quarta-feira, 12 de março de 2014

Epílogo

















Livraria Shakespeare & Company, Paris

Talvez o espaço mereça esta nota de rodapé, dois anos passados desde a última actualização. Não morremos para a literatura; o impacto que esta representou nas nossas vidas durante a adolescência está cartografado neste armazém de críticas, entrevistas e comentários diversos. Quem se afoga em tamanho mar de letras não emerge inalterado. O Lydo e Opinado, como projecto, está encerrado. Quem por aqui escreveu não deixou de seguir para as áreas das letras ou da cultura. O espírito crítico apurou-se, porque desceu às catacumbas do essencial e, questionando-se a si próprio, assume-se agora como orgulhosamente contrário à opinião de outrora. A sensação de poder quando o eu do presente entra em conflito com o eu do passado, num estado tranquilo que persegue ainda novas contradições. Que este epílogo sirva de esclarecimento a quem eventualmente ainda venha aqui dar, por uma ou outra pesquisa num motor de busca. Leiam e opinem: sempre por esta ordem.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica - Ilíada


Título: Ilíada
Autor: Homero
Tradução: Frederico Lourenço
Editora: Cotovia
Nº de Páginas: 498
Preço Editor: 35€

Sinopse: «A Ilíada, primeiro livro da literatura europeia, terá surgido no século VIII a.C., no fim de uma longa tradição épica oral; extraordinário canto de sangue e lágrimas, em que os próprios deuses são feridos e os cavalos do maior herói choram, este poema de guerra em 24 cantos mantém inalterada a sua capacidade esmagadora de comover e perturbar. O título remete imediatamente para Ílio ou Ílion – Tróia – e, embora tivesse sido possível, num poema com 16.000 versos, narrar toda a guerra de Tróia, Homero isola um período de pouco mais de cinquenta dias, já na fase final das hostilidades, do qual nos descreve, em termos de acção efectivamente narrada, catorze dias. Concentra, assim, simbolicamente uma guerra de dez anos em duas semanas. Repetindo a proeza alcançada com a sua magnífica Odisseia, Frederico Lourenço oferece-nos agora a primeira tradução integral portuguesa, em verso, desta obra máxima da literatura mundial.»


Há livros que temos que ler pelo menos uma vez na vida. Recuar à antiguidade clássica (estamos a falar, aliás, de uma antiguidade ainda pré-clássica), e descobrir a primeira epopeia de Homero (Homero este que não sabemos se provavelmente terá sido uma personagem fictícia), é uma paragem que muitos leitores deveriam ter em conta. Trata-se de escavarmos até às raízes de muitas concepcções que ainda hoje vemos presentes na nossa literatura, e que na Ilíada desbravavam caminho pela primeira vez.

A tradução, nestes casos, é muito importante. E a desta edição é excelente. Ao contrário do que alguns poderão pensar, o texto não é difícil de ser lido: o vocabulário navega em mares conhecidos, e a construção frásica é muito fácil de ser seguida (bem mais fácil que a dos Lusíadas, por exemplo). O enredo é cativante e cheio de pequenas coisas que podem ser analisadas. É verdade que ajudou conjugar esta leitura com as aulas de Cultura Clássica, porque os pormenores eram-nos apontados com mais evidência. Destaque para os símiles, isto é, uma espécie de metáforas constantes na Ilíada que remetem as descrições de guerra para um panorama da natureza na sua forma original.

A história tece múltiplos enredos, vagueando entre o lado dos aqueus (isto é, os gregos), o dos troianos, e o dos deuses. Deuses estes que gostam sempre de se meterem nos assuntos humanos, e guiam o destino conforme lhes apetece. Não podem deixar de achar engraçado as próprias disputas que existem entre os deuses: quando se erguem uns contra os outros e se dividem cada grupo para o lado que estão a apoiar na guerra.

No meio de tanta guerra e destruição, é ainda possível captarem-se momentos de beleza e ternura impressionantes no contexto da obra. Quando, num dado canto, Heitor se despede da sua mulher e do seu filho, o leitor sente um arrepio perante o momento. Mesmo os cantos que parecem repetir-se na sua confusão bélica, todas as lutas e confrontos em busca da honra e da vitória, têm um sentido. É ainda de destacar o facto de o livro terminar antes do fim da guerra, deixando no ar tudo o que sabemos que vai acontecer a seguir - quando acabamos de ler o último verso, sabemos exactamente os acontecimentos terríveis que se vão seguir; mas, por não os lermos, ainda mais terríveis se tornam na nossa cabeça.

