quarta-feira, 25 de maio de 2011

Crítica - O Senhor Brecht


Título: O Senhor Brecht
Autor: Gonçalo M. Tavares
Ilustradora: Rachel Caiano
Editora: Editorial Caminho
Nº de Páginas: 65
Preço Editor: 10,50€

Sinopse: «O Senhor Brecht é um contador de histórias. Senta-se numa sala praticamente vazia e vai contando pequenas histórias entre o absurdo e o humor negro. A sala vai enchendo aos poucos, o que lhe trará no final um novo problema: o público tapa a porta de saída – e o senhor Brecht fica assim encurralado com o seu próprio sucesso.»


Gonçalo M. Tavares costuma dizer que o imaginário criado com esta série «O Bairro» é um caso à parte das suas restantes obras. E que ele próprio só começou a perceber o ritmo e as finalidades da colecção à medida que os ia escrevendo, ao fim de uns quantos. Acho que, como leitor, não podia concordar mais com Tavares: também eu, depois de lidos três Senhores, começo a perceber melhor o conceito desta colectânea de livros.

O Senhor Brecht é, e sem que coloque isto em dúvida por momento algum, o melhor livro que li d' «O Bairro» até ao momento. É como se cada livro tivesse a sua temática. O Senhor Valéry apresentava-nos os esquemas matemáticos, O Senhor Henri tinha como obcessão o absinto, e este O Senhor Brecht quer-me parecer que está virado para as amputações. Maioritariamente. Não é, contudo, devido a esta característica que o livro se tornou o meu preferido (não sou muito sádico). É mais... porque... foi...

Brilhante! Ao longo de 50 pequenas histórias, de apenas uma página, são abordadas inúmeras questões directamente ligadas à nossa sociedade. Temáticas actuais, que representam problemas humanos, uns que são resultado de crises recentes, outros presos a nós desde o princípio da humanidade. Genial! A forma breve e certeira com que estas problemáticas são identificadas é digna de se tirar o chapéu. O Senhor Brecht é uma obra interessantíssima exactamente por isso. Inspirador! Usando e abusando da ironia, a crítica está toda lá, a crítica que é aplicada também a cada um de nós, que podemos identificar-nos naquelas páginas.

Referi atrás a questão da mutilação. Pois é, diria que a quase totalidade das histórias do livro incluem ou uma morte, ou um ferimento, ou o corte de uma parte do corpo (desde dedos à cabeça, passando pelas pernas e pela língua), que, no fundo, estão ali a representar as mudanças e os factores que motivam acontecimentos. Pelo menos é a minha interpretação: interrupcções do estado estático, modificações que funcionam como catalisadores para nos podermos inteirar das consequências. Confuso?...

Deixo-vos com dois pequenos exemplos que escolhi aleatoriamente. Um sem, e outro com a tal violência gráfica:

«Em vez de uvas os cachos do reino deixavam cair sobre a terra diamantes.
- Diamantes, diamantes, diamantes! Há anos que é só isto - queixava-se o produtor.»

«O filósofo dizia que só os homens faziam o importante, enquanto os animais só dispunham de acções insignificantes.
Foi então que chegou o tigre e devorou o filósofo, comprovando com os dentes a teoria anteriormente apresentada.»

Este livro, se analisado com o seu devido tempo, lido com calma, e fazendo ao mesmo tempo um exame interior à nossa consciência, pode ser importante para cada indivíduo. mas se ao leitor não apetecer tal esforço, tem outro uso: simplesmente ler as histórias, com o seu quê de humor (negro...) e deixar de parte a simbologia das metáforas. Um livro divertido, muito rico, e que oferece o que de melhor Gonçalo M. Tavares tem para oferecer com este Bairro. No fim, eu faço parte dos que estão naquela sala, apertados para ouvirem as histórias do senhor Brecht. Senhor Brecht, só mais uma! Vá lá, só mais uma!


Nota (0/10): 8- Muito Bom

Tiago

terça-feira, 24 de maio de 2011

Crítica - Felizmente Há Luar!

