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domingo, 27 de novembro de 2011

Crítica - 1Q84


Título: 1Q84 (Livro 1)
Autor: Haruki Murakami
Tradutoras: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 490
Preço Editor: 18€

Sinopse: Um mundo aparentemente normal, duas personagens - Aomame, uma mulher independente, professora de artes marciais, e Tengo, professor de matemática - que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Em 1Q84, Haruki Murakami constrói um universo romanesco em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Onde acaba o Japão e começa o admirável mundo novo em que vivemos? Uma ficção que ilumina de forma transversal a aldeia global em que vivemos.


O primeiro capítulo desta obra é condição suficiente para o vínculo Murakami-Eu ser criado. E isto é de louvar. Primeiro, porque a minha experiência relativa aos livros deste autor japonês é a de começos pouco entusiasmantes, exceptuando um ou dois casos. O primeiro volume de 1Q84 tem início no interior de um táxi preso num congestionamento de trânsito. Toca na rádio a Sinfonietta, obra clássica de Leos Janacek. A mulher está com pressa, e não tem vontade de esperar horas naquela fila. E estão lançados os dados para aquela que é, provavelmente, a cena inicial mais épica de toda a carreira de Haruki Murakami enquanto romancista. O mérito de um excelente primeiro capítulo: no mínimo, já tem este prémio.

A obra intercala capítulos narrados pelas duas personagens principais: Aomame, e Tengo. Tenho uma opinião muito clara... na primeira fase do livro, os capítulos dela são muito mais fortes que o dele. O que não significa que as coisas não mudem de figura mais à frente. Sentia até um certo anti-clímax quando chegava a um capítulo de Tengo: "pronto, meia-hora sem Aomame".

Os cenários que Murakami cria são fabulosos porque nos levam para lá. A magia respira-se com facilidade. Destaco a cena da estufa das borboletas. Os diálogos entre as personagens são óptimos, fluem com uma consistência assustadora. E, de tão naturais são, que conseguem mexer com as nossas emoções, ao ponto de me fazerem rir tantas vezes. Esta é uma característica que me interessa muito em Murakami. O ambiente é de realismo fantástico, respira-se magia, mas magia sóbria: e, no entanto, consegue fazer-me rir tantas vezes. Destaco como exemplo o ensaio para a conferência de imprensa!

Depois desce às zonas mais profundas. A violência doméstica, por exemplo. As seitas religiosas e o mistério que criam à sua volta. Aventura-se pelos caminhos do que é realidade e do que é imaginação. É difícil fazer ver a minha opinião: com Murakami é particularmente difícil. A tradução é envolvente e torna a obra de leitura extremamente agradável: o trabalho conjunto de Maria João Lourenço e de Maria João da Rocha Afonso resulta numa harmonia digna de nota - uma harmonia murakamiana que já é tão típica para os leitores portugueses.

No entanto, e apesar de todos estes pontos positivos, e apesar de uma parte de mim ter ficado a morar naquele universo enquanto aguardo pelo lançamento do volume 2 para Março, e apesar daquele mundo ter tanta coisa interessante por contar, não foi uma experiência de imersão tão forte como já tive em alguns outros livros dele. Talvez por não se cravar de forma tão funda no universo das não-explicações. Talvez por abordar temáticas demasiado reais como a questão das seitas e da violência doméstica. Talvez pela insuficiente exploração do lado solitário das personagens... não sei, mas Aomame e Tengo não me conquistaram totalmente. Fico à espera do próximo com o entusiasmo em níveis altos, mas... mas...

É difícil falar de 1Q84 mas é fácil ler 1Q84. Somos levados a passear por uma Tóquio alternativa, viva, não tão vibrante como a de After Dark, mas ainda assim entusiasmante. Temos as cenas de ternura elevadas ao expoente máximo, como a leitura de Tchékov em voz alta. Temos as cenas de fazer crescer água na boca, como o jantar no restaurante de luxo. Temos personagens de todos os géneros e feitios, uma obra verdadeiramente diversificada neste aspecto! E uma linguagem que nos remete constantemente para imagens ilustrativas dos pensamentos das personagens... ficamos perturbados pelo comportamento de algumas delas. O mistério é outra das componentes, mas não gosto de associar essa palavra à obra do autor, parece-me sempre demasiado redutor. Duas personagens que passam para lá da linha do razoável e vão parar a não sabem onde, sem saírem do sítio. Já não estamos em 1984.

Nota (0/10): 8 - Muito Bom.


Tiago

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Crítica - Norwegian Wood


Título: Norwegian Wood
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Alberto Gomes
Editora: Civilização Editora
Nº de Páginas: 350
Preço Editor: 22,20€

Sinopse: «Ao ouvir a sua música preferida dos Beatles, Toru Watanabe recorda-se do seu primeiro amor, Naoko, a namorada do seu melhor amigo Kizuki. Imediatamente regressa aos seus anos de estudante em Tóquio, à deriva num mundo de amizades inquietas, sexo casual, paixão, perda e desejo – quando uma impetuosa jovem chamada Midori entra na sua vida e ele tem de escolher entre o futuro e o passado.»


Parti para este livro com uma imagem de tal forma estereotipada que não fazia a mínima ideia do que ia encontrar nele. Frequentemente é dito que «Norwegian Wood» é o mais romântico dos livros de Haruki Murakami: a aproximar-se dos romances escritos para jovens com as hormonas aos saltos. O próprio Murakami afirmou que «Norwegian Wood» foi uma experiência isolada, a não tenciona voltar ao mesmo género. Por outro lado, a obra é o maior dos fenómenos de venda no Japão. E, um pouco por todo o mundo, são imensos os leitores que dizem que «Norwegian Wood» é o seu preferido. Com um começo algo estranho e anticlimático, como penso ser comum neste autor, debrucei-me sobre um mundo que pensava desconhecer.

Enganei-me. O Haruki Murakami pode dizer o que quiser. Esta não é uma tentativa isolada, e sim uma tentativa integrada entre os seus restantes livros. Não temos em «Norwegian Wood» uma mudança abrupta de estilo, nem de perto nem de longe. Temos a contínua voz deste contador de histórias. A começar em tudo, a acabar em tudo. Na personagem principal, igual a tantas outras de Murakami  (talvez um pouco mais... jovem que o normal). Nas personagens secundárias que o rodeiam, mulheres com histórias tão diversas. No elementos western sempre presentes, músicas, livros, coca-colas. Nos tremendamente bem caracterizados momentos de solidão, e os de paz, e os de vida quotidiana que vai correndo sem que nada ocorra. Murakami retrata a vida de uma prespectiva melancólica.