Uma leitura marcante, épica, que aconselho a todos. Eu passei muitas horas de diversão e entusiasmo com ela, e no fim fiquei com a nítida sensação que quando um dia reler a Ilíada vou desfrutar tanto como da primeira vez. Excelente - como seria, aliás, de esperar. Para um livro sobreviver quase três mil anos tem de ter algum potencial, não acham?

Nota (0/10): 9 - Excelente

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crítica - O Regresso do Rei


Título: O Regresso do Rei - O Senhor dos Anéis (Parte III)
Autor: J. R. R. Tolkien
Tradutora: Fernanda Pinto Rodrigues
Editora: Publicações Europa-América
Nº de Páginas: 336
Preço Editor: 21,35€

Sinopse: Eis que chegámos à terceira parte de O Senhor dos Anéis. Esta terceira parte, O Regresso do Rei, trata das estratégias opostas de Gandalf e Sauron, até ao fim da grande escuridão, que concluirá esta fantástica viagem pelo estranho mundo criado pela vivíssima imaginação de Tolkien.


Após um primeiro volume cuja leitura considerei difícil, e um segundo que me surpreendeu muito positivamente, as expectativas para a terceira e última parte da mais famosa trilogia de fantasia de todos os tempos situavam-se num nível mediano. Uma grande diferença logo à partida quando comparado com os outros dois: nunca vi o terceiro filme da adaptação cinematográfica, e o final da história era para mim uma incógnita. Um ano e meio depois de ter lido "As Duas Torres" decidi por fim aventurar-me para "O Regresso do Rei".

A adaptação não foi fácil. Emergir nesta Terra Média de Tolkien não é, para mim, como começar a ler um livro de Haruki Murakami (por exemplo). Este cenário austero de guerra e turbulência, adornado pela escrita cuidada e épica que Tolkien gosta de criar, não se cola à minha faceta de leitor de uma maneira natural. É precisa uma certa insistência, passar por uma fase de habituação, para que realmente comece a desfrutar da narrativa. Os tempos estão mais negros do que nunca neste volume final, o que também não veio ajudar muito - daquelas leituras que se calhar nos apanham em má hora, não estamos muito virados para esse estilo, mas já que começámos seguimos adiante.

Depois de passada a fase de adaptação, lá me embrenhei no enredo de maneira mais intensa, e apanhei a carruagem mesmo antes dos acontecimentos mais importantes se darem. Daí até ao final do último capítulo, o tempo passou a correr, e já não custou nada. Não se assustem os leitores do blog quando falo nestes termos de "insistência", "não custou tanto", "ter que aguentar", "obrigar-me a prosseguir" - são uma realidade relativamente frequente na minha vida. O que não quer dizer minimamente que eu não gosto de ler, porque gosto: às vezes preciso é de me empurrar a mim próprio.

O desfecho da trilogia, nas suas últimas cem páginas, esboça, talvez a par de toda a sequência dos ents n' "As Duas Torres", um dos momentos mais bonitos d' "O Senhor dos Anéis". Passarmos da dimensão imensa e incrível do destino do mundo inteiro, como nos estava Tolkien a habituar desde a segunda metade d' "A irmandade do anel", para as intrigas mais privadas do cantinho dos hobbits - o Shire - é uma experiência única. Subitamente, quando pensávamos que o autor já não nos ia surpreender até ao fim, dá-nos a volta e ensina-nos ainda uma preciosa lição, pegando na humildade característica dos seres mais pequenos daquele mundo. A história cresce ao aproximar-se da escala mais pequena possível, no derradeiro final.

Queria deixar ainda uma nota muito positiva para o conjunto da tradução de toda a trilogia. Conserva um linha sólida e sóbria, extremamente bem realizada. Os meus parabéns à tradutora Fernanda Pinto Rodrigues, porque está aqui um trabalho digno de nota.