Título: Felizmente Há Luar!
Autor: Luís de Sttau Monteiro
Editora: Areal Editores
Nº de Páginas: 140
Preço Editor: 13,03€

Sinopse: «Denunciando a injustiça da repressão e das perseguições políticas levadas a cabo pelo Estado Novo, a peça Felizmente Há Luar!, publicada em 1961, no mesmo ano de Angústia para o Jantar, esteve proibida pela censura durante muitos anos. Só em 1978 foi pela primeira vez levada à cena, no Teatro Nacional, numa encenação do próprio Sttau Monteiro.»


Como segunda leitura obrigatória para a escola, só neste mês, e pertencendo novamente à categoria de texto dramático, Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, tinha em mãos uma tarefa peculiar de me tentar cativar. Lido praticamente em cima da hora, isto é, a poucos dias de começar a abordar a obra no contexto da disciplina de Português, cheguei mesmo a ter de ler o II Acto em plena aula, porque fui surpreendido ao ver que, esta segunda-feira, começámos a analisar o livro. E eu só ia a meio. E, uma vez iniciada a matéria, é uma questão de minutos até se começarem a desenhar retrospectivas gerais que envolvem toda a obra. Inclusivé o fim. Sim, spoilers. Não os evitei. Daqueles mesmo maus, que incluem mortes de personagens. É difícil focar-me só na leitura e ignorar por completo o discurso da professora. Mas, ainda que não nas melhores condições, lá concluí a leitura naquele espaço de 90 minutos.

Felizmente há didascálias! Sem elas este livro, enquanto livro, seria mais pobre. Divididas em duas secções (didascálias de movimentações, e didascálias de intenções), o texto está recheado delas, o que ajuda bastante ao leitor a visualisar melhor as situações, e a decifrar os motivos que movem cada personagem. De outra maneira seria muito difícil apercebermo-nos dos jogos e esquemas que estão por trás de alguns dos diálogos; para nós, leitores, que os espectadores terão o trabalho facilitado por aquilo que os actores "decidirem" mostrar. Entre aspas, porque neste aspecto, Luís de Sttau Monteiro é firme - deixa tudo bem claro quanto às intenções e marcações cénicas - não há muito espaço de manobra para os encenadores poderem criar.

O primeiro acto é muito mais politizado que o segundo, embora ambos contenham grandes críticas à sociedade do tempo da governação inglesa em Portugal. E ao Estado Novo. Devem estar a perguntar-se: espera aí, dois períodos tão distantes no tempo, como é que estão relacionados? Simples. O autor queria escrever uma obra que denunciasse a repressão do governo ditatorial de Salazar; mas editar tal coisa durante os tempos de censura era impensável. Daí que tenha recorrido ao estratagema da analogia: a acção da obra passa-se em 1817, em vez de Salazar temos Beresford, em vez do general Humberto Delgado temos o General Gomes de Freire. E temos o contexto de uma revolução que se aproxima. Inteligente, não é? Infelizmente, não escapou ao controlo da PIDE, que proibiu a distribuição do livro.

Mas, dizia eu, felizmente há o segundo acto! Porque o primeiro deixou um pouco a desejar. Muita conversa entre gente de poder acaba de gerar grandes e elaborados diálogos sobre políticas, métodos, intrigas monetárias, etc. E a certa altura cheguei mesmo a perder o fio à meada. Mas o segundo acto funciona como uma lufada de ar fresco, e criamos de imediato empatia com uma ou duas personagens que, emocionalmente interessantes, nos vão acompanhar até ao fim do livro. Os seus gritos de revolta, misturados com as lágrimas de quem verdadeiramente sofre, funcionam ainda melhor como crítica à sociedade e à repressão do que a teorização abordada na primeira metade.

(In)felizmente fica sempre a faltar qualquer coisa! Quase se trata de texto dramático, sinto-o quase dramaticamente. Parece que não foi feito para o leitor, e sim para o espectador, o que faz desta tarefa que é ler uma peça algo um pouco ingrato. Pelo menos é o que sinto. Embora, por mais que tente, não consiga explicar melhor do que isto...

