Hoje, num passeio pelo mundo dos blogs literários, encontrei por acaso um artigo do blog The Taste of Orange, assinado pelo João X, que fazia referência aqui ao
Lydo e Opinado. O título do artigo era "Como perder credibilidade rapidamente", e
podem lê-lo carregando aqui. Depois de lerem o artigo regressem novamente, por favor. João X, segue a minha resposta, demasiado extensa para a ter colocado sob a forma de comentário (o blogger impediu). De qualquer das formas, achei que seria construtivo publicá-la aqui no
Lydo.
A credibilidade do Lydo e Opinado é nula. A única coisa a que o blog é fiel é a opinião imediata e não reflectida dos livros que são lidos. Mesmo neste ponto não posso falar por ambos os autores. Eu, Tiago, digo isto. Escrevo as opiniões de acordo com o que sinto no momento em que acabo de o escrever. Atribuo uma classificação de 0 a 10. A credibilidade do meu blog é nula, e continuaria a ser nula mesmo que desse 10 a “Crepúsculo” de Stephanie Meyer e 1 a “Sputnik, Meu Amor” de Haruki Murakami. Nula. Não tenho qualquer doutoramento, mestrado, licenciatura sequer. A minha idade: 18 anos. Está vista a credibilidade que alguém poderia andar à procura – se é essa credibilidade que se procura no Lydo e Opinado, não vão encontrar. Se a credibilidade que se anda à procura são notas elevadas atribuídas a livros clássicos ou de autores credíveis como Murakami, e notas baixas relativas a Stephanie Meyer e às suas sagas de vampiros, não vão encontrar isso nas minhas opiniões no Lydo e Opinado. O Lydo e Opinado é incredível até à ponta dos cabelos – se os blogs os tivessem.
1º Ponto – O blog tem actualmente dois autores: o Tiago e a Sara. Quando faz a comparação de notas atribuídas a “Crepúsculo” e “Sputnik, Meu Amor”, está de facto a circunscrever –se às minhas opiniões. Mas cuidado quando diz que quem leu Jane Austen, Victor Hugo, Tolkien, devia dar más notas a José Rodrigues dos Santos e Dan Brown. Não li nenhum destes dois autores, quanto mais atribuir-lhes más notas. Um deles opinou a Sara, o outro a Patrícia. Não que tivesse qualquer problema em os ler, desde que simplesmente me apetecesse.
2º Ponto - O tempo. As datas em que as críticas foram feitas. É preciso ter-se cuidado para não se colocar os pés pelas mãos. Aquando das minhas duas leituras da Saga da Luz e da Escuridão de Stephanie Meyer, nunca me tinha passado pelas mãos nenhum livro de Haruki Murakami, ou outros autores que refere: Victor Hugo, Jane Austen, J. R. R. Tolkien. Ora quando me é dito que era merecido que “após” termos lido estes autores da elite literária fosse dado o devido crédito (nulo) aos livros dos vampiros, está-se a tropeçar no discurso. A ordem cronológica é muito importante.
Ainda na questão do tempo, muito importante. As datas das críticas são para ser tidas em consideração. A opinião sobre um dado livro, de um leitor novato e de um doutorado em literatura, não será em princípio a mesma. Li “Crepúsculo” em Outubro de 2008, e “Sputnik, Meu Amor” em Abril de 2009. Estes seis meses, na vida de um rapaz de quinze anos, pelo menos na minha vida, foram importantes. Hoje consigo avaliar de forma muito mais palpável a revolução que, concretamente, o livro “Sputnik, Meu Amor” teve na minha vida de leitor. Mas a nota 9 em 10 não parece muito mal dada, pois não? A questão aqui é o 8 a Stephanie Meyer. Eu dei nota 10 a “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell, o que é um perfeito disparate, porque na verdade esse livro é um 4 em 10, provavelmente. Com os milhares e milhares de livros que ainda tenciono ler ao longo da minha vida, encontrarei sem dúvida obras muito mais notáveis que “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” – altura em que me envergonharei da nota excessivamente alta que dei a este? Não. Porquê? Porque não é preciso ter-se vergonha nestas questões. O tecto da literatura é medido pelo livro mais “alto” que lemos até um dado momento. Se é pessoal, se é credível, tem de se medir pela opinião pessoal. Eu não posso dar nota 4 a “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell, embora, muito possivelmente (quem sabe? Quem sabe?), existam muitos livros bem melhores que esse, ainda por publicar, ou já publicados, não interessa muito. Então… qual é o sentido?