A conclusão da trilogia vem fechar de forma digna o conjunto. É a partir desta saga escrita por Tolkien entre os anos 30 e os anos 40 do século XX que a maior parte da fantasia contemporânea vai buscar as suas inspirações. O que é impressionante de se imaginar. Na verdade, é de se tirar o chapéu a toda a contrução de um mundo, de múltiplas línguas, culturas, cronologias, estudos sobre personagens e locais totalmente inventados. Quando a meio de uma linha nos surge uma nota de rodapé que nos diz "talvez a palavra X derive de uma variação dos orcs das montanhas do Sul" é de ficarmos de queixo caído, no sentido de que Tolkien levava a sua criação mesmo a sério. Um último destaque para tudo o que se esconde para lá desta fantasia, toda a moral com bases profundamente enraizadas na nossa sociedade, a batalha do Bem contra o Mal que, apesar de frequentemente relativizada no nosso dia-a-dia, está cá e vive connosco todos os dias.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Análise de Leituras 2011 (Tiago)


Eis os dez livros que mais me marcaram neste ano de 2011, que acabou há aproximadamente três semanas. Entre um total de 25 livros lidos. Estou a excluir um par deles que me abstive de comentar, porque não se enquadrarem neste contexto. Começo, então, por falar um pouco acerca de cada um destes dez, que decidi destacar dos restantes.
  • 10º: O Senhor Brecht - Gonçalo M. Tavares. As histórias que povoam o imaginário deste livro do bairro são viciantes e entram na cabeça de uma maneira espantosa. Esta arte de se escrever micro-narrativas que raramente ultrapassam uma página não é para qualquer escritor, mas Tavares consegue-o de forma sublime principalmente neste volume d' O Bairro. Desde a senhora que para perder peso vai ao médico cortar uma perna, até ao desempregado que para sustentar os filhos se livra também de algumas partes do corpo, esta obra, recheada de algum humor negro mas também de muito material para dar que pensar, concedeu-me uma série de horas muito boas.
  • 9º: Contos da Chuva e da Lua - Ueda Akinari. Este livro de contos japonês, escrito no século XVIII, é uma pérola. No meu total desconhecimento pela literatura clássica, ainda para mais literatura clássica oriental, dei por mim a devorar estas páginas, cheias de magia e terror. Toda a atmosfera criada, e a imaginação fértil das situações, adornada por uma linguagem poética e tão característica, emocionou-me e transportou-me para cenários de beleza rara. Muito boa leitura.
  • 8º: Adeus, Tsugumi - Banana Yoshimoto. De todos os livros que habitam esta escolha das minhas dez melhores leituras, este é aquele ao qual se pode aplicar melhor a famosa frase «primeiro estranha-se, depois entranha-se». O estilo de Yoshimoto é estranho e pouco firme, mas neste romance conseguiu criar um quadro de ambientes e paisagens sublime. Há o lado mais emocional, sempre presente, e em constante transposição com a praia e os aromas do último verão. É difícil chegar-se ao fim e não se sentir uma espécie de vazio (positivo).
  • 7º: About a Boy - Nick Hornby. Este livro é a prova de que um livro pode ser um amigo. Nos momentos mais complicados da nossa vida, o livro que estamos a ler nesse momento pode sofrer com a atenção que não lhe damos. Mas também pode ser uma das âncoras que mais nos puxam para cima. Por me ter feito rir tanto, e por ter sido uma leitura chave para um momento complicado e cansativo, um escape à realidade durante umas semanas em que andei também eu num mundo à parte, a leitura ficou-me verdadeiramente marcada.
  • 6º: Sunset Park - Paul Auster. Ainda não tinha lido nenhum livro deste autor, embora a curiosidade não fosse pouca. Não me desiludiu nada. A obra entrelaça a vida de uma série de personagens algo diferentes entre si, e carrega um peso melancólico tipicamente urbano digno de respeito. A narração é sóbria e cativante, e faz parte daquele conjunto de obras que nos fazem subir a inspiração ao topo. Vale a pena descobrir esta Nova Iorque de Paul Auster.
  • 5º: 1Q84 (Livro 1) - Haruki Murakami. A primeira parte desta longa aventura pelo universo de Murakami, o seu mais recente trabalho, tem tudo o que de bom o autor nos tem vindo a oferecer nos seus livros. Conversas absolutamente banais, divagações que frequentemente se repetem, personagens normalíssimas com direito ao seu lado mais excêntrico, e uma narrativa que tem tudo para se tornar numa das mais envolventes que já li. Vamos ver como prossegue a história nos próximos volumes, mas só a leitura deste já teria sido suficiente para mim - excelente.
  • 4º: O Punhal do Soberano / A Corte dos Traidores - Robin Hobb. Estes dois livros, que na sua versão original formam apenas um, são a confirmação de que Robin Hobb é mestra na arte da fantasia. Embora algo lentos, essa extensão de tempo nos livros permite-nos estabelecer vínculos com os locais e com as personagens. Estou em pulgas para ler o terceiro e último volume desta trilogia, que prima por tantos atributos que é difícil enumerá-los nesta breve opinião. Viva a boa literatura fantástica!
  • 3º: Norwegian Wood - Haruki Murakami. É uma das obras de Murakami que representou um dos maiores fenómenos de venda no Japão, com 4 milhões de exemplares. O autor considerava este livro uma experiência num estilo à parte, que não tencionava voltar a repetir. É verdade que talvez se encontre aqui um lado mais romântico e juvenil da escrita de Murakami, mas foi uma leitura melodramática poderosa, com momentos de beleza íntima muito particulares. Memorável.
  • 2º: Uma Viagem à Índia - Gonçalo M. Tavares. Uma epopeia contemporânea que reúne, ao longos das suas páginas, inúmeros temas e reflexões que se podem fazer sobre a sociedade e o indivíduo. É difícil ter-se a noção da quantidade de questões que são abordadas ao longo das centenas de estrofes, mas o sentimento que perdura no leitor depois de terminada a obra é que está perante uma construção sólida, emocionante (à sua maneira, porque a escrita de Tavares não se prende propriamente na emoção), e muito, muito boa. Incrível, mesmo.
  • 1º: Dança, Dança, Dança - Haruki Murakami. Este é o meu modelo de um livro que podia ter facilmente umas 5.000 páginas, e nem por isso me cansaria de o ler. As cenas sucedem-se com uma naturalidade sobrenatural, os diálogos sobre tudo e mais alguma coisa, a vida que se vai desenrolando ao longo de algumas semanas, e o mundo vai dançando as suas danças habituais sem por isso se afastar muito da sua órbitra. Esta foi muito provavelmente a minha obra preferida de Murakami, e, se calhar, o livro que mais gostei de ler na minha vida. Com Murakami, quanto mais simples melhor resulta. E este livro não se aventura para muito longe, vai andando à deriva. Faz-me apetecer entrar por ali dentro e assistir aos acontecimentos, sempre com serenidade. Há magia nestas páginas, é a única solução possível!