Foi nesta obra que li um dos mais poderosos capítulos de Haruki Murakami, e isto depois de uns dez livros dele lidos. O capítulo 6 de «Norwegian Wood», este titânico capítulo 6, com 90 páginas (a contrastar com os restantes, que andam à volta das 20, 30 páginas). Um relato de um mundo completamente à parte, mas bem real. Neste preciso instante, há pessoas a viverem esta paz nas suas vidas, separadas de tudo o que nos parece essencial. A sensação com que fiquei quando acabei este capítulo ganhou à que me ocupou quando terminei o livro. Quando estas 90 páginas chegam ao seu término, ficamos com a sensação que está tudo dito, e chega até a nascer em nós um palpite de como aquilo tudo vai acabar. É assim mesmo em Murakami.

Nota negativa... Haruki Murakami excedeu-se com o erotismo desta vez. Principalmente na segunda metade da história. É de se revirar os olhos e suspirar de aborrecimento. Claro que, em tais doses, é propositada esta sensação que passa para o leitor. A personagem principal confronta-se com este mesmo problema: o excesso de sexo. O assunto é tratado de forma contínua, algo que está presente sempre com uma intensidade relativa. Acho que percebi onde o autor quis chegar, mas foi demais. A certa altura as cenas secavam por completo.

Notas positivas... quase tudo o resto! Não há muito que tenha a dizer. A tradução de Alberto Gomes tem alguns elementos que me irritaram um pouco, como os «De verdade?» em vez de «A sério?», e o uso da 2ª pessoa do plural em algumas conversas entre amigos. Mas no geral o espírito de Haruki Murakami foi captado. Este autor tem um força incrível, é capaz de nos cravar dentro das histórias, e deixar-nos lá a marinar durante muito tempo. Não é o livro que entra na nossa vida, somos nós que entramos no livro. Isto é assustador, porque uma parte de nós fica lá, e continua a viver lá mesmo depois de termos acabado. Estou a falar usando o «nós», mas na verdade quero usar o «eu». Nem todos terão a mesma experiência. «Norwegian Wood» foi de uma experiência de leitura triste, melancólica, Murakami ao seu nível - excelente.

Personagens Preferidas: Será possível não se dizer num só fôlego logo três? Naoko, Midori e Reiko.

Nota (0/10): 9 - Excelente

Tiago

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Crítica - O Elefante Evapora-se


Título: O Elefante Evapora-se
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 350
Preço Editor: 18,00€

Sinopse: Num sufocante dia de Verão, um advogado põe-se à procura do seu gato e dá de caras com uma estranha rapariga num jardim abandonado nas traseiras de casa. Mais adiante, as dores provocadas a meio da noite pela fome levam um jovem casal de recém-casados a fazer uma incursão nocturna e a assaltar um McDonald’s para conseguir deitar a mão a trinta hambúrgueres Big Mac, realizando assim um secreto desejo que já vinha dos tempos da adolescência. Um homem fica obcecado pela misteriosa e incrível saga de um elefante que se desvanece em fumo e desaparece da noite para o dia sem deixar rasto. Sem esquecer as confidências de uma mulher casada e jovem mãe com insónias que passa as noites em claro, a ler Tolstoi, e acorda para a vida num mundo indefinido de semiconsciência em que tudo se afigura possível - até mesmo a morte. Ao longo de dezassete pequenas histórias aparentemente banais, das muitas que povoam o nosso quotidiano, Haruki Murakami transporta o leitor à dimensão paralela de um imaginário delicioso e bizarro ao mesmo tempo, percorrendo um Japão que tem tanto de nostálgico como de moderno. »Muitas vezes divertidos, sempre comoventes», os dezassete contos desta colectânea são prova da extraordinária capacidade narrativa de Haruki Murakami.


Não parti para a leitura desta colectânea de contos com o maior dos ânimos. Como por diversas vezes já referi, estou quase sempre de pé atrás quando inicio a leitura de um dos livros de Haruki Murakami, não obstante ele ser, provavelmente, o meu autor preferido. Como se de um sistema de segurança se tratasse, pego num livro seu com a convicção de que, talvez desta vez, não vá ser uma leitura tão abismal como as anteriores. Neste caso, e infelizmente, este meu palpite no vazio revelou-se algo verdadeiro.

Definitivamente, os contos são uma realidade à parte de um romance. O domínio da arte do conto é paralelo ao da narrativa grande. Por um lado, não pode ser um romance condensado em vinte páginas; por outro, também não pode ser um excerto sem pés nem cabeça, como se de um capítulo se tratasse. Na busca deste equilíbrio, creio eu, reside a técnica de um bom contador destas curtas narrativas. Sendo este o primeiro livro do género que leio de Haruki Murakami, concluo que este talento da arte de contar histórias pequenas é um pouco desiquilibrado nele... numas consegue dar a volta e sair por cima, noutras acabamos por nos perder na névoa indefinida daquilo que não conseguimos identificar bem... e esta minha explicação foi confusa, de certeza.

Temos quatro tipos de contos em «O Elefante Evapora-se». Neste sentido: uns parecem ser fruto de um planeamento calculista e estratégico, outros assemelham-se a primeiros capítulos inacabados, outros resultam de forma espontânea na sua liberdade, e outros ainda não passam de nevoeiro difuso emaranhado. Este nevoeiro, presente em alguns contos mais pequenos, mas também noutros maiores, de tão pouco palpável, não me permitiu fixar-me emocionalmente às suas histórias.

Há contos muito divertidos, outros comoventes, outros maravilhosos. Os preferidos: «O Comunicado dos Cangurus» fez-me rir como poucas páginas, na minha vida de leitor, alguma vez conseguiram. «Sono» arrepia do princípio ao fim. «Os Celeiros Incendiados» tem qualquer coisa que me agarrou completamente, assim como «A Janela», apesar de pequenino. «Um Barco Lento para a China» quase me emocionou, embora não saiba explicar porquê. O conjunto dos últimos três contos também foram muito interessantes, embora destaque «O Último Relvado da Tarde», pelas imagens e aromas transmitidos.

Depois há o caso dos contos intermédios, que na minha opinião estão bem construídos, e são interessantes, mas aos quais não criei por qualquer razão um laço emocional com as suas narrativas. E tenho pena em relação a esses. Tenho pena porque sinto, pela primeira vez, um certo grau de desilusão relativamente a uma obra de Murakami. Embora «Underground» e «Hear the Wind Sing» também não tenham sido propriamente umas pérolas, o caso de «O Elefante Evapora-se» é diferente, porque com este, lá no fundo, eu estava à espera de me deleitar.