Quando me surge a curiosidade de ir reler criticas minhas aos arquivos do Lydo e Opinado, claro que me surpreendo. Claro que é frustrante nalguns casos (não devia ser! Mas à vezes… é). O crescimento de um leitor implica situações destas. A escolha está em ter-se um blog de críticas literárias “incredíveis”, e não se ter blog de todo. Devia ser visto como algo positivo os jovens, mesmo as crianças, começassem cedo um registo das suas leituras, e as opiniões que têm. Apuramento crítico, crescimento crítico. Classificar a existência de críticas de jovens imaturos como algo negativo é, desculpem-me a expressão, algo já por si imaturo. Uma coisa é certa: as minhas opiniões actuais, as minhas notas 10 em 10 a Haruki Murakami, George Orwell, etc., são representativas da minha imaturidade. São as opiniões de um jovem de 18 anos que só lê uns vinte e cinco, trinta livros por ano. Com as minhas mutações, os meus gostos, uma abertura inconstante a todas as formas de literatura – clássicos, bestsellers, lusófonos, traduzidos, poesia, teatro, ensaios, contos. Apenas com uma resistência inultrapassável aos “romances cor-de-rosa”, mas com um bocado de esforço creio que possa ser ultrapassado. Ainda não cheguei à fase em que só leio literatura “respeitável”, e espero nunca chegar a esse ponto, a essa cristalização artificial no que os bons críticos e os bons leitores dizem ser bom. Espero não atingir esse nível de credibilidade. Isto leva-nos directamente ao terceiro ponto, já tenho estado a falar dele.
3º Ponto – Li há dias num outro blog que sigo com muita atenção (Que a Estante nos Caia em Cima!) um artigo com o qual discordei em grande parte. Defendia uma ideia muito restrita sobre o conceito de boa literatura. Não dá. Não funciona. E, agora, vou cometer um atentado contra mim próprio. Eu, provavelmente um dos leitores mais fiéis que Haruki Murakami terá em Portugal, que adoro cada um dos seus livros, incríveis, completamente mágicos; eu, um leitor que tem os vampiros pelos cabelos, e nunca cheguei a ver nenhuma adaptação cinematográfica sobre o tema por estar bastante irritado com o hype que os livros da Meyer estavam a ter; eu, digo e afirmo, colocando em causa toda a minha credibilidade (que já se perdeu mesmo antes de começar o texto, credibilidade zero):
Quem é que nos diz que a literatura de Murakami é melhor que a de Stephanie Meyer? Os críticos? Os leitores? Pois vos garanto que não é melhor. Não é. Não há livros melhores e livros piores de forma absoluta. Há livros melhores para uns leitores, e livros melhores para outros. Cada leitor é um universo, cada leitor deveria ir construindo esse universo à medida que vai descobrindo os livros que vai lendo. O que nem sempre acontece! Temos opiniões pré-formatadas sobre um clássico, sobre um bestseller. Queremos sentir-nos integrados num determinado grupo social, é isso? Queremos ser vistos como leitores credíveis, leitores cultos, dos que não caem em modas? Pois vos digo que a moda desta boa literatura é tão estúpida como a moda dos bestsellers – isto é, não é estúpida de todo. Estupidez: zero. A credibilidade é definida pelos críticos, dizem-me… têm razão. Daí o Lydo e Opinado ser incredível. No fundo, no fundo, concordamos neste ponto.
Deixem-me discordar a cem por cento de Oscar Wilde, que, sem qualquer dúvida, tem sete mil vezes a minha credibilidade. «There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written or badly written». Oscar Wilde terá toda a razão do mundo, mas eu, como pessoa, não lha atribuo da minha parte. Os livros são escritos por uma pessoa para um determinado grupo de pessoas que gostem – às vezes esses grupos são nulos, ninguém os lê. Por vezes são pequenos, as elites da literatura, os nichos de mercado. Por vezes são grandes, os bestsellers. Ora digam-me lá se os melhores livros não são os que atingem uma faixa maior de pessoas? Teoricamente, até serão! Se conseguem atingir mais gente, mudar a vida de mais pessoas, tornar agradáveis os dias de uma maior quantidade de leitores! São a má literatura? Por muito que goste de Haruki Murakami, por pouco que goste de Stephanie Meyer, não posso concordar.
De qualquer das formas, aqui fica registado: pelo que toca às minhas opiniões, o Lydo e Opinado tem credibilidade zero. As pessoas que vão ler as minhas opiniões no blog, fiquem avisadas: as críticas que escrevo este mês estão actualizadas na sua sinceridade; as e há dois anos e meio atrás, provavelmente reflectem uma opinião que já mudou. Ou não. Se houvesse mais discernimento não haveria tanto lixo à venda nas livrarias, disse o João X. Não chamem lixo, por favor, ao objecto que faz da minha vida um lugar mais agradável de se estar, quer esteja bem ou mal escrito, quer seja credível ou não: UM LIVRO.
Tiago