Como poderão imaginar, esta lista dos dez que mais gostei não é fixa. Daqui a um ano - ou melhor, daqui a dois meses - eu podia refazê-la completamente, retirar-lhe uns três ou quatro e colocar outros no lugar. À medida que me afasto das leituras no tempo, as memórias ora a prejudicam ora a benefeciam. Os livros perdem e ganham com o tempo.

Passando para as estatísticas propriamente ditas, como é meu hábito: em 2011 li 6750 páginas, num total de 25 livros. O que significa que li uma média de 18 páginas por dia. O maior livro que li tinha 918 páginas, o mais pequeno tinha 60, e a média do tamanho dos livros foi de 270 páginas. A estação do ano em que li mais foi o Inverno (35% das leituras), seguido do Outono, da Primavera e do Verão (21%). Na primeira metade do ano li 56% do total de páginas lidas. A média das notas nas críticas foi de 7,32 (em 10).

Falando de autores: os autores que mais li este ano foram Haruki Murakami e Gonçalo M. Tavares, com 4 livros cada um. Descobri uma série de autores novos: Paul Auster, Ueda Akinari, Banana Yoshimoto, Nick Hornby, Chico Buarque, Pedro Sena-Lino, Luís de Sttau Monteiro, Athol Fugard, Boris Vian e Isabel Ricardo Amaral. Ou seja, quase metade dos livros que li este ano foram de autores que nunca tinha lido. Destaco principalmente Paul Auster e Banana Yoshimoto entre as descobertas.

O ano passado tinha apresentado 4 objectivos para este ano: não consegui ler as 8.000 páginas; mas descobri novos autores, consegui que um terço das leituras fossem de autores de língua portuguesa, e mantive a minha actividade no Lydo e Opinado e no Murakami PT.

Objectivos para 2012: estou confiante em chegar às 10.000 páginas (os transportes vão ajudar este ano!); quero chegar aos 30 livros lidos; um terço dos livros serem de autores de língua portuguesa; descobrir novos autores; manter a minha actividade aqui no blog, espero conseguir!

E é isto. Não comecei o ano com o pé direito em termos de leituras, mas estou com toda a confiança para inverter a tendência destas três primeiras semanas. Venha 2012, venham essas 10.000 páginas que me proponho a ler. E que sejam 10.000 boas páginas.