Não está em causa a qualidade de Murakami. Todo o surreal, o imaginário fantástico, as vidas expostas das personagens, a sinceridade brutal com que o quotidiano é recriado, tudo isso me continua a entreter neste autor. Mas, talvez pela duração que cada conto tem, foram poucas as ligações que criei, muito súbitas e repentinas. Na minha opinião, Murakami move-se bem na área do conto, mas não tanto como verdadeiramente domina o romance. Pelo menos na maioria das vezes. Contudo, e apesar de todas as coisas que disse, estamos perante uma leitura descontraída, divertida, relativamente leve (embora seja discutível), e aconselhada por mim!


Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Crítica - Dança, Dança, Dança


Título: Dança, Dança, Dança
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 473
Preço Editor: 20,19€

Sinopse: «Em Dança, Dança, Dança, Haruki Murakami continua a trajectória da personagem de Em Busca do Carneiro Selvagem, agora à procura do seu antigo amor que desapareceu misteriosamente do Hotel Golfinho. Nessa nova busca, o narrador, um jornalista freelancer, perde-se cada vez mais num universo de realismo fantástico, quase kafkiano, envolvendo-se com personagens verdadeiramente singulares: uma adolescente clarividente, um actor de cinema extravagante, um poeta maneta e prostitutas de luxo. Ambientado em Tóquio, este romance aborda temas como a solidão, o amor e a efemeridade da vida e retrata uma sociedade em constante transformação, altamente consumista e regida por valores como a fama, o dinheiro e o poder. Ao som de músicas dos anos 60, 70 e 80, o narrador e os seus amigos acabam por se envolver num caso de homicídio.»


Neste preciso instante, sinto uma vontade tremenda de escrever uma longa análise acerca deste livro; e, ao mesmo tempo, faltam-me as palavras para esta curta critica. Por onde começar? Pelo re-afirmar da frase já muito batida por mim - Haruki Murakami é o meu autor preferido. Não tenho dúvidas. Depois do que já li dele, não tenho qualquer dúvida de que esta seja a minha verdade actual. Ler um livro de Murakami é uma experiência rara, de absorção e magia, de distorção da realidade, de musicalidade presente no quotidiano, tudo isto e mais.

«Dança, Dança, Dança» é a sequela de «Em Busca do Carneiro Selvagem», que por sua vez concluiu o ciclo da Trilogia do Rato. Regressamos ao narrador sem nome, à sua vida, aos seus pensamentos; e é um regresso tão acolhedor que nos sentimos absolutamente em casa. Isto apesar do princípio desta obra não ser propriamente dos mais fáceis - Murakami, na minha opinião, tem nos diálogos entre as personagens um dos seus grandes trunfos; e nos primeiros três capítulos existe uma quase inexistência deles. Só a partir do quarto ou quinto é que o solo da obra passou a ser permeável, e me comecei a afundar.

Já não parto na expectativa de gostar ou não. É quase um dogma que tenho enquanto leitor. A probabilidade de não vir a gostar de um livro dele vai diminuindo à medida que o leio mais. Em «Dança, Dança, Dança», temos um regresso aos cenários, tão modificados; e conhecemos tantas personagens novas, e tão cativantes. O próprio narrador parece estar mais interessante do que nunca. O universo aprimorou-se neste quarto livro da saga do Rato.

Senti nesta obra um... «peso japonês»... que não tinha sentido tão intensamente nas outras. Isto apesar de, a certa altura, sairmos do cenário do Japão - facto raro em livros do autor. Mas há qualquer coisa nas relações das personagens, nos actos de algumas delas, mais oriental do que o habitual. Uma simples impressão minha.

O livro é viciante. Custa deixá-lo de lado, apetece lê-lo pela noite dentro, mantermo-nos por dentro da história. E agora vem a questão do enredo - muito pouco linear, ao contrário do que encontramos no «Em Busca do Carneiro Selvagem». É que em «Dança, Dança, Dança», não temos uma intriga bem definida, vamos vagueando, vamos dançando, dançando, dançando. Daí que não goste de algumas partes da sinopse, e mesmo de críticas de jornais mundias quando se referem a Murakami, utilizando temas como «thriller», «policial», «investigação», ou «o narrador e os seus amigos acabam por se envolver num caso de homicídio» (o exemplo deste livro). Nada mais errado. Isto é um distorcer completo da imagem que este livro deixa. Não se trata de mistério, nada disso. Se não tivesse sido por acaso que descobri o autor, nunca teria comprado um livro seu pelas sinopses que normalmente são apresentadas. É um erro associar estes temas às obras dele...

As personagens vão deixar saudades. Existem momentos de beleza incrível, majestosa, como se víssemos uma paisagem arrebatadora ao vivo. As emoções das personagens, as relações tão complexas, o surreal presente a cada momento, o realismo mágico que tanto me fascina... «Dança, Dança, Dança» é um dos melhores livros que li de Haruki Murakami. No fim do livro, resta um sentimento de vazio, de continuidade, de... pegarmos noutro livro, iniciarmos uma nova leitura, ainda com a cabeça totalmente centrada na anterior... e irmos dançando à medida que a vida passa. Imensamente tocante e poderoso.

Personagens Preferidas: O narrador, Yuki, e Yumiyoshi.

Nota (0/10): 10 - Perfeito!

Tiago

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Crítica - Underground (O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa)

Título: Underground (O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa)
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Susana Serras Pereira
Editora: Edições Tinta-da-China
Páginas: 461
Preço Editor: 22,31€ (15,6€ pelo site da editora)

Sinopse: «A data é 20 de Março de 1995. Está uma bela e límpida manhã de Primavera. Ainda se faz sentir uma brisa fria e as pessoas andam agasalhadas, de casaco. Ontem foi domingo, amanhã celebra-se o Equinócio da Primavera, é feriado nacional. Ensanduichado no meio do que deveria ter sido um fim-de-semana longo, está provavelmente a pensar “Quem me dera não ter de ir trabalhar hoje”. Mas não tem tal sorte. Levanta-se à hora do costume, lava-se, veste-se, toma o pequeno-almoço e dirige-se à estação de metro mais próxima. Entra para a carruagem, apinhada como de costume. Nada de anormal. O dia promete ser perfeitamente igual a todos os outros dias. Até ao momento em que cinco homens disfarçados direccionam os seus guarda-chuvas de pontas afiadas para o chão da carruagem, perfurando uns sacos de plástico cheios de um líquido estranho…». Um dos mais famosos episódios do terrorismo contemporâneo, o atentado de Tóquio não só traumatizou as vítimas directas como abalou toda a sociedade japonesa. O que sentiram os sobreviventes do ataque? Como reagiram? Como explicar a obediência dos fiéis seguidores do líder da seita Verdade Suprema? Em «Underground», Murakami compõe as entrevistas que realizou a dezenas de vítimas do gás sarin e a vários membros da Aum Shinrikyo (Verdade Suprema), tecendo uma narrativa em que procura compreender a relação entre o atentado e a mentalidade japonesa.