Apesar de tudo fica a sensação de que foi uma leitura agradável, interessante pelos temas que aborda, e que, com certeza, terá dado origem a adaptações para palco bastante bem conseguidas - tem tudo para ter conseguido isso. A certa altura o desespero quer-me parecer ser exagerado, mas felizmente há luar, não é? Uma obra enérgica, que quase se levanta com a sua própria vontade, com o grito que parece dar para fora das páginas. Felizmente há obras assim - agitar consequências é essencial para o avanço do mundo, principalmente quando precisamos de um abanão para restabelecer a ordem da nossa governação. Coincidência ou não, dia 5 de Junho vou exercer o meu direito de voto pela primeira vez na vida, tendo feito há poucos dias os meus 18 anos. Felizmente há liberdade. E, claro, felizmente há luar! Ao menos há luar.


Personagem Preferida: Vicente, e Matilde.

Nota: 6 - Agradável

Tiago

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Última Amante de Hachiko - Crítica


Título: A Última Amante de Hachiko
Autora: Banana Yoshimoto
Tradutor: António Barrento
Editora: Cavalo de Ferro
Nº de Páginas: 97
Preço Editor: 12,80€

Sinopse: «Romance que reune o Japão das seitas e a Índia da ascese e do misticismo. Mao é uma rapariga que vive numa comunidade religiosa centrada na figura carismática da avó, curandeira e vidente. Esta seita, após a morte da fundadora, começou a trair os seus ensinamentos e a transformar-se numa comunidade de acólitos exaltados e fundamentalistas. Mao, dotada de alguns poderes sensoriaiis e de um singular talento artístico, afasta-se cada vez mais deste ambiente, e acaba por ir viver com Hachi, ao qual está ligada por uma profecia de amor e misticismo. No entanto, a sua relação não está destinada a durar. O inevitável fim desta história de amor assinala para Mao o fim da adolescência e a passagem para uma nova percepcção mais equilibrada da existência.»


Há uns seis meses atrás encontrei, por acaso, uma pack numa Livraria Bertrand - reunia quatro das obras de Banana Yoshimoto, autora japonesa contemporânea, por apenas 20€. Pensei por alguns segundos, e decidi pôr de parte. Não conhecia nada dela, nunca tinha ouvido ou lido sequer o nome, e não estava disposto a arriscar. Passou-se um bom tempo. Até que em Fevereiro uma leitora amante de Haruki Murakami me disse estar a ler um livro dela, que tinha adquirido nesse tal pack, e estava a gostar. Resultado: lá fui eu, com a curiosidade renovada, encomendar os livros. Tive sorte, pois o desconto especial ainda estava a ser praticado!

Na segunda-feira, ao decidir a minha próxima leitura, Banana Yoshimoto lembrou-me da sua existência. E, das quatro capas, a mais bonita de todas era a de 'A Última Amante de Hachiko'. Há qualquer coisa na imagem e na montagem gráfica que me deixam de rastos. Excelente trabalho da Cavalo de Ferro. Movido pelo entusiasmo, iniciei a leitura deste curto romance de aproximadamente 100 páginas.

A primeira metade do livro é estranha. A acção decorre de forma arritmada, não é criada uma ligação especial entre o leitor e a história. Começa-se desde o princípio a notar no estilo particular da autora, que se lança em devaneios emocionais interessantes, servindo-se como base de parágrafos curtos de ideias fechadas. Mas falta ali um clique que nos faça agarrar ao livro, é como se estivessemos em processo de transfiguração para a dimensão que a literatura oriental representa para o Ocidente. Há sempre um choque, e um tempo de adaptação. Adaptação essa que, neste livro, não me caiu particularmente bem.

A segunda metade revelou-se, contudo, diferente. Mais fluida, a narrativa segue em direcção fim inevitável que é ditado ao longo de quase cada página. Existem passagens lindíssimas, arrepiantes, momentos em que os conceitos que temos do mundo e da existência parecem fugir-nos para longe durante alguns segundos. Não é que tenha apreciado a maioria das cenas românticas, porque escapam-me um pouco: são relatadas como algo plástico, meio artificial. Ou pelos menos fiquei com essa sensação.