Tiago

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Crítica - Adeus, Tsugumi


Título: Adeus, Tsugumi
Autor: Banana Yoshimoto
Tradutor: António Barrento
Editora: Cavalo de Ferro
Nº de Páginas: 160
Preço Editor: 12,80€

Sinopse: «Desde a sua nascença Tsugumi possuía um corpo frágil e vulnerável. Os médicos anunciaram que ela iria morrer jovem e a família preparou-se para o pior. Sob essa ameaça, aqueles que a rodeavam estragaram-na com mimos. Tsugumi desenvolveu uma personalidade resoluta e insolente. Era maldosa e rude, tinha uma língua retorcida, era egoísta, mimada e de uma sabedoria maliciosa... Era tal qual um demónio.»


Transportado para uma praia japonesa de uma pacata vila pescatória. E depois, a partir daqui, tanto faz que seja manhã, tarde, ou noite, que a magia já está toda lá. A partir do momento que Yoshimoto consegue fazer-me isto com a sua obra «Adeus, Tsugumi», tem um leitor conquistado. Porque esta questão dos transportes às vezes basta por si só: se consegue criar uma relação emocional entre o cenário da história e quem a está a ler, pode ser um trunfo precioso. Pode dar-se o caso de as personagens não nos cativarem particularmente - não senti especial proximidade com nenhuma ao ler este livro - ou de a história também não ser tão especial como à partida prometeria - a minha relação com o enredo é pouco entusiasmada - mas como a autora realiza com sucesso a missão de transporte, gostei do tempo que passei com estas páginas.

Depois de uma primeira fase da história ligeiramente mortiça, em que demoramos um pouco a habituarmo-nos ao estilo de Yoshimoto (é verdade que já tinha lido um livro dela há alguns meses, mas tinha ficado com uma opinião muito indefinida). Mas rapidamente esta sensação de que somos levados para lá nos vai invadindo. A humidade e o ar salgado de que a protagonista sente tanta falta. As imagens que tem da vila de onde vai partir, e da qual sente já saudades. Poderia destacar a expressão de «perda eminente» como a que possivelmente caracterizará melhor a obra: a vila, a casa do passado, a própria Tsugumi que é doente desde pequenina.

Tentando encontrar elementos a que me agarrar, descortino os momentos em que as personagens deambulam pelas suas vidas naquele Verão. Os ambientes descritos, destacando principalmente o meu capítulo preferido - "Festival". É daqueles extractos de um romance que davam um conto por si só, que captam um determinada energia e a fazem resplandecer de forma especial. Os longos passeios pela noite fora, e a ameaça de Tsugumi poder adoecer. As manhãs de sol luminosas, e a ameaça de Tsugumi poder escapulir-se como tantas vezes faz. À noite, na praia, juntos à fogueira, numa cena a fazer lembrar quase um daqueles livros de aventuras juvenis da Enyd Blyton, e a ameaça do cão voltar a desaparecer. Os momentos são efémeros e vão passar-se todos com uma rapidez impressionante; ao mesmo tempo que são gravados na cabeça de Maria com uma lentidão igualmente intrigante.

Não posso evitar fazer uma referência ao trabalho de tradução, ainda que não saiba exactamente se hei de opinar positiva ou negativamente. Ou o estilo de Yoshimoto é assim mesmo, meio desiquilibrado em alguns momentos, ou então talvez seja consequência do trabalho do tradutor. Nem sempre achei que as passagens estavam escritas da melhor forma, mas talvez esteja a ser injustiça da minha parte. Tendo sido traduzido do japonês, tem um mérito próprio, uma aproximação valiosa. O trabalho de edição pecava por algumas gralhas em termos de parágrafos e travessões, mas justifica-se por ser uma primeira edição.

Em suma, um livro que nem sempre consegue manter em cima um grau de entusiasmo elevado para quem o está a ler. Mas com momentos poderosos, e uma capacidade de transporte para o cenário que achei das mais dolorosas que já li - dolorosas neste sentido positivo que é colocarmo-nos lado a lado com a personagem principal, já antevendo o momento em que vamos ser separados daquele mundo. Adeus, Tsugumi, e a vila que é a tua casa.

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

domingo, 27 de novembro de 2011

Crítica - 1Q84


Título: 1Q84 (Livro 1)
Autor: Haruki Murakami
Tradutoras: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 490
Preço Editor: 18€

Sinopse: Um mundo aparentemente normal, duas personagens - Aomame, uma mulher independente, professora de artes marciais, e Tengo, professor de matemática - que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Em 1Q84, Haruki Murakami constrói um universo romanesco em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Onde acaba o Japão e começa o admirável mundo novo em que vivemos? Uma ficção que ilumina de forma transversal a aldeia global em que vivemos.