Um dos motivos que fazem de Haruki Murakami o meu autor preferido é o facto de partir para um livro seu sempre com a certeza de que uma maneira ou de outra me vai surpreender. Isso aconteceu com os sete trabalhos de ficção que li até agora dele, e também com o de não-ficção “Auto-Retrato do Escritor enquanto corredor de fundo”. Mesmo o seu primeiro, “Hear The Wind Sing”, que após ter terminado fiquei com uma sensação de que faltaria qualquer coisa, me tinha surpreendido pela atmosfera para onde me tinha puxado. Acontece que “Underground – O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa” é uma obra composta de entrevistas feitas pelo autor às vítimas de um ataque de gás sarin no metropolitano da capital japonesa, e na segunda metade aos membros/ex-membros da seita que provocou o atentado.

Primeiro que tudo, e antes de iniciar a minha opinião, quero deixar uma nota muito positiva à editora Tinta-da-China, que edita este livro em Portugal. É a primeira obra de Murakami que leio fora do domínio da Casa das Letras, e adorei o conceito gráfico desta edição.

A primeira metade ainda nos envolve por algum tempo. Não digo que a segunda não deixe de ser agradável de ler, mas a primeira tem ainda um toque muito particular de Murakami, nomeadamente em dois capítulos seguidos que se encontram entre as páginas 121 à 140. Estas dezanove páginas são de todo o livro as mais marcantes; atingem um elevado nível de escrita e conferem-lhe uma grande emotividade. O segundo desses dois capítulos, particularmente, e apesar de não-ficção, está carregado das palavras e do génio do escritor japonês. São páginas de arrepiar e, no fim, aplaudir, ainda que só vamos a um terço do livro e falte ainda muito para terminar. Mas o que senti é que, se o livro terminasse ali, já não ficávamos mal servidos de todo. Foram talvez 20 das melhores páginas que li neste ano de 2010.

Que pena é, no entanto, que esse expoente não se tenha esticado mais. O livro é um retrato de pessoas, que falam de si próprias e das suas vidas. E sim, é espantoso o trabalho jornalístico feito por Murakami, é espantoso o painel de vidas a que de repente temos acesso, é interessante ver as dezenas de perspectivas diferentes acerca de um único acontecimento. E em relação à segunda metade, o interesse e a curiosidade mantém-se em descobrir que, afinal, os membros da seita Aum são afinal pessoas normais, que podiam ser qualquer um de nós. Sem qualquer ligação ao atentado, muitos não queriam acreditar sequer que tinha sido a sua religião a provocar tal monstruosidade.

É, pois, ponto assente: o livro está original e muito bem concebido. Para um ensaio de não-ficção, composto por dezenas de entrevistas, e um retrato dos acontecimentos passados no dia 20 de Março de 1995 em Tóquio, está aqui uma obra de grande valor – e à qual tenho a certeza que o autor dispensou todos os seus esforços e profissionalismo.

Não posso, no entanto, dizer que fiquei totalmente satisfeito com esta leitura. Porque não fiquei. Com os autores muito bons, há sempre o risco de haver um livro que esteja um pouco abaixo daquilo que nos habituou, e depois desilude-nos. Acho muito boa a capacidade que ele tem de se dividir entre os estilos narrativos e os de investigação e ensaio, mas a verdade é que “Underground” não me deixou agarrado, por exemplo. Enquanto um todo, é interessante, mas ao longo da leitura foram poucos os momentos em que senti “não posso parar, vamos lá ver como é que isto continua”. É um estudo, eu diria quase um retrato social. Fica-se a aprender muito sobre o Japão e o modo de vida das pessoas. E sim, isso foi muito bom e saio mais rico desta leitura. Mas faltou um qualquer tempero que esperaria vindo de Murakami. Excepto naquelas vinte páginas. Aquelas vinte páginas…

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

sábado, 18 de setembro de 2010

Crítica - After Dark, Os Passageiros da Noite


Título: After Dark - Os Passageiros da Noite
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 225
Preço Editor: 16,15€

Sinopse: Por uma noite, Murakami leva-nos com ele através de uma Tóquio sombria, onírica, hipnótica. Um deslumbrante romance perpassado de uma singular atmosfera poética, na fronteira entre a realidade e o universo fantasmático, onde cada pormenor, olhado retrospectivamente, faz sentido. Num bar, Mari encontra-se mergulhada num livro, enquanto bebe o seu chá e fuma cigarro atrás de cigarro. Às tantas, entra em cena um músico que a reconhece. Ao mesmo tempo, encerrada num quarto, Eri, a irmã de Mari, dorme com os punhos cerrados, sem saber que está a ser observada por alguém. Em torno das duas irmãs desfilam personagens insólitas: uma prostituta chinesa vítima de agressão, a gerente de um hotel do amor, um técnico informático, uma empregada de limpeza em fuga. Sucedem-se acontecimentos bizarros: um aparelho de televisão que, de um momento para o outro, começa bruscamente a funcionar, um espelho que conserva os reflexos. Em Tóquio, durante as horas de uma noite, vai desenrolar-se um estranho drama...


Há uns meses passou-me pela cabeça uma ideia meio tresloucada. Quem me conhece sabe que eu não sou pessoa de ler rápido, demoro um tempo considerável por página. Daí que por vezes demore mais tempo do que gostaria a ler um livro. Há no entanto um autor chamado Haruki Murakami, japonês, que me hipnotiza com as suas palavras e me deixa agarrado às suas obras. Quando na Feira do Livro de Lisboa deste ano comprei o “After Dark – Os Passageiros da Noite”, decidi quase de imediato que, quando o lesse, seria de seguida, numa só noite. Pareceu-me uma decisão natural – como todo o enredo era também todo ele passado nas horas de lua, porque não ler em tempo real? A ideia aliciou-me.

A noite de 5 de Setembro foi a escolhida. Fui beber água, acender a luz do quarto, abrir a janela e fechar os estores, encostar a porta do quarto, abrir o armário, pegar no livro, deitar-me na cama, encará-lo de frente, olhar para ele numa antevisão do que o serão me prometia. Eram 10 horas da noite e vinte minutos. As minhas previsões feitas antecipadamente, tendo em conta as 220 páginas, diziam que demoraria entre 5 a 6 horas. O meu coração batia acelerado só na perspectiva da aventura em que ia entrar. Por fim abri na primeira página do primeiro capítulo.

