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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Crítica - Dança, Dança, Dança


Título: Dança, Dança, Dança
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 473
Preço Editor: 20,19€

Sinopse: «Em Dança, Dança, Dança, Haruki Murakami continua a trajectória da personagem de Em Busca do Carneiro Selvagem, agora à procura do seu antigo amor que desapareceu misteriosamente do Hotel Golfinho. Nessa nova busca, o narrador, um jornalista freelancer, perde-se cada vez mais num universo de realismo fantástico, quase kafkiano, envolvendo-se com personagens verdadeiramente singulares: uma adolescente clarividente, um actor de cinema extravagante, um poeta maneta e prostitutas de luxo. Ambientado em Tóquio, este romance aborda temas como a solidão, o amor e a efemeridade da vida e retrata uma sociedade em constante transformação, altamente consumista e regida por valores como a fama, o dinheiro e o poder. Ao som de músicas dos anos 60, 70 e 80, o narrador e os seus amigos acabam por se envolver num caso de homicídio.»


Neste preciso instante, sinto uma vontade tremenda de escrever uma longa análise acerca deste livro; e, ao mesmo tempo, faltam-me as palavras para esta curta critica. Por onde começar? Pelo re-afirmar da frase já muito batida por mim - Haruki Murakami é o meu autor preferido. Não tenho dúvidas. Depois do que já li dele, não tenho qualquer dúvida de que esta seja a minha verdade actual. Ler um livro de Murakami é uma experiência rara, de absorção e magia, de distorção da realidade, de musicalidade presente no quotidiano, tudo isto e mais.

«Dança, Dança, Dança» é a sequela de «Em Busca do Carneiro Selvagem», que por sua vez concluiu o ciclo da Trilogia do Rato. Regressamos ao narrador sem nome, à sua vida, aos seus pensamentos; e é um regresso tão acolhedor que nos sentimos absolutamente em casa. Isto apesar do princípio desta obra não ser propriamente dos mais fáceis - Murakami, na minha opinião, tem nos diálogos entre as personagens um dos seus grandes trunfos; e nos primeiros três capítulos existe uma quase inexistência deles. Só a partir do quarto ou quinto é que o solo da obra passou a ser permeável, e me comecei a afundar.

Já não parto na expectativa de gostar ou não. É quase um dogma que tenho enquanto leitor. A probabilidade de não vir a gostar de um livro dele vai diminuindo à medida que o leio mais. Em «Dança, Dança, Dança», temos um regresso aos cenários, tão modificados; e conhecemos tantas personagens novas, e tão cativantes. O próprio narrador parece estar mais interessante do que nunca. O universo aprimorou-se neste quarto livro da saga do Rato.

Senti nesta obra um... «peso japonês»... que não tinha sentido tão intensamente nas outras. Isto apesar de, a certa altura, sairmos do cenário do Japão - facto raro em livros do autor. Mas há qualquer coisa nas relações das personagens, nos actos de algumas delas, mais oriental do que o habitual. Uma simples impressão minha.

O livro é viciante. Custa deixá-lo de lado, apetece lê-lo pela noite dentro, mantermo-nos por dentro da história. E agora vem a questão do enredo - muito pouco linear, ao contrário do que encontramos no «Em Busca do Carneiro Selvagem». É que em «Dança, Dança, Dança», não temos uma intriga bem definida, vamos vagueando, vamos dançando, dançando, dançando. Daí que não goste de algumas partes da sinopse, e mesmo de críticas de jornais mundias quando se referem a Murakami, utilizando temas como «thriller», «policial», «investigação», ou «o narrador e os seus amigos acabam por se envolver num caso de homicídio» (o exemplo deste livro). Nada mais errado. Isto é um distorcer completo da imagem que este livro deixa. Não se trata de mistério, nada disso. Se não tivesse sido por acaso que descobri o autor, nunca teria comprado um livro seu pelas sinopses que normalmente são apresentadas. É um erro associar estes temas às obras dele...