O primeiro capítulo desta obra é condição suficiente para o vínculo Murakami-Eu ser criado. E isto é de louvar. Primeiro, porque a minha experiência relativa aos livros deste autor japonês é a de começos pouco entusiasmantes, exceptuando um ou dois casos. O primeiro volume de 1Q84 tem início no interior de um táxi preso num congestionamento de trânsito. Toca na rádio a Sinfonietta, obra clássica de Leos Janacek. A mulher está com pressa, e não tem vontade de esperar horas naquela fila. E estão lançados os dados para aquela que é, provavelmente, a cena inicial mais épica de toda a carreira de Haruki Murakami enquanto romancista. O mérito de um excelente primeiro capítulo: no mínimo, já tem este prémio.

A obra intercala capítulos narrados pelas duas personagens principais: Aomame, e Tengo. Tenho uma opinião muito clara... na primeira fase do livro, os capítulos dela são muito mais fortes que o dele. O que não significa que as coisas não mudem de figura mais à frente. Sentia até um certo anti-clímax quando chegava a um capítulo de Tengo: "pronto, meia-hora sem Aomame".

Os cenários que Murakami cria são fabulosos porque nos levam para lá. A magia respira-se com facilidade. Destaco a cena da estufa das borboletas. Os diálogos entre as personagens são óptimos, fluem com uma consistência assustadora. E, de tão naturais são, que conseguem mexer com as nossas emoções, ao ponto de me fazerem rir tantas vezes. Esta é uma característica que me interessa muito em Murakami. O ambiente é de realismo fantástico, respira-se magia, mas magia sóbria: e, no entanto, consegue fazer-me rir tantas vezes. Destaco como exemplo o ensaio para a conferência de imprensa!

Depois desce às zonas mais profundas. A violência doméstica, por exemplo. As seitas religiosas e o mistério que criam à sua volta. Aventura-se pelos caminhos do que é realidade e do que é imaginação. É difícil fazer ver a minha opinião: com Murakami é particularmente difícil. A tradução é envolvente e torna a obra de leitura extremamente agradável: o trabalho conjunto de Maria João Lourenço e de Maria João da Rocha Afonso resulta numa harmonia digna de nota - uma harmonia murakamiana que já é tão típica para os leitores portugueses.

No entanto, e apesar de todos estes pontos positivos, e apesar de uma parte de mim ter ficado a morar naquele universo enquanto aguardo pelo lançamento do volume 2 para Março, e apesar daquele mundo ter tanta coisa interessante por contar, não foi uma experiência de imersão tão forte como já tive em alguns outros livros dele. Talvez por não se cravar de forma tão funda no universo das não-explicações. Talvez por abordar temáticas demasiado reais como a questão das seitas e da violência doméstica. Talvez pela insuficiente exploração do lado solitário das personagens... não sei, mas Aomame e Tengo não me conquistaram totalmente. Fico à espera do próximo com o entusiasmo em níveis altos, mas... mas...

É difícil falar de 1Q84 mas é fácil ler 1Q84. Somos levados a passear por uma Tóquio alternativa, viva, não tão vibrante como a de After Dark, mas ainda assim entusiasmante. Temos as cenas de ternura elevadas ao expoente máximo, como a leitura de Tchékov em voz alta. Temos as cenas de fazer crescer água na boca, como o jantar no restaurante de luxo. Temos personagens de todos os géneros e feitios, uma obra verdadeiramente diversificada neste aspecto! E uma linguagem que nos remete constantemente para imagens ilustrativas dos pensamentos das personagens... ficamos perturbados pelo comportamento de algumas delas. O mistério é outra das componentes, mas não gosto de associar essa palavra à obra do autor, parece-me sempre demasiado redutor. Duas personagens que passam para lá da linha do razoável e vão parar a não sabem onde, sem saírem do sítio. Já não estamos em 1984.

Nota (0/10): 8 - Muito Bom.


Tiago

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Atenção: o Lydo e Opinado é incredível

Hoje, num passeio pelo mundo dos blogs literários, encontrei por acaso um artigo do blog The Taste of Orange, assinado pelo João X, que fazia referência aqui ao Lydo e Opinado. O título do artigo era "Como perder credibilidade rapidamente", e podem lê-lo carregando aqui. Depois de lerem o artigo regressem novamente, por favor. João X, segue a minha resposta, demasiado extensa para a ter colocado sob a forma de comentário (o blogger impediu). De qualquer das formas, achei que seria construtivo publicá-la aqui no Lydo.