«Diante de nós desenham-se os contornos da cidade.»; sim, vejo-os, todos os altos arranha-céus, os limites, as ruas, as esquadrias e as assimetrias, tudo o que uma cidade pode oferecer ao nível da forma. Vejo-os diante de mim como se lá estivesse. Bastou uma frase para ser puxado – com Murakami é sempre assim, visto que parto à partida com a certeza de que aquele é o meu ambiente, e não precisarei de tempo para me ambientar. Atiro-me de cabeça.

As primeiras duas páginas são mais do que imagens – é todo um conforto que sinto de me imaginar lá, no meio de toda a vivacidade da noite japonesa, o movimento em Tóquio, a azáfama das ruas; tudo isso são presenças – células – circulando pelas ruas – artérias. Toda a cidade é um corpo. A metáfora de Murakami conquista-me facilmente, porque consigo imaginar que o é de facto. Cada cidade é um corpo composto de inúmeras células, sempre em metabolismo, sempre trazendo algo de novo umas às outras.

Há qualquer coisa de muito cativante no princípio desta história. Em poucos parágrafos Murakami dá-nos a conhecer o cenário deste livro, e todo o mecanismo vivo que o vai alimentar. Na noite de Tóquio existe toda uma quantidade de pessoas diferentes, que estão ali com objectivos diferentes, cada um vivendo para a sua própria noite – a noite particular de cada um deles. Mas que, no fundo, está sempre em contacto com as dos outros. A minha história de vida que se cruza com outra história de vida quando sou interpelado na rua. Cruzamentos e ligações que se darão debaixo do néon luminoso, e os ecrãs que vão diminuindo o seu brilho e som à medida que se aproxima a meia-noite.

Ao invés de sentir que o dia acabou, sinto que é a noite que está a começar. A minha e a de todas aquelas personagens que as poucos me vão sendo apresentadas, e as quais acompanho de tão perto sem que possa interferir na acção – é Murakami que leva aqui e ali, apontando para os sítios onde devo olhar. A certa altura entro na dúvida se estarei a ler um livro, ou a ver um filme. A linguagem do autor neste livro, em particular, é muito cinematográfica; em certos pontos parece-se extraordinariamente com um guião. Uma nova faceta da sua escrita que, após sete livros, ainda não conhecia! Tive de esperar pelo oitavo (pergunto-me o que ainda virá nos próximos por ler…).

A primeira metade do livro é tudo menos silenciosa. Temos música de fundo em muitos dos capítulos, ou que vai tocando nos bares, ou nos restaurantes, ou nas lojas, ou que as personagens simplesmente cantarolam. Há muito jazz, referindo logo à partida a música que provavelmente também serve de mote para o título do livro: “Five Spot After Dark”. Mas não só! Blues, música clássica, e mesmo música pop japonesa… temos de todos os tipos de sonoridade nesta obra. Ah, e é claro, também temos a música das palavras e dos diálogos. E a do silêncio.

O fim, igual a tantos outros de Murakami, completa-me. Os finais abertos deste autor conquistam-me pela magia que transmitem – nada está terminado, apenas vamos deixar de contar por aqui. Existem tantas histórias por desenrolar, e podemos calcular o que aconteceria a seguir. Mas a noite tem fim. E ao nascer do sol as pessoas levantam-se e começam um novo dia. Para quem viveu intensamente a noite, neste drama sinistro, melodramático, tão pessoal e comovente, é agora altura de descansar – sozinho ou junto de quem se mais gosta. Com a esperança de que as últimas seis horas tenham mudado positivamente a vida a uns, e a tristeza de que para outros tenha sido tão profundamente cruel. E ainda há aqueles para quem a noite não passou disso – mais uma igual a tantas.

No fundo, este livro continua com o leitor muito depois de ter terminado. No fundo não conseguimos deixar de pensar na forma como a vida é tão sensível às mudanças exteriores, que cruzarmo-nos com uma dada pessoa pode mudar uma perspectiva de vida. Passageiro da noite como fui, às três da manhã pousei o livro na minha mesa de cabeceira, depois de ler a última página, fechei a janela, apaguei a luz, deitei-me e adormeci. Sabendo que a manhã seguinte seria um novo dia… mas que “After Dark” ia continuar comigo por muito, muito tempo.

Personagem Preferida: Naoku, e Mari, e o músico de jazz.

Nota: 9/10

Tiago


PS: Quanto à leitura dos Miseráveis, que se estende já por todo o Verão, entrei agora nas últimas 250 páginas, e espero lançar-me até ao fim. Já não era sem tempo, não é?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Crítica - Em Busca do Carneiro Selvagem

Título: Em Busca do Carneiro Selvagem
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
Nº de Páginas: 370
Preço Editor: 18€

Sinopse: «Ambientado numa atmosfera japonesa, mas com um pé no noir americano, Murakami tece uma história detectivesca onde a realidade é palpável, dura e fria, e seria a verdade de qualquer um, não fosse um leve pormenor: é uma realidade absolutamente fantástica. Um publicitário divorciado, que tem um caso com uma rapariga de orelhas fascinantes, vê-se envolvido, graças a uma fotografia publicitária, numa trama inesperada: alguém quer que ele encontre um carneiro! Mas não é um carneiro qualquer. É um animal que pode mudar o rumo da história. Um carneiro sobrenatural…
Murakami dá a esta estranha história um tom que só um oriental pode imprimir a uma crença, fazendo-a figurar como um facto da realidade. Coloca, de uma forma genial, a fantasia na aridez do mundo real.»

É o sétimo que leio de Murakami, e ainda não vejo ao longe o dia em que me vou cansar de ler este autor - provavelmente porque isso nunca irá acontecer. Ler um livro dele é um constante deleite, sinto-me sempre confortável e viciado na leitura, embrenho-me nos seus cenários e personagens oníricos, naquela linha tão ténue entre a realidade e o sonho. E por mais caótico, estranho, inimaginável, absurdo, que o enredo possa ser - ler Murakami é uma experiência única e da qual nunca chego a despertar completamente. Digo isto porque, a cada livro que leio dele, olho de uma forma um bocadinho mais diferente para a realidade.

Como talvez saibam, este é o terceiro livro da chamada «Trilogia do Rato», cujos dois primeiros livros o autor não autorizou a que fossem editados fora do Japão. Existe no entanto uma tradução inglesa no país nipónico, que mandei vir, desses dois primeiros livros. «Hear the Wind Sing», e «Pinball, 1974», cujas críticas aqui podem ler. É verdade que se pode ler o terceiro desta trilogia sem se ter lido os dois anteriores, mas acreditem que não é a mesma coisa... na minha opinião, o contacto com as personagens que já trazia dos dois volumes anteriores ajudou-me e muito a encontrar pontos fortes em «Em Busca do Carneiro Selvagem», e extractos particularmente emotivos por conhecer o que se passou anos antes. A sequência final da história, e, digamos, as últimas cinco páginas, foram para mim arrebatadoras - e creio que importou ter lido os volumes anteriores.