As personagens vão deixar saudades. Existem momentos de beleza incrível, majestosa, como se víssemos uma paisagem arrebatadora ao vivo. As emoções das personagens, as relações tão complexas, o surreal presente a cada momento, o realismo mágico que tanto me fascina... «Dança, Dança, Dança» é um dos melhores livros que li de Haruki Murakami. No fim do livro, resta um sentimento de vazio, de continuidade, de... pegarmos noutro livro, iniciarmos uma nova leitura, ainda com a cabeça totalmente centrada na anterior... e irmos dançando à medida que a vida passa. Imensamente tocante e poderoso.

Personagens Preferidas: O narrador, Yuki, e Yumiyoshi.

Nota (0/10): 10 - Perfeito!

Tiago

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Crítica - Em Busca do Carneiro Selvagem

Título: Em Busca do Carneiro Selvagem
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 370
Preço Editor: 18€

Sinopse: «Ambientado numa atmosfera japonesa, mas com um pé no noir americano, Murakami tece uma história detectivesca onde a realidade é palpável, dura e fria, e seria a verdade de qualquer um, não fosse um leve pormenor: é uma realidade absolutamente fantástica. Um publicitário divorciado, que tem um caso com uma rapariga de orelhas fascinantes, vê-se envolvido, graças a uma fotografia publicitária, numa trama inesperada: alguém quer que ele encontre um carneiro! Mas não é um carneiro qualquer. É um animal que pode mudar o rumo da história. Um carneiro sobrenatural…
Murakami dá a esta estranha história um tom que só um oriental pode imprimir a uma crença, fazendo-a figurar como um facto da realidade. Coloca, de uma forma genial, a fantasia na aridez do mundo real.»

É o sétimo que leio de Murakami, e ainda não vejo ao longe o dia em que me vou cansar de ler este autor - provavelmente porque isso nunca irá acontecer. Ler um livro dele é um constante deleite, sinto-me sempre confortável e viciado na leitura, embrenho-me nos seus cenários e personagens oníricos, naquela linha tão ténue entre a realidade e o sonho. E por mais caótico, estranho, inimaginável, absurdo, que o enredo possa ser - ler Murakami é uma experiência única e da qual nunca chego a despertar completamente. Digo isto porque, a cada livro que leio dele, olho de uma forma um bocadinho mais diferente para a realidade.

Como talvez saibam, este é o terceiro livro da chamada «Trilogia do Rato», cujos dois primeiros livros o autor não autorizou a que fossem editados fora do Japão. Existe no entanto uma tradução inglesa no país nipónico, que mandei vir, desses dois primeiros livros. «Hear the Wind Sing», e «Pinball, 1974», cujas críticas aqui podem ler. É verdade que se pode ler o terceiro desta trilogia sem se ter lido os dois anteriores, mas acreditem que não é a mesma coisa... na minha opinião, o contacto com as personagens que já trazia dos dois volumes anteriores ajudou-me e muito a encontrar pontos fortes em «Em Busca do Carneiro Selvagem», e extractos particularmente emotivos por conhecer o que se passou anos antes. A sequência final da história, e, digamos, as últimas cinco páginas, foram para mim arrebatadoras - e creio que importou ter lido os volumes anteriores.

A verdade é que este autor japonês cativa com as suas palavras! Numa narrativa simples e linear, comunicando com uma linguagem tão acessível (mérito para a tradutora, que consegue manter o estilo e torná-lo muitíssimo interessante na nossa língua!), frases curtas, fácil de acompanhar o enredo... um enredo engraçado e que evolui de maneira impressionante, seguindo pelos caminhos mais óbvios... não é, de longe, um policial, nem uma história detectivesca, como a sinopse quer dar a parecer. Vai muito para além disso, entra em terrenos que qualquer história detectivesca normal jamais poderia alcançar!