A credibilidade do Lydo e Opinado é nula. A única coisa a que o blog é fiel é a opinião imediata e não reflectida dos livros que são lidos. Mesmo neste ponto não posso falar por ambos os autores. Eu, Tiago, digo isto. Escrevo as opiniões de acordo com o que sinto no momento em que acabo de o escrever. Atribuo uma classificação de 0 a 10. A credibilidade do meu blog é nula, e continuaria a ser nula mesmo que desse 10 a “Crepúsculo” de Stephanie Meyer e 1 a “Sputnik, Meu Amor” de Haruki Murakami. Nula. Não tenho qualquer doutoramento, mestrado, licenciatura sequer. A minha idade: 18 anos. Está vista a credibilidade que alguém poderia andar à procura – se é essa credibilidade que se procura no Lydo e Opinado, não vão encontrar. Se a credibilidade que se anda à procura são notas elevadas atribuídas a livros clássicos ou de autores credíveis como Murakami, e notas baixas relativas a Stephanie Meyer e às suas sagas de vampiros, não vão encontrar isso nas minhas opiniões no Lydo e Opinado. O Lydo e Opinado é incredível até à ponta dos cabelos – se os blogs os tivessem. 

1º Ponto – O blog tem actualmente dois autores: o Tiago e a Sara. Quando faz a comparação de notas atribuídas a “Crepúsculo” e “Sputnik, Meu Amor”, está de facto a circunscrever –se às minhas opiniões. Mas cuidado quando diz que quem leu Jane Austen, Victor Hugo, Tolkien, devia dar más notas a José Rodrigues dos Santos e Dan Brown. Não li nenhum destes dois autores, quanto mais atribuir-lhes más notas. Um deles opinou a Sara, o outro a Patrícia. Não que tivesse qualquer problema em os ler, desde que simplesmente me apetecesse. 

2º Ponto - O tempo. As datas em que as críticas foram feitas. É preciso ter-se cuidado para não se colocar os pés pelas mãos. Aquando das minhas duas leituras da Saga da Luz e da Escuridão de Stephanie Meyer, nunca me tinha passado pelas mãos nenhum livro de Haruki Murakami, ou outros autores que refere: Victor Hugo, Jane Austen, J. R. R. Tolkien. Ora quando me é dito que era merecido que “após” termos lido estes autores da elite literária fosse dado o devido crédito (nulo) aos livros dos vampiros, está-se a tropeçar no discurso. A ordem cronológica é muito importante. 

Ainda na questão do tempo, muito importante. As datas das críticas são para ser tidas em consideração. A opinião sobre um dado livro, de um leitor novato e de um doutorado em literatura, não será em princípio a mesma. Li “Crepúsculo” em Outubro de 2008, e “Sputnik, Meu Amor” em Abril de 2009. Estes seis meses, na vida de um rapaz de quinze anos, pelo menos na minha vida, foram importantes. Hoje consigo avaliar de forma muito mais palpável a revolução que, concretamente, o livro “Sputnik, Meu Amor” teve na minha vida de leitor. Mas a nota 9 em 10 não parece muito mal dada, pois não? A questão aqui é o 8 a Stephanie Meyer. Eu dei nota 10 a “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell, o que é um perfeito disparate, porque na verdade esse livro é um 4 em 10, provavelmente. Com os milhares e milhares de livros que ainda tenciono ler ao longo da minha vida, encontrarei sem dúvida obras muito mais notáveis que “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” – altura em que me envergonharei da nota excessivamente alta que dei a este? Não. Porquê? Porque não é preciso ter-se vergonha nestas questões. O tecto da literatura é medido pelo livro mais “alto” que lemos até um dado momento. Se é pessoal, se é credível, tem de se medir pela opinião pessoal. Eu não posso dar nota 4 a “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell, embora, muito possivelmente (quem sabe? Quem sabe?), existam muitos livros bem melhores que esse, ainda por publicar, ou já publicados, não interessa muito. Então… qual é o sentido? 