A verdade é que este autor japonês cativa com as suas palavras! Numa narrativa simples e linear, comunicando com uma linguagem tão acessível (mérito para a tradutora, que consegue manter o estilo e torná-lo muitíssimo interessante na nossa língua!), frases curtas, fácil de acompanhar o enredo... um enredo engraçado e que evolui de maneira impressionante, seguindo pelos caminhos mais óbvios... não é, de longe, um policial, nem uma história detectivesca, como a sinopse quer dar a parecer. Vai muito para além disso, entra em terrenos que qualquer história detectivesca normal jamais poderia alcançar!

É tão bom voltar a Murakami, às suas palavras, ao seu universo paralelo ao nosso (a questão do espelho, que encontramos neste livro, pode comparar-se ao que sinto quando leio livros do Haruki - não é o nosso mundo, mas sim um semelhante), as metáforas tão bonitas, a solidão vista daquele ponto de vista tão cativante, a tristeza que nunca é contada como tristeza. É espontâneo, quando me apetece pegar num livro dele... e, agora que olho para a crítica, quase não falei do livro em si, mas sempre do autor. Sim, todos os seus livros têm mais ou menos os mesmos pressupostos. E adoro-os. Dá vontade de partir em busca de um carneiro selvagem....... de boca aberta, e arrebatado com esta leitura.

Personagens Preferidas: o Motorista; o Rato; o protagonista; a mulher das orelhas; o J. E já são muitos.

Nota: 9/10

Tiago

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Crítica - Pinball, 1973

Título: Pinball, 1973
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Alfred Birnbaum
Editora: Kodansha English Library
Nº de Páginas: 179
Preço Editor: -

Sinopse: The second book in the "Trilogy of the Rat" series, it is preceded by Hear the Wind Sing (1979) and followed by A Wild Sheep Chase (1982).
Very much a continuation of Hear The Wind Sing with the familiar site (J's bar) and characters (J and Rat). The novel is a collage of everyday episodes of the single 24-year-old Tokyoist, his disinterest in his translation job, his asexual relationship with the twin sisters 208 and 209, and his half-estrangement from social world. He oscillates between ceaseless pursuit of interests (midnight visit to Pinball machine) and resignation (painless farewell to the twins), and at times emerges from the cool, semiotic space of his apartment to bath in the autumn light.

Falar da experiência que é ler Haruki Murakami para quem nunca o leu é complicado, talvez porque até hoje não encontrei outro autor a quem o pudesse comparar. Imaginem o quotidiano japonês, a vida normal e real com personagens normais e em tudo iguais a nós (com as próprias variantes culturais). De repente entra Murakami em cena, despeja um saco de elementos surreais e alternativos por cima da vida - por exemplo, mulhares enigmáticas, telefonemas anónimos, desaparecimentos de pessoas e objectos, gatos e poços por todo o lado, etc, etc - e, o mais incrível, é que a personagem principal lida com isso com a maior das naturalidades, como se já o prevesse. É este o universo de Realismo Mágico do senhor Haruki Murakami. Um mundo de muitas perguntas que não procuram sequer resposta.

Tal como em todos os livros que li dele (excluindo o de não-ficção, do seu Auto-Retrato), é esta a paisagem de fundo nas suas obras. Em Pinball, 1973 seguimos as mesmas personagem que tinham sido introduzidas no primeiro livro do autor, Hear the Wind Sing: o narrador presente sem nome, J, e O Rato (por sua vez este último dá nome à trilogia, de quatro livros, em que este se insere). Neste em particular temos uma divisão da novela em duas frentes: a do narrador, e a do Rato. Estão separados geograficamente, embora não tenham esquecido a sua amizade. O primeiro sofre os efeitos da onda surrealista de Murakami, ao mesmo tempo que procura por uma determinada máquina de Pinball na qual se viciara depois de um acontecimento muito mau na sua vida; e O Rato, coitado, tem um ataque de tristeza e solidão, e numa odne de melancolia explícita (rara em Murakami) prepara-se para tomar uma decisão importante da sua vida.

É neste equilíbrio que se desenrola a acção. Quis-me parecer, no entanto, que apenas na segunda metade é que finalmente Murakami encontra o seu estilo, ao fim de livro e meio escrito. E, devido à diminuta extensão da obra, ficamos com a sensação de que, quando estava a começar realmente a melhor parte e o melhor ritmo, é que termina. De resto, temos três elementos do livro que me chamaram especialmente a atenção: As Gémeas; O armazém das galinhas; e as cenas no bar do J. Não me alongo mais em relação a isso, para quem não leu não faria muito sentido.

Concluindo, este é um livro já tipicamente murakamiano, com a atmosfera típica, a qual nos prende, e que quando saio dela só me dá vontade de escrever, como se me tivesse enchido de inspiração. Todo o livro tem uma musicalidade que não me passa despercebida, um ritmo muito próprio. Mas Haruki insiste em não o publicar fora do Japão, sendo que a suposta justificação é que o considera, assim como ao primeiro livro, trabalhos de «natureza inferior». Este Pinball, 1973 já está longe de ser inferior. É uma opcção cara, mandar vir de lá os livros, e apenas compensa a quem já experimentou e gostou do estilo. A mim, já me conquistou há muito.

Personagens Preferidas: As Gémeas. E J prende-me, de alguma maneira.

Nota (0/10): 8 (Muito Bom)

Tiago

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crítica - Hear the Wind Sing

Título: Hear the Wind Sing
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Alfred Birnbaum
Editora: Kodansha English Library
Nº de Páginas: 130
Preço Editor: $25.99 (aproximadamente 19€)

Sinopse: «The first book in the "Trilogy of the Rat" series, it is followed by Pinball 1973 (1979) and A Wild Sheep Chase (1982). The writer recalls the days of his early twenties. The biology student passed his summer vacation aimlessly back at his home town. There are episodes about his childhood and his three girls whose names and faces have long been forgotten. Amid the bar scenes of cigarettes, french fries and beers, there was still extra space for his favourite author and the chunks of his philosophies. Hear the Wind Sing was never released in any English-speaking countries, but a translation was sold in Japan as a way to improve one's English reading skills, complete with a glossary in the back with the harder words defined in Japanese.»