O misticismo japonês, misturado com a questão ascética indiana, são o elemento que mais destaco no livro. Esta questão das seitas, das aparições fantasmagóricas, da sensibilidade para o sobrenatural; e do exílio, das orações pela paz, das montanhas de retiro... são questões que, no campo da literatura, e pela experiência que tive com este livro, se revelaram interessantes. E acabam por ser o ponto mais profundo, a marca que 'A Última Amante de Hachiko' deixa em mim.

Resumindo e concluindo, ou tentando resumir e concluir: fico com um sentimento meio abstracto e ambíguo em relação ao livro. Se por um lado existem passagens que transmitem as sensações das cores e da existência humana, existem outras em que o amor nos parece exageradamente descabido. Se em certos momentos a história sobe a níveis de emoção e cria e ligações quase místicas com o leitor, noutros parece que tudo não passa de uma refeição que comemos, digerimos, e já está. Pelo vínculo que renova em relação ao imaginário oriental, valeu a pena a leitura. Ainda tenho os restantes três da autora para ler, e vão servir como termo de comparação. Uma leitura muito agradável, mas que soube a pouco, e deixou um travo agridoce na consciência.


Personagem Preferida: Hachiko, mas não criei ligação com nenhuma em particular.

Nota (0/10): 7 - Bom


Tiago

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Desabafo

A todos os leitores do Lydo e Opinado:

Ainda não passou um ano desde que escrevi um desabafo a propósito do blog. Na altura mostrei o meu desânimo pelos dias em que não colocava nada de novo no espaço, e confessei o meu medo de perder visitantes por essas falhas na regularidade. Falhas que se tratavam de não escrever no blog 5 dias por mês. Ao reler este meu testemunho de Julho passado, não pude evitar rir-me. O que dizer da situação do Lydo e Opinado neste ano, não é?

Esta reflexão quer explicitar aos leitores do nosso espaço a nossa política actual, a dois meses do nosso 3º aniversário: a crítica literária. Para onde foram as entrevistas? Para onde foram os passatempos? E as crónicas do mês? E as novidades da semana? Tudos aqueles elementos que, no fundo, estão explícitos na imagem-título no topo do blog? Pois é. Dos 36 artigos que publicámos este ano, 24 são críticas a livros.

A todos os que nos visitavam pelas crónicas de opinião; pelas entrevistas exclusivas aos autores, tradutores, editoras; pelos passatempos em que oferecíamos livros que gostávamos cedidos por editoras... as nossas sinceras desculpas. Na vida de um blog existem muitas fases, e estamos actualmente a viver uma diferente da do ano passado. O 12º ano de escolaridade não nos tem dado muitas abertas, e mesmo assim temos conseguido manter o ritmo de leitura e a sinceridade e independência nas críticas. Mas não dá para mais.

Regressámos, pois, temporariamente ou não, ao objectivo inicial do nosso blog: lermos, e opinarmos. As nossas críticas são sinceras: não estamos associados a qualquer editora e fazemos questão de assim continuarmos a estar. Podemos ter as nossas preferências entre as muitas que existem, mas não somos obrigados por ninguém a ler nada. Dizemos mal de um livro quando queremos dizer. Expressamos o melhor que conseguimos os nossos sentimentos para com uma leitura.

A todos os visitantes que continuam a passar pelo nosso canto, seja desde o princípio ou desde a semana passada, um obrigado profundo e sincero. O Lydo e Opinado pode ter uma frequência menor de artigos, mas continuamos empenhados na crítica que fazemos ao que lemos. Escrevemos para todos vocês, na mesma medida em que também vos consultamos. A rede de blogs sobre literatura é vasta, e partilhamos experiências diariamente, com vista a detectarmos os livros que foram "escritos para nós", e aqueles que, pelos vistos, nos passam ao lado.

