenderam-me de uma forma original. Em dados momentos da história esta e aquela eram as minhas preferidas, mas mais adiante dava por mim a não gostar delas. na medida em que do princípio ao fim da obra existe um período temporal de 10 anos, acho que isto também faz sentido.

Uma leitura para corajosos, que tenham algum gosto ou curiosidade pelo tema da História do século XX. Com momentos de grande deleite, outros de alguma espera retardada pelo rumo dos acontecimentos. Alegria e dor juntos na mesma página. E uma visão quase cinematográfica imprimida nas páginas, isto é, conseguimos facilmente imaginar as imagens que nos são passadas. Fica a vontade de ler a sequela que sairá em 2012, mais pela curiosidade de ver as personagens a lidarem com os conturbados anos da Segunda Guerra Mundial do que por outras coisas. Leitura agradável, com grande pesquisa implícita, interessante - mas demasiado grande para mim.

Personagens Preferidas: Ethel, Maud, Fitz, Billie.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

terça-feira, 19 de julho de 2011

Capa d' «A Dança dos Dragões»


Divulgada pela editora há minutos. Adoro a capa... A 9 de Setembro nas livrarias. Mal posso esperar!


Tiago

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Crítica - O Elefante Evapora-se


Título: O Elefante Evapora-se
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 350
Preço Editor: 18,00€

Sinopse: Num sufocante dia de Verão, um advogado põe-se à procura do seu gato e dá de caras com uma estranha rapariga num jardim abandonado nas traseiras de casa. Mais adiante, as dores provocadas a meio da noite pela fome levam um jovem casal de recém-casados a fazer uma incursão nocturna e a assaltar um McDonald’s para conseguir deitar a mão a trinta hambúrgueres Big Mac, realizando assim um secreto desejo que já vinha dos tempos da adolescência. Um homem fica obcecado pela misteriosa e incrível saga de um elefante que se desvanece em fumo e desaparece da noite para o dia sem deixar rasto. Sem esquecer as confidências de uma mulher casada e jovem mãe com insónias que passa as noites em claro, a ler Tolstoi, e acorda para a vida num mundo indefinido de semiconsciência em que tudo se afigura possível - até mesmo a morte. Ao longo de dezassete pequenas histórias aparentemente banais, das muitas que povoam o nosso quotidiano, Haruki Murakami transporta o leitor à dimensão paralela de um imaginário delicioso e bizarro ao mesmo tempo, percorrendo um Japão que tem tanto de nostálgico como de moderno. »Muitas vezes divertidos, sempre comoventes», os dezassete contos desta colectânea são prova da extraordinária capacidade narrativa de Haruki Murakami.


Não parti para a leitura desta colectânea de contos com o maior dos ânimos. Como por diversas vezes já referi, estou quase sempre de pé atrás quando inicio a leitura de um dos livros de Haruki Murakami, não obstante ele ser, provavelmente, o meu autor preferido. Como se de um sistema de segurança se tratasse, pego num livro seu com a convicção de que, talvez desta vez, não vá ser uma leitura tão abismal como as anteriores. Neste caso, e infelizmente, este meu palpite no vazio revelou-se algo verdadeiro.

Definitivamente, os contos são uma realidade à parte de um romance. O domínio da arte do conto é paralelo ao da narrativa grande. Por um lado, não pode ser um romance condensado em vinte páginas; por outro, também não pode ser um excerto sem pés nem cabeça, como se de um capítulo se tratasse. Na busca deste equilíbrio, creio eu, reside a técnica de um bom contador destas curtas narrativas. Sendo este o primeiro livro do género que leio de Haruki Murakami, concluo que este talento da arte de contar histórias pequenas é um pouco desiquilibrado nele... numas consegue dar a volta e sair por cima, noutras acabamos por nos perder na névoa indefinida daquilo que não conseguimos identificar bem... e esta minha explicação foi confusa, de certeza.

Temos quatro tipos de contos em «O Elefante Evapora-se». Neste sentido: uns parecem ser fruto de um planeamento calculista e estratégico, outros assemelham-se a primeiros capítulos inacabados, outros resultam de forma espontânea na sua liberdade, e outros ainda não passam de nevoeiro difuso emaranhado. Este nevoeiro, presente em alguns contos mais pequenos, mas também noutros maiores, de tão pouco palpável, não me permitiu fixar-me emocionalmente às suas histórias.