É tão bom voltar a Murakami, às suas palavras, ao seu universo paralelo ao nosso (a questão do espelho, que encontramos neste livro, pode comparar-se ao que sinto quando leio livros do Haruki - não é o nosso mundo, mas sim um semelhante), as metáforas tão bonitas, a solidão vista daquele ponto de vista tão cativante, a tristeza que nunca é contada como tristeza. É espontâneo, quando me apetece pegar num livro dele... e, agora que olho para a crítica, quase não falei do livro em si, mas sempre do autor. Sim, todos os seus livros têm mais ou menos os mesmos pressupostos. E adoro-os. Dá vontade de partir em busca de um carneiro selvagem....... de boca aberta, e arrebatado com esta leitura.

Personagens Preferidas: o Motorista; o Rato; o protagonista; a mulher das orelhas; o J. E já são muitos.

Nota: 9/10

Tiago

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Crítica - Pinball, 1973

Título: Pinball, 1973
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Alfred Birnbaum
Editora: Kodansha English Library
Nº de Páginas: 179
Preço Editor: -

Sinopse: The second book in the "Trilogy of the Rat" series, it is preceded by Hear the Wind Sing (1979) and followed by A Wild Sheep Chase (1982).
Very much a continuation of Hear The Wind Sing with the familiar site (J's bar) and characters (J and Rat). The novel is a collage of everyday episodes of the single 24-year-old Tokyoist, his disinterest in his translation job, his asexual relationship with the twin sisters 208 and 209, and his half-estrangement from social world. He oscillates between ceaseless pursuit of interests (midnight visit to Pinball machine) and resignation (painless farewell to the twins), and at times emerges from the cool, semiotic space of his apartment to bath in the autumn light.

Falar da experiência que é ler Haruki Murakami para quem nunca o leu é complicado, talvez porque até hoje não encontrei outro autor a quem o pudesse comparar. Imaginem o quotidiano japonês, a vida normal e real com personagens normais e em tudo iguais a nós (com as próprias variantes culturais). De repente entra Murakami em cena, despeja um saco de elementos surreais e alternativos por cima da vida - por exemplo, mulhares enigmáticas, telefonemas anónimos, desaparecimentos de pessoas e objectos, gatos e poços por todo o lado, etc, etc - e, o mais incrível, é que a personagem principal lida com isso com a maior das naturalidades, como se já o prevesse. É este o universo de Realismo Mágico do senhor Haruki Murakami. Um mundo de muitas perguntas que não procuram sequer resposta.

Tal como em todos os livros que li dele (excluindo o de não-ficção, do seu Auto-Retrato), é esta a paisagem de fundo nas suas obras. Em Pinball, 1973 seguimos as mesmas personagem que tinham sido introduzidas no primeiro livro do autor, Hear the Wind Sing: o narrador presente sem nome, J, e O Rato (por sua vez este último dá nome à trilogia, de quatro livros, em que este se insere). Neste em particular temos uma divisão da novela em duas frentes: a do narrador, e a do Rato. Estão separados geograficamente, embora não tenham esquecido a sua amizade. O primeiro sofre os efeitos da onda surrealista de Murakami, ao mesmo tempo que procura por uma determinada máquina de Pinball na qual se viciara depois de um acontecimento muito mau na sua vida; e O Rato, coitado, tem um ataque de tristeza e solidão, e numa odne de melancolia explícita (rara em Murakami) prepara-se para tomar uma decisão importante da sua vida.

É neste equilíbrio que se desenrola a acção. Quis-me parecer, no entanto, que apenas na segunda metade é que finalmente Murakami encontra o seu estilo, ao fim de livro e meio escrito. E, devido à diminuta extensão da obra, ficamos com a sensação de que, quando estava a começar realmente a melhor parte e o melhor ritmo, é que termina. De resto, temos três elementos do livro que me chamaram especialmente a atenção: As Gémeas; O armazém das galinhas; e as cenas no bar do J. Não me alongo mais em relação a isso, para quem não leu não faria muito sentido.

Concluindo, este é um livro já tipicamente murakamiano, com a atmosfera típica, a qual nos prende, e que quando saio dela só me dá vontade de escrever, como se me tivesse enchido de inspiração. Todo o livro tem uma musicalidade que não me passa despercebida, um ritmo muito próprio. Mas Haruki insiste em não o publicar fora do Japão, sendo que a suposta justificação é que o considera, assim como ao primeiro livro, trabalhos de «natureza inferior». Este Pinball, 1973 já está longe de ser inferior. É uma opcção cara, mandar vir de lá os livros, e apenas compensa a quem já experimentou e gostou do estilo. A mim, já me conquistou há muito.