A todos um muito obrigado, em meu nome e da Sara, e possa o Lydo continuar a ser um poço de críticas para todos os que vêm em busca de uma opinião.


Tiago

terça-feira, 17 de maio de 2011

Crítica - Valley Song


Título: Valley Song
Autor: Athol Fugard
Editora: Theatre Communications Group
Nº de Páginas: 60
Preço Editor: 12,26€

Sinopse: «Rarely has a playwright been so closely identified with his country and his people as Athol Fugard. Fugard's extensive body of work has served as one of the moral beacons in the bleak world of South Africa, and now, in Valley Song - this coming-of-age story about a young girl seeking the courage to embrace the future while her grandfather searches for the wisdom to let go of the past - he applies his great gift to the work of healing and of envisioning the future.»


O contexto desta leitura: obrigatória na disciplina de Inglês no 12º ano (na área de Línguas e Humanidades). Não existe tradução portuguesa deste texto dramático sul-africano, escrito em inglês. A obra, essa, é praticamente impossível de obter em Portugal - foram precisas muitas idas à FNAC, muitas encomendas e adiamentos, e no fundo comprar pela Amazon até teria sido a solução mais prática. Mas falemos da leitura, que estes apartes são de pouco interesse quando se trata de fazer uma crítica ao livro.

A peça, escrita em 1996, fala-nos de uma África do Sul em dificuldades, em que a desigualdade é um problema sério. Das três personagens que nos são apresentadas, o avô e a neta são aqueles que imediatamente captam a nossa atenção. Não só a relação entre eles, e sim cada um deles separadamente: o avô, preso aos fantasmas do passado; a neta, que acredita no poder de sonhar e ir mais além. O sentimento à volta do qual o texto se vai desenrolando é o de que está a chegar a hora de as coisas mudarem: aprenderam muito um com o outro, mas o conflito terá de rebentar mais cedo ou mais tarde.

As didascálias estão presentes em bom número. Não são em demasia, o que irritaria o leitor devido à falta de fluidez dos diálogos; nem são demasiado poucas, o que nos ajuda a definir um pouco as intenções correctas e os movimentos. Foi para mim complicado imaginar aquelas cenas a desenrolarem-se num palco de teatro: como leitores somos imediatamente levados a imaginar os cenários, as enormes planícies africanas, as propriedades, a escuridão da noite e o canto dos grilos. Nas cenas em que a personagem «Autor» aparecia, lembrava-me subitamente que se tratava de um cenário, de uma recriação, de um palco. Ler teatro é estranho nesse sentido.

Veronica, a neta, nutre uma adoração pelo canto. Inventa as suas próprias músicas, cujas letras estão presentes ao longo do livro. Dou um bom destaque a estas canções. Era quase como se as conseguisse ouvir. Gostei muito das letras, achei-as muito musicais, e este trabalho de poesia que o autor desenvolveu e inseriu no livro está de muito bom gosto.

Gostei do desenrolar da história, e no fim fica a sensação de que acabou a peça, aplaudi sem grande vontade, me levantei do meu lugar, e regressei a casa. Claro que algumas questões me ficaram no pensamento, mas não penso que a obra atinja uma intensidade suficiente para marcar um leitor. Ao vivo, provavelmente, seria um caso diferente - dependerá das interpretações, claro. E comparar literatura com artes de espetáculo é injusto e impossível. Mas esta sensação de que a trama poderia ter ido um pouco mais longe irá perseguir-me enquanto analisar a obra nas aulas. Ou, quem sabe, ao aprofundar certas passagens, descubra enquantos que a uma primeira leitura me tenham escapado. Uma leitura agradável, que aponta um dedo à situação social na África do Sul, e nos relembra das divergências existentes entre gerações. É nesses choques geracionais, contudo, que o mundo vai evoluindo...


Personagem Preferida: Buks, embora a teoria dos sonhos de Veronica seja maravilhosa.