Há contos muito divertidos, outros comoventes, outros maravilhosos. Os preferidos: «O Comunicado dos Cangurus» fez-me rir como poucas páginas, na minha vida de leitor, alguma vez conseguiram. «Sono» arrepia do princípio ao fim. «Os Celeiros Incendiados» tem qualquer coisa que me agarrou completamente, assim como «A Janela», apesar de pequenino. «Um Barco Lento para a China» quase me emocionou, embora não saiba explicar porquê. O conjunto dos últimos três contos também foram muito interessantes, embora destaque «O Último Relvado da Tarde», pelas imagens e aromas transmitidos.

Depois há o caso dos contos intermédios, que na minha opinião estão bem construídos, e são interessantes, mas aos quais não criei por qualquer razão um laço emocional com as suas narrativas. E tenho pena em relação a esses. Tenho pena porque sinto, pela primeira vez, um certo grau de desilusão relativamente a uma obra de Murakami. Embora «Underground» e «Hear the Wind Sing» também não tenham sido propriamente umas pérolas, o caso de «O Elefante Evapora-se» é diferente, porque com este, lá no fundo, eu estava à espera de me deleitar.

Não está em causa a qualidade de Murakami. Todo o surreal, o imaginário fantástico, as vidas expostas das personagens, a sinceridade brutal com que o quotidiano é recriado, tudo isso me continua a entreter neste autor. Mas, talvez pela duração que cada conto tem, foram poucas as ligações que criei, muito súbitas e repentinas. Na minha opinião, Murakami move-se bem na área do conto, mas não tanto como verdadeiramente domina o romance. Pelo menos na maioria das vezes. Contudo, e apesar de todas as coisas que disse, estamos perante uma leitura descontraída, divertida, relativamente leve (embora seja discutível), e aconselhada por mim!


Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Crítica - 333

Título: 333
Autor: Pedro Sena-Lino
Editora: Porto Editora
Nº de Páginas: 181
Preço Editor: 16,05€

Sinopse: «Esta é a história de um livro e de todos os seus 333 exemplares impressos. É a história secreta do impacto de um livro na vida de cada um dos seus leitores, e de como um rectângulo de papel pode transformar uma vida.»


Não estava à espera de encontrar em '333' quase nada daquilo que encontrei. Para ser sincero, também não sei definir quais eram as minhas espectativas à partida. Como já aconteceu com tantos outros, este livro ficou na estante aproximadamente um ano antes de me ter chamado para a sua leitura. Assim que senti que chegou, por fim, esse momento, peguei nele, pensando que se trataria de uma leitura rápida.

É certo que as circunstâncias que me rodearam entre meados de Maio e meados de Junho não foram as mais folgadas em termos de tempo e disposição, mas mesmo que assim tivesse acontecido a leitura de '333' tinha, definitivamente, demorado mais tempo do que esperaria. Porque há qualquer coisa nesta história que a torna estranhamente complexa.

Passa pela linguagem e pelo estilo do autor. Pedro Sena-Lino, que dirige cursos de escrita criativa, mostra com a sua expressão um universo lexical rico, e um entrelaçar escritas divergentes num aglomerado de 180 páginas. É difícil de explicar. A escrita não é convencional, ao mesmo tempo que não é nem fácil nem difícil - custa a habituar, e, chegado ao fim, não me convenceu ainda totalmente. O estilo é arritmado, ora muito lento ora trovejante. Numa melodia clássica que me pareceu excessiva...

Depois a ideia! A ideia e o enredo desta história são, logo à partida, um grande desafio. O autor consegue caminhar devidamente nos caminhos da acção que à sua volta desenhou. Com genica e destreza, avança para trás e para a frente, envereda por caminhos históricos interessantes, e escapa-se pelas frestas do que nos é oculto. Mas, com tanto movimento e detalhe, nem sempre o consegui acompanhar, facto que lamento.

Há nas páginas deste livro qualquer coisa que não consigo expressar, volto a repeti-lo. É um choro melodioso, um lamentar na noite escura da história, e um percorrer triste de uma realidade com a qual temos dificuldade em lidar: os livros não são eternos. Pelo descuido de uns e desinteresse de outros, todos os dias obras são condenadas aos abandono, hoje mesmo, neste instante... esquecidas e ultrapassadas. Neste ritmo frenético de reposição da novidade em que parecemos viver, '333', na sua teia intrincada e visionária, pode ser um bom livro para tomarmos consciência disso. De agradável leitura e com a sua profundidade, é uma leitura interessante que nos deixa perante um sentimento esfumado... e verdadeiramente inclassificável. Não sei o que sinto.