Quando me surge a curiosidade de ir reler criticas minhas aos arquivos do Lydo e Opinado, claro que me surpreendo. Claro que é frustrante nalguns casos (não devia ser! Mas à vezes… é). O crescimento de um leitor implica situações destas. A escolha está em ter-se um blog de críticas literárias “incredíveis”, e não se ter blog de todo. Devia ser visto como algo positivo os jovens, mesmo as crianças, começassem cedo um registo das suas leituras, e as opiniões que têm. Apuramento crítico, crescimento crítico. Classificar a existência de críticas de jovens imaturos como algo negativo é, desculpem-me a expressão, algo já por si imaturo. Uma coisa é certa: as minhas opiniões actuais, as minhas notas 10 em 10 a Haruki Murakami, George Orwell, etc., são representativas da minha imaturidade. São as opiniões de um jovem de 18 anos que só lê uns vinte e cinco, trinta livros por ano. Com as minhas mutações, os meus gostos, uma abertura inconstante a todas as formas de literatura – clássicos, bestsellers, lusófonos, traduzidos, poesia, teatro, ensaios, contos. Apenas com uma resistência inultrapassável aos “romances cor-de-rosa”, mas com um bocado de esforço creio que possa ser ultrapassado. Ainda não cheguei à fase em que só leio literatura “respeitável”, e espero nunca chegar a esse ponto, a essa cristalização artificial no que os bons críticos e os bons leitores dizem ser bom. Espero não atingir esse nível de credibilidade. Isto leva-nos directamente ao terceiro ponto, já tenho estado a falar dele. 

3º Ponto – Li há dias num outro blog que sigo com muita atenção (Que a Estante nos Caia em Cima!) um artigo com o qual discordei em grande parte. Defendia uma ideia muito restrita sobre o conceito de boa literatura. Não dá. Não funciona. E, agora, vou cometer um atentado contra mim próprio. Eu, provavelmente um dos leitores mais fiéis que Haruki Murakami terá em Portugal, que adoro cada um dos seus livros, incríveis, completamente mágicos; eu, um leitor que tem os vampiros pelos cabelos, e nunca cheguei a ver nenhuma adaptação cinematográfica sobre o tema por estar bastante irritado com o hype que os livros da Meyer estavam a ter; eu, digo e afirmo, colocando em causa toda a minha credibilidade (que já se perdeu mesmo antes de começar o texto, credibilidade zero): 

Quem é que nos diz que a literatura de Murakami é melhor que a de Stephanie Meyer? Os críticos? Os leitores? Pois vos garanto que não é melhor. Não é. Não há livros melhores e livros piores de forma absoluta. Há livros melhores para uns leitores, e livros melhores para outros. Cada leitor é um universo, cada leitor deveria ir construindo esse universo à medida que vai descobrindo os livros que vai lendo. O que nem sempre acontece! Temos opiniões pré-formatadas sobre um clássico, sobre um bestseller. Queremos sentir-nos integrados num determinado grupo social, é isso? Queremos ser vistos como leitores credíveis, leitores cultos, dos que não caem em modas? Pois vos digo que a moda desta boa literatura é tão estúpida como a moda dos bestsellers – isto é, não é estúpida de todo. Estupidez: zero. A credibilidade é definida pelos críticos, dizem-me… têm razão. Daí o Lydo e Opinado ser incredível. No fundo, no fundo, concordamos neste ponto. 

Deixem-me discordar a cem por cento de Oscar Wilde, que, sem qualquer dúvida, tem sete mil vezes a minha credibilidade. «There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written or badly written». Oscar Wilde terá toda a razão do mundo, mas eu, como pessoa, não lha atribuo da minha parte. Os livros são escritos por uma pessoa para um determinado grupo de pessoas que gostem – às vezes esses grupos são nulos, ninguém os lê. Por vezes são pequenos, as elites da literatura, os nichos de mercado. Por vezes são grandes, os bestsellers. Ora digam-me lá se os melhores livros não são os que atingem uma faixa maior de pessoas? Teoricamente, até serão! Se conseguem atingir mais gente, mudar a vida de mais pessoas, tornar agradáveis os dias de uma maior quantidade de leitores! São a má literatura? Por muito que goste de Haruki Murakami, por pouco que goste de Stephanie Meyer, não posso concordar. 

De qualquer das formas, aqui fica registado: pelo que toca às minhas opiniões, o Lydo e Opinado tem credibilidade zero. As pessoas que vão ler as minhas opiniões no blog, fiquem avisadas: as críticas que escrevo este mês estão actualizadas na sua sinceridade; as e há dois anos e meio atrás, provavelmente reflectem uma opinião que já mudou. Ou não. Se houvesse mais discernimento não haveria tanto lixo à venda nas livrarias, disse o João X. Não chamem lixo, por favor, ao objecto que faz da minha vida um lugar mais agradável de se estar, quer esteja bem ou mal escrito, quer seja credível ou não: UM LIVRO.


Tiago
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