Quem já leu Haruki Murakami conhece bem o estilo deste autor - os seus romances surreais que envolvem o quotidiano japonês, um narrador masculino, personagens femininas misteriosas que desaparecem, gatos, música ocidental, refeições, reflexões acerca da escrita, a simplicidade da história contada numa linguagem acessível e ao mesmo tempo filosófica. Quem já leu Murakami conhece o estilo: Hear the Wind Sing é a sua primeira obra, e neste livro vê-se o estilo de Murakami em bruto.

É difícil explicar o meu ponto de vista, mas vou tentar: Murakami começou a escrever aos trinta anos. Nesta sua primeira obra, revela ao mundo a sua forma de escrever muito peculiar, sem no entanto a ter aperfeiçoado e trabalhado. É o estilo dele como matéria prima, é o nascimento do estilo na sua forma mais fria e radical. De tal forma que não consegue agarrar o leitor como o faz em livros posteriores.

O livro tem todos os elementos Murakamianos de que falei anteriormente, mas sendo a sua primeira obra achei a língua um pouco fria, e embora tenha tido momentos bem conseguidos, noutros criou pouca relação com o leitor. Capítulos muito pequenos e sucintos, cenas rápidas que quando começamos a gostar já acabaram. Muito entrecortado.

Agora os pontos positivos: porque apesar de me ter desiludido um pouco, o problema foi meu. Ninguém me mandou encomendar este livro. Haruki Murakami pediu para que as duas primeiras obras não fossem reeditadas para lá do Japão, porque considerava a sua escrita muito primária. Ele avisou-me... mas eu não dei ouvidos, comprei, e esperava uma obra-prima. É verdade. Este livro é o primeiro degrau daquele que é provavelmente o meu escritor favorito. mas foi bom lê-lo, para ver por onde começou ele!

Foi bom conhecer os lugares e as personagens, identificar elementos que se desenvolvem nos livros a seguir, ler as reflexões acerca da escrita. Um certo humor também presente. Uma obra primária, talvez, mas com grande significado para quem é fã de Murakami. É bom ver como tudo começou. Por isso, aqui fica uma dica: leiam este livro só depois de terem experimentado uns quantos do autor; e tenham em conta que o próprio pediu para não o reeditarem. Não estejam á espera de uma obra-prima, e vão gostar.

Provavelmente o mais soft dele, talvez porque não arrisca aproximar-se do leitor. Mas com apenas 130 páginas, lê-se num fôlego. Anteriormente tinha dito que não ia dar nota ao livro, por respeito simbólico ao autor: mas mudei de ideias, e resolvi quantificar o meu gosto, também.

Personagens Preferidas: A rapariga. E talvez o J.

Nota: 6 - Agradável

Tiago

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crítica - "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo"

Que Haruki Murakami era o meu escritor preferido, isso eu já sabia com certeza desde Outubro. Que ele sabia escrever romances a desafiar o sentido da lógica e do que é racional, disso eu também já tinha conhecimento e experiência própria. Agora que a sua vida era desta forma, isso admito que não fazia a mínima ideia - e que com esta obra deixaria de gostar apenas do autor, e passaria a gostar essencialmente da pessoa por trás dos livros. Não estão bem a perceber: «Auto-Retrato do Escritor enquanto corredor de fundo» volta a surpreender-me, mesmo depois de tantas surpresas que Murakami já me deu este ano.

Em Fevereiro li «Sputnik, Meu Amor». Pensei: "Olha, este autor até me surpreendeu pela positiva. Tenho de ver de mais livros dele!". Em Março li «A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol», e pensei: "Bem, estou a ver que o outro livro não foi excepcção. O japonês é mesmo bom nisto!". Em Outubro, depois de ter acabado «Crónica do Pássaro de Corda», cheguei à conclusão que provavelmente aquele era o meu livro preferido de sempre. E não é que ele volta a superar todas as minhas expectativas com este ensaio autobiográfico??

É de malucos pensar que é possível! Neste livro, Haruki Murakami parte, no início de cada capítulo, do tema «corrida». É que, desde os trinta anos, ele tem uma rotina diária de corredor de fundo (de longas distâncias). Corre uma hora por dia em média. Participa em uma maratona por ano - e já tem 60 de idade (embora, muito sinceramente, não pareça). Mas vai divagando... passa pela sua vida, pela forma como escreve os romances, pela sua relação consigo mesmo, pelos seus sentimentos e a sua maneira de ser... abre a sua alma aos leitores. Chega a ser em certos momentos demasiado directo. Diz aquilo que pensa sem rodeios. E retrata-se de uma forma maravilhosa de se ler.

É que ao longo das quase 190 páginas não há um único momento considerado chato! Ele vai divagando, pega num assunto, depois noutro, mas nem por um momento sentimos vontade de pôr o livro de lado! O que sente enquanto corre. O que sente enquanto escritor. O que sente enquanto pessoa. Queria também realçar, embora nunca tenha dito isso, que a tradução dos livros de Murakami para português, feita por Maria João Lourenço, é de louvar - é que uma má tradução pode "matar" uma obra excelente, e tenho a certeza que neste caso é ao contrário; só ajuda ainda mais!

Um livro excelente, que me surpreendeu (a pergunta é: porque é que me continuo a surpreender?) e mudou um pouco a minha forma de ser, provavelmente mais do que qualquer livro que li este ano. Certos ensinamentos, ou conclusões, ecoam-me na cabeça. Indispensável para quem já leu e gostou de um livro dele, este ensaio autobiográfico, este tratado sobre a corrida à la murakami, deixou marcas em mim. E está novamente de parabéns, senhor Murakami!

Páginas: 186

Nota (0/10): 10 - Perfeito!

Tiago

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Crítica - Crónica do Pássaro de Corda

O livro começa assim: «Estava na cozinha a vigiar o esparguete ao lume, quando tocou o telefone. Ao mesmo tempo ia assobiando a abertura da ópera La Gazza Ladra de Rossini, que estava a tocar numa estação de rádio em FM. O fundo musical perfeito para cozinhar massa.» Que maneira estranha de começar um livro, dirá quem nunca leu nenhum livro de Haruki Murakami. E reforçará essas palavras quando ouvir por alto o que acontece a seguir: o protagonista, Toru Okada, atende a chamada, e descobre que quem fala do outro lado da linha é uma mulher que ele nunca conheceu - e que lhe pede 10 minutos para se entenderem. Estranho, não é? Estranho a maravilhosamente belo e poético.

Tinha pensado para mim mesmo. Depois de ler «Sputnik, Meu Amor», e «A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol», se a «Crónica do Pássaro de Corda» não fosse um livro excelente, seria uma desilusão. Murakami prometera demasiado com os seus dois anteriores romances lidos por mim; mas surpreendentemente consegue dar a volta por cima, e acertar no centro do alvo com este livro. Como um atleta de salto em altura que coloca a fasquia nos dez metros, e inesperadamente consegue. Desculpem a comparação estranha... influências de ler este autor!