Personagens Preferidas: Quem leu percebe que é muito difícil encontrar um preferido, embora tantos tenham histórias fantásticas.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Crítica - O Senhor Brecht


Título: O Senhor Brecht
Autor: Gonçalo M. Tavares
Ilustradora: Rachel Caiano
Editora: Editorial Caminho
Nº de Páginas: 65
Preço Editor: 10,50€

Sinopse: «O Senhor Brecht é um contador de histórias. Senta-se numa sala praticamente vazia e vai contando pequenas histórias entre o absurdo e o humor negro. A sala vai enchendo aos poucos, o que lhe trará no final um novo problema: o público tapa a porta de saída – e o senhor Brecht fica assim encurralado com o seu próprio sucesso.»


Gonçalo M. Tavares costuma dizer que o imaginário criado com esta série «O Bairro» é um caso à parte das suas restantes obras. E que ele próprio só começou a perceber o ritmo e as finalidades da colecção à medida que os ia escrevendo, ao fim de uns quantos. Acho que, como leitor, não podia concordar mais com Tavares: também eu, depois de lidos três Senhores, começo a perceber melhor o conceito desta colectânea de livros.

O Senhor Brecht é, e sem que coloque isto em dúvida por momento algum, o melhor livro que li d' «O Bairro» até ao momento. É como se cada livro tivesse a sua temática. O Senhor Valéry apresentava-nos os esquemas matemáticos, O Senhor Henri tinha como obcessão o absinto, e este O Senhor Brecht quer-me parecer que está virado para as amputações. Maioritariamente. Não é, contudo, devido a esta característica que o livro se tornou o meu preferido (não sou muito sádico). É mais... porque... foi...

Brilhante! Ao longo de 50 pequenas histórias, de apenas uma página, são abordadas inúmeras questões directamente ligadas à nossa sociedade. Temáticas actuais, que representam problemas humanos, uns que são resultado de crises recentes, outros presos a nós desde o princípio da humanidade. Genial! A forma breve e certeira com que estas problemáticas são identificadas é digna de se tirar o chapéu. O Senhor Brecht é uma obra interessantíssima exactamente por isso. Inspirador! Usando e abusando da ironia, a crítica está toda lá, a crítica que é aplicada também a cada um de nós, que podemos identificar-nos naquelas páginas.

Referi atrás a questão da mutilação. Pois é, diria que a quase totalidade das histórias do livro incluem ou uma morte, ou um ferimento, ou o corte de uma parte do corpo (desde dedos à cabeça, passando pelas pernas e pela língua), que, no fundo, estão ali a representar as mudanças e os factores que motivam acontecimentos. Pelo menos é a minha interpretação: interrupcções do estado estático, modificações que funcionam como catalisadores para nos podermos inteirar das consequências. Confuso?...

Deixo-vos com dois pequenos exemplos que escolhi aleatoriamente. Um sem, e outro com a tal violência gráfica:

«Em vez de uvas os cachos do reino deixavam cair sobre a terra diamantes.
- Diamantes, diamantes, diamantes! Há anos que é só isto - queixava-se o produtor.»

«O filósofo dizia que só os homens faziam o importante, enquanto os animais só dispunham de acções insignificantes.
Foi então que chegou o tigre e devorou o filósofo, comprovando com os dentes a teoria anteriormente apresentada.»

Este livro, se analisado com o seu devido tempo, lido com calma, e fazendo ao mesmo tempo um exame interior à nossa consciência, pode ser importante para cada indivíduo. mas se ao leitor não apetecer tal esforço, tem outro uso: simplesmente ler as histórias, com o seu quê de humor (negro...) e deixar de parte a simbologia das metáforas. Um livro divertido, muito rico, e que oferece o que de melhor Gonçalo M. Tavares tem para oferecer com este Bairro. No fim, eu faço parte dos que estão naquela sala, apertados para ouvirem as histórias do senhor Brecht. Senhor Brecht, só mais uma! Vá lá, só mais uma!


Nota (0/10): 8- Muito Bom

Tiago

terça-feira, 24 de maio de 2011

Crítica - Felizmente Há Luar!

Título: Felizmente Há Luar!
Autor: Luís de Sttau Monteiro
Editora: Areal Editores
Nº de Páginas: 140
Preço Editor: 13,03€

Sinopse: «Denunciando a injustiça da repressão e das perseguições políticas levadas a cabo pelo Estado Novo, a peça Felizmente Há Luar!, publicada em 1961, no mesmo ano de Angústia para o Jantar, esteve proibida pela censura durante muitos anos. Só em 1978 foi pela primeira vez levada à cena, no Teatro Nacional, numa encenação do próprio Sttau Monteiro.»