Nota (0/10): 6 - Agradável


Tiago

domingo, 15 de maio de 2011

Crítica - A Canção da Ninfa

Título: A Canção da Ninfa
Saga: As Novas Crónicas de Spiderwick 1#
Autores: Tony DiTerlizzi e Holly Black
Tradutora: Isabel Gomes
Editora: Editorial Presença
Nº de Páginas: 162
Preço Editor: 8,68€

Sinopse: «Julgas que aqui a vida é só divertimento e sol? Vê bem! Isto até era bastante bom antes de me terem arranjado esta meia-irmã sem jeito e pateta. E não veio sozinha. Trouxe aquele livro enorme e estúpido sobre criaturas fantásticas. Ela garantiu que existiam mesmo, mas achas que eu acreditei? Não. Disse-lhe que era uma fraude. Meu! Estava enganado. Agora há criaturas fantásticas por todo o lado! POR TODO O LADO! E NÃO se vão embora se não as ajudarmos! AZAR!»


Cinco anos depois da minha última incursão pelo mundo de Spiderwick, eis que regresso a um território do qual tinha saudades. «As Crónicas de Spiderwick», editadas em 2004, foram uma das minhas primeiras incursões na leitura voluntária. Uma vez, há uns seis anos, comprei o primeiro volume numa feira do livro, e na altura aquelas 105 páginas (com ilustrações pelo meio) foram a minha leitura de Verão. Os 4 volumes seguintes não tardaram; e depois foi a adaptação cinematográfica; e depois... nada.

Até que o ano passado foi lançada uma trilogia-sequela: «As Novas Crónicas de Spiderwick». É como vos digo: as saudades falaram mais alto, e adquiri o primeiro volume, numa dualidade de sentimentos que era regressar àquele imaginário e ao mesmo tempo ter medo de desmistificar o original. Ora, nesta leitura que me durou apenas duas horas (a sério que fiz um esforço para aproveitar cada página...), fiquei com uma sensação positiva a agitar-se em mim.

Numa primeira fase, o livro parece que vai seguir um pouco as pisadas dos anteriores; isto embora mude de cenário e de personagens. Mas depois a linha da história vai evoluindo, de forma quase melódica, e somos puxados para os cenários e a beleza daquele mundo no qual trevos de quatro folhas nos permitem distinguir criatura fantásticas! A intriga vai evoluindo, e a ligação que temos com cada uma das personagens também. Para um livro infanto-juvenil, «A Canção da Ninfa» atingiu-me de forma muito particular. Talvez por trazer ao de cima vivências que já tinha experimentado com 11, 12 anos.

E depois um momento de clímax para os leitores dos volumes anteriores - as histórias entrecruzam-se! E mais não posso contar, sobre perigo de spoilers que podem ser facilmente controlados. Fiquemo-nos pela descrição: a escrita de Tony DiTerlizzi e Holly Black é fluida, verdejante, e cativante. Não conseguimos perceber onde acaba o toque de um e onde começa o do outro, este livro a duas vozes é uno nas sensações que transmite. As personagens são interessantes, têm os seus defeitos e as suas qualidades, e é fácil de criarmos uma ligação emocional com elas.

Achei o livro muito bonito. Fiquei com pena de ser tão pequeno (isto apesar de ser o maior dos 6 livros!), e quando o leitor se começa a entusiasmar mais do que nunca - é quando acaba. Não sei explicar melhor: existe uma qualquer magia nestas páginas, Spiderwick tem qualquer coisa que outros livros deste cariz não têm. Dá vontade de ir a correr em direcção a um bosque em busca de um gigante, ou de um lago cheio de ninfas, ouvir a canção de Taloa... as ilustrações são excelentes, e o trabalho de edição da Editorial Presença também é digno de nota, com a capa ao nível das anteriores. Recomendado a miúdos e graúdos - vão encontrar encantamentos nestas páginas, para além da simplicidade com que a história é contada!

Personagens Preferidas: Nick, e a breve aparição de... [spoiler a branco: Simon].