Este autor que mistura a realidade com o surreal, que faz cocktails de sonhos e fenómenos inexplicáveis, que torna o quotidiano do Japão tão compreensível aos nossos olhos; que cria as personagens mais estranhas e cativantes; que envolve tramas e dramas envolventes; e que, com este livro, alcança um patamar elevadíssimo da sua qualidade literária.

Para quem quer experimentar uma fuga do mundo real, e envolver-se com uma história comovente e metafórica, com referências a passagens de guerra bem descritas.... um livro para ler e ficar a chorar por mais! Mas completamente! À terceira é de vez... e com este terceiro livro de Haruki Murakami, o autor convenceu-me definitivamente - é já um dos melhores (se não o melhor) livro do ano, e um dos (se calhar «o») livros da minha vida!

Páginas: 632

Personagens Preferidas: Todas!... Mas May Kasahara destaca-se um metro à frente.

Nota (0/10): 10 - Perfeito!

Tiago

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol - Crítica

Esta semana fiquei completamente rendida a um dos melhores escritores de sempre (pelo menos na minha opinião). Depois de ter tentado ler Sputnik, meu Amor e não ter dado uma grande importância à obra, surge agora um livro de eleição da parte de Haruki Murakami.

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol é uma história envolvente, realista, comovente, sonhadora, um livro que rende o leitor logo no primeiro parágrafo. Sendo um escritor japonês e já que tenho estado com bastante atenção à cultura, às tradições, a um país de tanta diversidade, surge agora esta excelente obra que ainda me interessa mais por um país em expansão mundial.

Para além da história, as personagens e a personalidade das mesmas cativa o leitor. Depois desta obra fascinante, dedicarei as minhas próximas compras literárias a Haruki Murakami e a George R. R. Martin, ao qual também me mantenho interessada.

Nº de páginas: 141

Livros de referência: Suptnik, Meu Amor, Kafka à Beira-Mar, Crónica do Pássaro de Corda.

Nota (0/10): 10 - Perfeito!

Patrícia

segunda-feira, 16 de março de 2009

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol - Crítica

Fiquei sem palavras, de boca aberta. Olhei em frente, e despertei lentamente para as percepcções e sensações do mundo real. A névoa formada pela minha mente, que me protegia dos sons e das pessoas à minha volta, foi-se desvanecendo... e dei por mim a fechar o livro, porque o acabara.

Tão maravilhoso quanto Sputnik, Meu amor, do mesmo autor, A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol foi de uma leitura mais fácil (não digo mais leve); com um enredo menos definido, mas de uma maior facilidade de compreensão. O vocabulário usado foi muito bom, as descrições dos sentimentos, das emoções, dos pesos na consciência... espetaculares. A percepcção do passado e do presente, do que vale a pena e do que não vale, do «talvez» e do «poderia ter acontecido, ou não»... perfeitos. Este livros foi delicioso de ler, refrescante (visto que o tempo está a aquecer!), e devorei-o em três dias. A relacção entre a personagem principal, Hajime (um rapaz que começa a história com 12 anos, e que termina com 37), e as diversas mulheres que vão aparecendo ao longo da história - como Izumi, Yukiko... mas, acima de tudo, Shimamoto - Está muito bem acompanhada, os diálogos são mágicos e surreais...

Sinceramente, não tenho muitas palavras para descrever a sensação que é ler, e terminar de ler um livro de Haruki Murakami. Se já aconteceu com este e com Sputnik, Meu Amor, estou certo que também irá acontecer com Crónica do Pássaro de Corda, o próximo livro que tenciono ler do autor, dentro de poucos meses. A escrita deste senhor japonês é muito bem identificável, e arrisco-me a dizer que os seus livros têm sempre a mesma fórmula, e o que muda um pouco são as personagens e as situações. Adorei, e a minha sugestão para quem nunca leu anda deste autor é que aproveitem este livro novo que saiu há apenas duas semanas e ainda por aí pelas livrarias para começarem a ler Murakami. Prometo que não se arrependerão.

Páginas: 141

Personagem Preferida: Hajime, o narrador presente, pela complexidade, veracidade e surrealidade com que nos é apresentado (sim, essas três coisas ao mesmo tempo), e Shimamoto, pela sua presença que vem dar sempre um toque de mistérios à história.

Nota (0/10): 9 - Excelente

Tiago
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sputnik, Meu Amor - Crítica

Talvez porque já não lia um livro que não fosse de fantasia desde Maio do ano passado, ou porque simplesmente o livro é genial, fiquei de boca aberta quando o terminei, e senti, durante a sua leitura, uma série de sensações totalmente misturadas: Nostalgia, Reflexão, Amor, Solidão, Histórias de Vida, Destino... e não é que algumas destas coisas nem sequer são sensações?

Sputnik, Meu Amor é, sem qualquer sombre de dúvidas, um livro muito bem escrito, que nos oferece pensamentos e reflexões bem inseridas numa história e num fio de acção que apenas lá estar para nos distrair (ou para nos contextualizarmos na história). Temos como pano de fundo três personagens fantásticas. K., o narrador presente. Sumire, uma jovem que nunca se apaixonou na vida até ao começo deste livro. E Miu, uma mulher de 38 anos, casada. E temos um triângulo amoroso: K. está apaixonado por Sumire, mas Sumire está apaixonada por Miu. E Miu... essa nutre uma grande empatia por Sumire, mas nada de mais.

Mas o que realmente interessa em Sputnik, Meu Amor é a qualidade dos diálogos, e o conteúdo para lá das palavras escritas que estes contém. É a perícia e a técnica com que os capítulos foram encadeados. É a relacção que une todos os pontos da história. É a solidão e a amizade, o amor e o desejo, a perda e os sonhos... li em dois dias, e simplesmente adorei. Uma história comovente, que por diversas vezes me deixou com a respiração sustida por poucos segundos.

Aconselho. Mesmo de verdade. Haruki Murakami surpreendeu-me, e em breve terei de ler outro livro dele. A sua escrita é viciante e, notei isto principalmente nos primeiros capítulos, os diálogos são originais e interessantes.

Páginas: 197

Personagem Preferida: Sumire, porque é uma aspirante a escritora, e tem em si uma alegria de viver pronta a rebentar. É impossível não gostar nem que seja só um bocadinho desta personagem. E K., o narrador presente, também não deixa de ser interessante.

Nota (0/10) - 9 (Excelente)

Tiago

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