Como segunda leitura obrigatória para a escola, só neste mês, e pertencendo novamente à categoria de texto dramático, Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, tinha em mãos uma tarefa peculiar de me tentar cativar. Lido praticamente em cima da hora, isto é, a poucos dias de começar a abordar a obra no contexto da disciplina de Português, cheguei mesmo a ter de ler o II Acto em plena aula, porque fui surpreendido ao ver que, esta segunda-feira, começámos a analisar o livro. E eu só ia a meio. E, uma vez iniciada a matéria, é uma questão de minutos até se começarem a desenhar retrospectivas gerais que envolvem toda a obra. Inclusivé o fim. Sim, spoilers. Não os evitei. Daqueles mesmo maus, que incluem mortes de personagens. É difícil focar-me só na leitura e ignorar por completo o discurso da professora. Mas, ainda que não nas melhores condições, lá concluí a leitura naquele espaço de 90 minutos.

Felizmente há didascálias! Sem elas este livro, enquanto livro, seria mais pobre. Divididas em duas secções (didascálias de movimentações, e didascálias de intenções), o texto está recheado delas, o que ajuda bastante ao leitor a visualisar melhor as situações, e a decifrar os motivos que movem cada personagem. De outra maneira seria muito difícil apercebermo-nos dos jogos e esquemas que estão por trás de alguns dos diálogos; para nós, leitores, que os espectadores terão o trabalho facilitado por aquilo que os actores "decidirem" mostrar. Entre aspas, porque neste aspecto, Luís de Sttau Monteiro é firme - deixa tudo bem claro quanto às intenções e marcações cénicas - não há muito espaço de manobra para os encenadores poderem criar.

O primeiro acto é muito mais politizado que o segundo, embora ambos contenham grandes críticas à sociedade do tempo da governação inglesa em Portugal. E ao Estado Novo. Devem estar a perguntar-se: espera aí, dois períodos tão distantes no tempo, como é que estão relacionados? Simples. O autor queria escrever uma obra que denunciasse a repressão do governo ditatorial de Salazar; mas editar tal coisa durante os tempos de censura era impensável. Daí que tenha recorrido ao estratagema da analogia: a acção da obra passa-se em 1817, em vez de Salazar temos Beresford, em vez do general Humberto Delgado temos o General Gomes de Freire. E temos o contexto de uma revolução que se aproxima. Inteligente, não é? Infelizmente, não escapou ao controlo da PIDE, que proibiu a distribuição do livro.

Mas, dizia eu, felizmente há o segundo acto! Porque o primeiro deixou um pouco a desejar. Muita conversa entre gente de poder acaba de gerar grandes e elaborados diálogos sobre políticas, métodos, intrigas monetárias, etc. E a certa altura cheguei mesmo a perder o fio à meada. Mas o segundo acto funciona como uma lufada de ar fresco, e criamos de imediato empatia com uma ou duas personagens que, emocionalmente interessantes, nos vão acompanhar até ao fim do livro. Os seus gritos de revolta, misturados com as lágrimas de quem verdadeiramente sofre, funcionam ainda melhor como crítica à sociedade e à repressão do que a teorização abordada na primeira metade.

(In)felizmente fica sempre a faltar qualquer coisa! Quase se trata de texto dramático, sinto-o quase dramaticamente. Parece que não foi feito para o leitor, e sim para o espectador, o que faz desta tarefa que é ler uma peça algo um pouco ingrato. Pelo menos é o que sinto. Embora, por mais que tente, não consiga explicar melhor do que isto...

Apesar de tudo fica a sensação de que foi uma leitura agradável, interessante pelos temas que aborda, e que, com certeza, terá dado origem a adaptações para palco bastante bem conseguidas - tem tudo para ter conseguido isso. A certa altura o desespero quer-me parecer ser exagerado, mas felizmente há luar, não é? Uma obra enérgica, que quase se levanta com a sua própria vontade, com o grito que parece dar para fora das páginas. Felizmente há obras assim - agitar consequências é essencial para o avanço do mundo, principalmente quando precisamos de um abanão para restabelecer a ordem da nossa governação. Coincidência ou não, dia 5 de Junho vou exercer o meu direito de voto pela primeira vez na vida, tendo feito há poucos dias os meus 18 anos. Felizmente há liberdade. E, claro, felizmente há luar! Ao menos há luar.


Personagem Preferida: Vicente, e Matilde.

Nota: 6 - Agradável

Tiago
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