Nota (0/10): 7 - Bom

Tiago

sábado, 14 de maio de 2011

Crítica - A Corte dos Traidores


Título: A Corte dos Traidores
Autora: Robin Hobb
Tradutor: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência
Nº de Páginas: 348
Preço Editor: 19,03€


Vamos encarar frontalmente as circunstâncias - eu estava há dois meses e meio com o conjunto formado por este livro e o anterior. Embora só há três semanas com esta segunda metade. É, naturalmente, muito tempo partilhado com um universo, com umas personagens, com uma envolvência dramática cativante e excepcionalmente bela e bem construída. É, no mínimo, o tempo suficiente para me sentir desamparado e meio embasbacado com a beleza literária do mundo do qual acabei de sair - se não fosse o conforto de saber que ainda tenho o último volume da trilogia para ser lido daqui a uns meses, tenho a certeza que o desamparo seria ainda maior.

Não vou dizer que não tenho palavras. Tenho-as. Depois de 700 páginas de enredo, o que não me faltam são palavras. Esta segunda metade é... lenta na sua fluidez. Os acontecimentos e a tensão concentram-se cada vez mais, já se vê ao longe o rasto de poeira que os cavalos levantam ao aproximar-se, tão perto, tão perto... e no entanto a autora consegue manter um clima calmo, natural.

Existem, claro, momentos de explosão. E nem sempre me senti no controlo da informação que se estava a passar. Momentos houveram em que o meu desnorteamento vagueou pelos corredores de Torre de Cedro, subiu ao Jardim da Rainha, e tentou em vão usar o Talento para compreender as acções que se estavam a desenrolar. A autora é particularmente boa na construção das intrigas: os jogos que estão por detrás, as condições, os planos... mas, às vezes, chegada aos momentos de aceleramento e incisivos, os pensamentos do narrador perdem-se no meio da adrenalina. Deliberadamente, mas ainda assim desagradável para mim enquanto leitor.

E tudo isto visto pelos olhos da personagem maravilhosa que é FitzCavalaria. Por vezes sinto dificuldade em gostar particularmente de protagonistas das histórias. A Saga do Assassino não foi, nem é, excepcção. Mas há em Fitz uma consistência, aliada a um factor emocional exaustivamente explorado (estamos com ele cem por cento do tempo, não é?), que elevam a personagem a muito mais do que "o principal". Muito ajudado pela teia de personagens que o rodeiam. E os cenários, inspiradores. Os diálogos escorrem de forma tão natural e cativante. A lentidão do romance disfarça-se bem, mas está lá; e o contrário: a lentidão do romance está lá, mas disfarça-se bem.

E, por fim, com finais destes uma pessoa não consegue manter as barreiras em cima. Há toda uma ousadia, uma invasão de emoções que são levadas até ao fim. Quando esperamos um desfecho comum (até podemos ter duas ou três hipóteses na cabeça), somos surpreendidos. E, se alguma vez tínhamos pensado que ia terminar de tal maneira, somos ainda assim surpreendidos com a beleza criada à volta dos acontecimentos. O livro é cheio de sensações: a humidade dos reinos costeiros, o calor da fogueira no quarto da rainha, os lençóis de Moli, o cheiro a comida nas cozinhas, os livros roídos pelos ratos na biblioteca, os uivos de um certo lobo, e o Talento que sai do livro e nos acompanha connosco em próximas leituras.

George R. R. Martin disse acerca desta saga - «toda a fantasia devia ser assim». Percebo onde quer chegar, mas sou tentado a discordar. A riqueza desta obra está exactamente no contraste que faz com tantas outras fantasias; a existência de todas elas motiva a excepcionalidade conferida a esta. Emocionante e de leitura forte, será difícil deixar este universo por muito mais que alguns meses. Há todo um desfecho da trilogia à minha espera, e tenho a certeza que com muitas surpresas ainda por serem estampadas na minha consciência de leitor. Excelente, a sério! Para leitores pacientes, mas muito belo.


Personagens Preferidas: A rainha expectante; o protagonista; e... Castro.

Nota (0/10): 9 - Excelente


Tiago
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