Personagens Preferidas: As Gémeas. E J prende-me, de alguma maneira.

Nota (0/10): 8 (Muito Bom)

Tiago

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crítica - Hear the Wind Sing

Título: Hear the Wind Sing
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Alfred Birnbaum
Editora: Kodansha English Library
Nº de Páginas: 130
Preço Editor: $25.99 (aproximadamente 19€)

Sinopse: «The first book in the "Trilogy of the Rat" series, it is followed by Pinball 1973 (1979) and A Wild Sheep Chase (1982). The writer recalls the days of his early twenties. The biology student passed his summer vacation aimlessly back at his home town. There are episodes about his childhood and his three girls whose names and faces have long been forgotten. Amid the bar scenes of cigarettes, french fries and beers, there was still extra space for his favourite author and the chunks of his philosophies. Hear the Wind Sing was never released in any English-speaking countries, but a translation was sold in Japan as a way to improve one's English reading skills, complete with a glossary in the back with the harder words defined in Japanese.»

Quem já leu Haruki Murakami conhece bem o estilo deste autor - os seus romances surreais que envolvem o quotidiano japonês, um narrador masculino, personagens femininas misteriosas que desaparecem, gatos, música ocidental, refeições, reflexões acerca da escrita, a simplicidade da história contada numa linguagem acessível e ao mesmo tempo filosófica. Quem já leu Murakami conhece o estilo: Hear the Wind Sing é a sua primeira obra, e neste livro vê-se o estilo de Murakami em bruto.

É difícil explicar o meu ponto de vista, mas vou tentar: Murakami começou a escrever aos trinta anos. Nesta sua primeira obra, revela ao mundo a sua forma de escrever muito peculiar, sem no entanto a ter aperfeiçoado e trabalhado. É o estilo dele como matéria prima, é o nascimento do estilo na sua forma mais fria e radical. De tal forma que não consegue agarrar o leitor como o faz em livros posteriores.

O livro tem todos os elementos Murakamianos de que falei anteriormente, mas sendo a sua primeira obra achei a língua um pouco fria, e embora tenha tido momentos bem conseguidos, noutros criou pouca relação com o leitor. Capítulos muito pequenos e sucintos, cenas rápidas que quando começamos a gostar já acabaram. Muito entrecortado.

Agora os pontos positivos: porque apesar de me ter desiludido um pouco, o problema foi meu. Ninguém me mandou encomendar este livro. Haruki Murakami pediu para que as duas primeiras obras não fossem reeditadas para lá do Japão, porque considerava a sua escrita muito primária. Ele avisou-me... mas eu não dei ouvidos, comprei, e esperava uma obra-prima. É verdade. Este livro é o primeiro degrau daquele que é provavelmente o meu escritor favorito. mas foi bom lê-lo, para ver por onde começou ele!

Foi bom conhecer os lugares e as personagens, identificar elementos que se desenvolvem nos livros a seguir, ler as reflexões acerca da escrita. Um certo humor também presente. Uma obra primária, talvez, mas com grande significado para quem é fã de Murakami. É bom ver como tudo começou. Por isso, aqui fica uma dica: leiam este livro só depois de terem experimentado uns quantos do autor; e tenham em conta que o próprio pediu para não o reeditarem. Não estejam á espera de uma obra-prima, e vão gostar.

Provavelmente o mais soft dele, talvez porque não arrisca aproximar-se do leitor. Mas com apenas 130 páginas, lê-se num fôlego. Anteriormente tinha dito que não ia dar nota ao livro, por respeito simbólico ao autor: mas mudei de ideias, e resolvi quantificar o meu gosto, também.

Personagens Preferidas: A rapariga. E talvez o J.

Nota: 6 - Agradável

Tiago
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